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Dossiê aborda “trabalho invisível” de mulheres e meninas ao redor do mundo

Segundo dados de 2019, mulheres dedicam, em média, 21 horas semanais ao trabalho doméstico; pandemia piorou cenário

Publicado: 16 Março, 2021 - 10h22 | Última modificação: 16 Março, 2021 - 10h32

Escrito por: Pedro Neves Dias, do Brasil de Fato

Reprodução: Tricontinental
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O trabalho doméstico e de cuidado recai, na maioria das vezes, sob mulheres e meninas ao redor do mundo. Esse tipo de atividade é conhecida também como “trabalho invisível”, pois não é remunerado, mas espera-se que as mulheres cumpram o papel de fazê-lo.

Essa situação se torna ainda mais desigual em momento de pandemia, onde as pessoas estão mais presas ao ambiente doméstico, aumentando a sobrecarga de trabalho feminina.

Essa é uma das conclusões do estudo “CoronaChoque e Patriarcado”, produzido pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social em novembro do ano passado e relançado em função do mês de luta das mulheres. O relançamento do estudo foi acompanhado da campanha "Não é amor, é trabalho invisível".

A série “CoronaChoque” têm sido publicada desde o ano passado, abordando as consequências do desenrolar da crise sanitária provocada pela covid-19 no mundo todo. 

"Na série sobre o CoronaChoque, temos debatido como um vírus que atingiu o mundo com tanta força tem sido capaz de revelar rapidamente as ineficiências sociais, políticas e econômicas atuais e, com isso, colaborado para desmoronar a ordem social", explica Eli Gómez Alcorta, ministra das mulheres, gênero e diversidade da Argentina, que assina o prefácio da pesquisa.

Além desse estudo, o Tricontinental lançou também o dossiê N°38: “Desatando a crise; trabalhos de cuidados em tempos de coronavírus”, que trata especificamente sobre os trabalhos de cuidado tocados pelas mulheres, especialmente em tempos de pandemia.

O trabalho de cuidado e doméstico

O estudo lembra que o cuidado é um trabalho, exige esforço e tempo. “[O cuidado é um] trabalho que garante que nossas necessidades materiais e psicológicas básicas sejam atendidas, assegurando nosso desenvolvimento humano. O trabalho do cuidado inclui atividades diárias diversas como cuidar de crianças, idosos, enfermos e pessoas com deficiências físicas e mentais”, diz trecho do dossiê.

Lembra também que as tarefas domésticas como cozinhar e a limpeza também são atividades consideradas de cuidado e essenciais para viabilizar o trabalho “fora de casa”.

“Embora essa atividade seja essencial para a reprodução da força de trabalho, ela praticamente não é reconhecida e, quando há remuneração, os salários costumam ser baixos.”

O estudo cita um relatório da Oxfam, feito durante a pandemia, apontando que as mulheres são responsáveis por 75% do trabalho de cuidado não remunerado realizado no mundo, somando, diariamente, mais de 12 bilhões de horas gastas por mulheres e meninas em todo o mundo.

O dado mais impactante é que todas essas horas de trabalho correspondem a uma quantia de aproximadamente 10 trilhões de dólares por ano, cerca de três vezes mais do que o valor gerado pela indústria tecnológica, por exemplo.

No Brasil, mulheres dedicam o dobro do tempo ao trabalho doméstico e de cuidado

Os dados são ainda mais desiguais ao se olhar para a realidade brasileira e apontam que 85% do trabalho de cuidado é feito por mulheres.

Segundo o IBGE, em 2019, as mulheres dedicavam, em médiam pouco mais de 21 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto os homens apenas 11 horas, praticamente a metade do tempo.

Nos casos das mulheres que trabalham fora de casa, a desigualdade persiste: elas cumprem, em média, mais de 8 horas a mais em obrigações domésticas em relação aos homens que também trabalham fora.

Essa realidade, aponta o estudo do Tricontinental, se acentuou na pandemia.

Na pandemia, desigualdade se acentuou

De acordo com uma pesquisa da Sempreviva Organização Feminista e da revista digital Gênero e Número, estima-se que 50% das brasileiras passaram a cuidar de alguém nesse período de crise sanitária.

Pouco mais de 70% das mulheres que participaram da pesquisa afirmaram que o trabalho de cuidado, especialmente com crianças, idosos ou pessoas com deficiência, aumentou.

Além disso, cerca de 40% das mulheres que seguiram com seus trabalhos “fora de casa” durante a pandemia, com manutenção de salários e carga horária, afirmaram que estão trabalhando mais na quarentena.

O estudo acrescenta ainda que as mulheres que puderam passar a exercer seus trabalhos de forma remota tiveram acrescidas diversas dificuldades ao seu cotidiano. Primeiro, a mistura entre trabalho externo e doméstico cria uma rotina de esforço que parece não ter fim.

“O tempo da faxina, da higienização, de cozinhar e lavar se somam às tantas outras demandas externas. Mães se tornam educadoras de seus filhos, filhas de idosos e enfermos se tornam cuidadoras; os trabalhos outrora compartilhados com creches/escolas e outras profissionais e ajudantes se acumulam e se justapõem, apagando a divisão entre tempo trabalho e tempo casa”, explica o dossiê.

Outra dificuldade posta pela situação do trabalho remoto é a grande dificuldade de exercer tarefas que exigem alta concentração, devido à grande quantidade de interrupções.

Este quesito tem sido notado pela queda acentuada na quantidade de submissões de artigos assinados por mulheres em todo o mundo, enquanto as publicações dos homens aumentaram em quase 50%.

Soluções imediatas à crise não são difíceis de encontrar

O estudo apresenta uma estimativa de que no Brasil, segundo o IBGE, haverá em 2050 "cerca de 77 milhões de pessoas dependentes de cuidado (pouco mais de um terço da população do país) entre idosos e crianças."

Para isto, soluções imediatas não são difíceis de pensar, muito menos implementar. De acordo com a Oxfam, "se o 1% mais rico do mundo pagasse um imposto de 0,5% sobre sua riqueza nos próximos 10 anos, seria possível criar 117 milhões de empregos em educação, saúde e de cuidado para idosos".

O estudo ainda alerta que, de acordo com os sinais atuais, não há perspectivas da implementação das taxações de grandes fortunas.

Ao contrário, em plena pandemia o que se observou foram políticas e ajustes para continuar beneficiando grandes bancos e empresas, demonstrando que parte do problema da desigualdade social e de gênero é político e não apenas econômico.

O estudo conclui essas observações com uma frase de mais de um século da feminista e educadora Alexandra Kollontai: “O capitalismo colocou um fardo esmagador sobre os ombros da mulher: fez dela uma trabalhadora assalariada sem ter reduzido seus cuidados como governanta ou mãe”.

Fonte: BdF Rio Grande do Sul

Edição: Poliana Dallabrida e Katia Marko