Economista da UFRJ alerta: plano de Flávio Bolsonaro levará o Brasil à recessão
Denise Gentil critica cortes de R$ 300 bilhões, diz que proposta favorece os mais ricos e alerta para efeitos sobre emprego, renda, serviços públicos e crescimento da economia brasileira
Publicado: 04 Outubro, 2026 - 09h36 | Última modificação: 04 Outubro, 2026 - 09h59
Escrito por: Rosely Rocha
Alto índice de desemprego, salários e aposentadorias congeladas, corte de benefícios, inflação, recessão e a “argentinização” da nossa economia. Esse será o resultado do programa econômico apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), ao apostar em uma regra fiscal que restringe o crescimento das despesas e corta 1,5% do PIB, avalia a economista Denise Gentil, professora e colaboradora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que atua na pesquisa e ensino na instituição.
Para Denise, a lógica de reduzir rapidamente as despesas para conquistar a confiança do mercado desconsidera o papel que os gastos públicos exercem sobre a atividade econômica. A campanha de Flávio defende redução de pelo menos 10 ministérios, corte de cargos comissionados e despesas administrativas e "substituição de cargos operacionais e administrativos por inteligência artificial". O plano é de um “tesouraço” nos gastos públicos e uma nova regra para controlar as despesas de acordo com a trajetória da dívida pública.
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, já afirmou que o ajuste pretendido seria equivalente a 1,5% do PIB. A equipe também passou a trabalhar com uma proposta de corte de cerca de R$ 300 bilhões em uma eventual “PEC da Transição”, mas o desenho concreto dos cortes e seu cronograma ainda não foram divulgados integralmente.
Segundo Denise, o problema está no efeito desse tipo de ajuste radical sobre a demanda. “Numa situação em que você corta R$ 300 bilhões de gastos públicos federais, você não economiza R$ 300 bilhões. Você retira da economia algo em torno de R$ 450 bilhões a R$ 500 bilhões de demanda”, afirma.
A explicação, diz ela, está no efeito multiplicador dos gastos públicos. Quando o governo reduz suas despesas, famílias e empresas recebem menos recursos, o consumo diminui porque a renda cai, os investimentos privados são afetados e a arrecadação também cai. “Quando o Estado gasta menos, as famílias e as empresas recebem menos, logo, as famílias vão consumir menos, as empresas vão investir menos e a arrecadação vai cair”.
Para a professora, o resultado pode ser justamente o contrário daquele pretendido pela equipe econômica: em vez de reduzir a relação dívida/PIB, a política de austeridade pode elevar esse indicador. “O PIB vai diminuir exatamente porque as famílias vão consumir menos e porque as empresas vão investir menos”, diz. “Logo, o PIB caindo, reduz o denominador da relação dívida/PIB enquanto o numerador se eleva em função da queda da receita do governo”.
Para ela, o país poderia entrar em um ciclo vicioso no qual a queda da atividade econômica reduz a arrecadação, aumenta a relação dívida/PIB e produz pressão por novos cortes.
Denise critica especialmente a proposta de estabelecer um mecanismo que reduza ainda mais as despesas à medida que a dívida pública aumenta. Segundo ela, os parâmetros exatos da regra fiscal ainda não estão claros, mas pelo que foi dito à imprensa, é o crescimento real dos gastos federais ser zero se a dívida bruta do governo ultrapassar 80% do Produto Interno Bruto (PIB). Na prática, isso significaria um congelamento dos gastos públicos em termos reais.
Essa regra que eles estão propondo,de cortar ou congelar o gasto real é exatamente a recessão e a recessão faz a dívida subir mais
A economista tem uma visão diferente da política fiscal. Para ela, “o equilíbrio fiscal não pode ser tratado como um fim em si mesmo. O gasto público deve ser avaliado por seu efeito sobre a demanda e, sobretudo, sobre a capacidade produtiva: ao ampliar emprego, renda e consumo, pode induzir investimento privado, elevar a arrecadação e ampliar o próprio produto, reduzindo a relação dívida/PIB. A austeridade produz o efeito inverso, tornando o equilíbrio fiscal uma meta que, paradoxalmente, dificulta sua própria obtenção”.
Denise defende que investimentos públicos, benefícios sociais e serviços públicos de saúde e educação oferecidos pelo Estado podem gerar renda e criar demanda e, a partir daí, estimular novos investimentos privados. “Para estimular o investimento privado, o Estado tem que gastar antes. Criar renda e demanda, para depois o investimento privado reagir. O investimento privado precisa ser induzido pelo gasto público”, diz.
Ela também questiona a ideia de que o corte de gastos seria suficiente para produzir confiança e, a partir daí, aumentar o investimento. “O problema é que o governo, ao tentar conquistar a confiança do mercado pela austeridade, corre o risco de não ter nem a confiança plena do mercado — que sempre pode exigir mais ajuste fiscal e nunca se convencer com o superávit que o governo entrega — e nem conquistar o apoio popular, porque sua base política não perceberá benefícios materiais vindos do sacrifício fiscal”.
O programa de Flávio Bolsonaro prevê R$ 900 bilhões em investimentos em infraestrutura entre 2027 e 2030, com forte dependência da iniciativa privada, por meio de concessões e PPPs, complementadas por mecanismos de financiamento público e por um novo fundo lastreado em ativos e imóveis da União. Para Denise, o programa aposta principalmente na participação privada, mas é um equívoco esperar por uma forte reação dos empresários em uma economia que, ao mesmo tempo, esteja sendo submetida a um forte corte de gastos públicos e em desaceleração.
Benefícios aos empresários e prejuízos para os trabalhadores
Para Denise, é preciso perguntar quem se favorece com a redução dos gastos públicos, associada à redução de impostos defendida pela campanha de Flávio Bolsonaro. A mudança na tributação tende a favorecer grupos empresariais, inclusive os que vivem de rendimentos financeiros enquanto transfere os efeitos do ajuste fiscal para os trabalhadores por meio de menor oferta de serviços públicos, menor investimento e possível aumento do desemprego.
A desoneração tributária favorecerá empresários. A redução da carga tributária será feita em favor do capital, enquanto a austeridade fiscal será prejudicial ao emprego e à renda da classe trabalhadora
Leia mais Proposta de Flávio de corte no PIB acaba com ensino público e precariza salários
Leia mais Proposta de Flávio Bolsonaro para a saúde põe em risco o SUS
A economista também relaciona o nível de atividade econômica ao poder de negociação dos trabalhadores. Quando a economia cresce e o desemprego cai, diz ela, aumenta a capacidade dos trabalhadores de reivindicar salários e melhores condições de trabalho. Já uma política de austeridade pode produzir o efeito inverso.
“Quem vai se beneficiar com o rigorosíssimo regime fiscal proposto? Ele vai beneficiar em primeiro lugar a classe rentista e os empresários que são a sua base de apoio político. Vai intervir na luta de classes contra os trabalhadores, cortando gasto com saúde, educação, previdência e investimento público”, e prossegue: “O Estado deixará de ser o Estado que garante um desemprego baixo, de 5,3% e uma renda média mais elevada, para ser um Estado que estrangula a economia, para poder esmagar o poder de barganha dos trabalhadores e garantir lucro mais elevado”, afirma.
Na avaliação da economista, portanto, o debate crítico sobre o programa econômico de Flávio Bolsonaro não deveria se limitar analisar a promessa de equilíbrio das contas públicas para posterior redução dos juros. É preciso considerar “os impactos políticos e os custos sociais sem nenhuma segurança da queda da taxa de juros”. Esta, segundo a professora, “é definida pelo banco central, que leva em consideração as expectativas geopolíticas, as condições financeiras internacionais e o risco cambial.
O resultado fiscal pode ser extremamente favorável e mesmo assim os juros se manterem persistentemente elevados, porque estão fortemente determinados pelo poder dos detentores de ativos financeiros indexados à Selic. A economia brasileira vivi uma financeirização acelerada, cujo motor é a taxa de juros”.
Leia mais Plano de Bolsonaro é acabar com a organização da classe trabalhadora. Entenda
Economista vê risco de “argentinização” da economia
A principal referência internacional apontada por Denise como preocupação para a construção do programa econômico de Flávio Bolsonaro é a Argentina de Javier Milei. A economista contesta a ideia de utilizar a Argentina como referência para o Brasil e destaca que “os dois países se encontram em situações econômicas muito diferentes e qualquer analogia é um equívoco. No Brasil o desemprego está baixo, a inflação em trajetória de desaceleração, as reservas internacionais são robustas e o câmbio não apresenta sinais de descontrole. A dívida pública cresce, mas não se encontra numa trajetória explosiva e é predominantemente interna, denominada em reais”.
Denise explica que, Daniella Marques e Adolfo Sachsida, que coordenam a área econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, defendem uma política de forte redução das despesas públicas inspirada no modelo adotado pelo governo argentino.
“O que a Daniella Marques e o Adolfo Sachsida [economistas da campanha de Flávio] estão propondo, se for empregado para o Brasil, será um desastre econômico. É incabível associar a situação da Argentina com a situação do Brasil. É uma ameaça para nós”, critica.
Os dados mais recentes mostram que a pobreza voltou a crescer na Argentina no primeiro semestre de 2026, atingindo 32,3% da população, enquanto a indigência chegou a 7,5%. O levantamento oficial também mostra que 44,5% das pessoas em situação de pobreza são crianças e adolescentes de até 14 anos.
O fechamento de empresas também foi expressivo. Dados reunidos pela Fundar apontam que 31,3 mil empresas deixaram de existir entre novembro de 2023 e junho de 2026, além da perda de 245 mil empregos formais. A indústria acumulou retração e diferentes setores registraram queda de atividade.
Para Denise, esses resultados mostram os riscos de uma política baseada em cortes profundos de despesas.
Seria uma argentinização da economia brasileira, ou seja, falência de milhares de empresas, destruição da indústria, aumento do desemprego e da informalidade que levam a população à fome, à pobreza e à indigência
Leia mais Em um ano, pobreza na Argentina sobe quase 30% e atinge 35,4% da população