Do golpe no Chile à defesa da soberania: uma lição atual para o Brasil
53 anos após a derrubada de Salvador Allende, disputa por recursos estratégicos, interesses econômicos e discursos autoritários recolocam no centro do debate a democracia
Publicado: 11 Setembro, 2026 - 11h01 | Última modificação: 11 Setembro, 2026 - 11h18
Escrito por: Luiz R Cabral
Cinquenta e três anos depois do golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, a experiência do Chile continua ajudando a compreender disputas que atravessam a América Latina. Quem controla as riquezas de um país? Quem define sua política econômica? E até onde pode chegar a influência de interesses estrangeiros sobre decisões soberanas?
As perguntas ganham novo significado diante da disputa mundial por minerais estratégicos, como cobre, lítio, nióbio e terras raras. São recursos fundamentais para a indústria e para a transição energética e que colocam países latino-americanos no centro de interesses econômicos e geopolíticos. Para os trabalhadores, a questão não é apenas quem controla essas riquezas, mas que empregos serão criados, quem ficará com a renda e qual projeto de desenvolvimento será construído a partir delas.
“A experiência chilena nos ensina que soberania também depende da capacidade de definir políticas econômicas, tecnológicas e industriais de acordo com o interesse nacional, sem permitir que interesses externos ou grandes corporações tenham poder desproporcional sobre decisões estratégicas”, afirma Antônio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT.
O golpe no Chile e os interesses econômicos
Eleito democraticamente em 1970, Salvador Allende promoveu mudanças econômicas e sociais que incluíam a nacionalização de setores estratégicos, entre eles a grande mineração do cobre, principal riqueza mineral do Chile. A medida atingiu interesses de grandes empresas estrangeiras e ocorreu em plena Guerra Fria, quando os Estados Unidos buscavam conter o avanço de governos de esquerda na América Latina.
Documentos posteriormente liberados pelo governo norte-americano revelaram ações dos Estados Unidos para impedir a chegada de Allende ao poder e, depois, desestabilizar seu governo. Arquivos do governo brasileiro também mostram que o Brasil colaborou com setores militares chilenos envolvidos na conspiração que levou ao golpe.
Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet, bombardearam o Palácio de La Moneda e derrubaram o governo constitucional. O golpe deu início a uma ditadura que durou 17 anos e foi marcada por perseguições, prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados.
Do golpe à experiência neoliberal
O golpe não interrompeu apenas uma experiência democrática. Sob a ditadura de Pinochet, o Chile passou por uma profunda transformação econômica. Privatizações, abertura ao capital externo e redução do papel do Estado ganharam espaço com a participação dos chamados “Chicago Boys”, economistas influenciados pelas ideias da Escola de Chicago.
O modelo alterou profundamente a relação entre Estado, economia e sociedade. Para os trabalhadores, as mudanças significaram redução da proteção social e transformações nas relações de trabalho, com impactos sobre emprego, renda, previdência, serviços públicos e a soberania nacional.
Mais de cinco décadas depois do golpe, o Chile é novamente governado pela direita. O atual presidente, José Antonio Kast, é um político de extrema direita e assumiu o governo em março de 2026, após vencer a eleição presidencial.
Sua chegada ao poder recoloca no debate político do país questões relacionadas à memória da ditadura, ao papel do Estado na economia e ao modelo de desenvolvimento adotado pelo Chile. A ascensão de Kast também dá novo significado à discussão sobre os caminhos econômicos e sociais construídos desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet e põe em risco,novamente, a soberania do país.
A experiência chilena tornou-se uma referência internacional para políticas de orientação neoliberal. No Brasil, a influência dessa corrente também esteve presente na trajetória de Paulo Guedes, ministro da Economia no governo Jair Bolsonaro. Guedes fez doutorado na Universidade de Chicago e, durante sua passagem pelo governo, defendeu privatizações, redução da participação do Estado na economia, maior abertura ao setor privado e fim de diretos trabalhistas.
Riquezas estratégicas unem Chile e Brasil
O Chile continua entre os principais produtores mundiais de cobre e possui grandes reservas de lítio. O Brasil, por sua vez, reúne importantes reservas de nióbio, terras raras, níquel, grafita e outros minerais estratégicos. Com o aumento da demanda mundial por esses recursos, as riquezas minerais dos dois países ganharam peso nas disputas econômicas e geopolíticas.
Nesse cenário, a questão não é apenas possuir essas reservas, mas definir como serão exploradas e qual será o destino da riqueza gerada. Para a classe trabalhadora, isso significa discutir industrialização, empregos de qualidade, qualificação profissional, arrecadação pública, proteção ambiental e distribuição de renda.
A experiência chilena ajuda a entender a dimensão dessa escolha. A ditadura de Pinochet promoveu uma profunda transformação econômica, marcada pela abertura ao capital externo e pela redução do papel do Estado. Mas deixou de lado questões que passam pela capacidade de decidir se um país será apenas fornecedor de matéria-prima ou se terá condições de agregar valor, fortalecer sua indústria e gerar trabalho decente a partir de seus próprios recursos.
É nesse contexto que a CUT defende uma estratégia de integração regional capaz de ampliar a autonomia dos países latino-americanos diante da disputa entre grandes potências.
“Historicamente, defendemos que a América Latina não deve escolher entre a subordinação aos Estados Unidos, à China ou a qualquer outra potência. Isoladamente, nossos países têm menor capacidade de negociação; por isso, mecanismos de integração como o Mercosul são fundamentais para ampliar nossa autonomia e soberania”, afirma Lisboa.
O ditador Pinochet como referência no Brasil
A memória do golpe chileno também permanece presente na política brasileira. Mais de cinco décadas depois, Augusto Pinochet continua sendo citado positivamente por setores da extrema direita, apesar do histórico de violações de direitos humanos de sua ditadura.
Em 2019, por exemplo, já presidente da República, Jair Bolsonaro defendeu Pinochet ao responder a críticas de Michelle Bachelet, então alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos.
Na ocasião, afirmou que, sem o general chileno, o país teria se tornado uma “Cuba” e atacou a memória do pai de Bachelet, o general Alberto Bachelet, que se opôs ao golpe, foi preso e torturado pelo regime.
“Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 73, entre eles o seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Acho que não preciso falar mais nada para ela”, declarou Bolsonaro à época.
Leia mais: Oposição reage a declarações de Bolsonaro contra Michelle Bachelet
Novas formas de pressão
O contexto internacional atual é diferente daquele da Guerra Fria. Não há, portanto, uma repetição automática do cenário que levou ao golpe de 1973. Mas a influência política e econômica sobre a América Latina continua em disputa.
No governo Donald Trump, tarifas comerciais, sanções e pressão política passaram a ocupar espaço importante nas relações dos Estados Unidos com outros países. No Brasil, o tarifaço sobre produtos nacionais e as manifestações de apoio de setores da direita norte-americana a atores políticos brasileiros recolocaram em discussão os limites da influência externa sobre decisões soberanas.
A comparação com o Chile precisa ser feita com cuidado. O ponto em comum não é a existência de um novo golpe, mas uma questão mais ampla: como preservar a capacidade de um país de definir democraticamente suas próprias políticas econômicas diante da pressão de potências estrangeiras e de interesses privados transnacionais?
Para a CUT, essa defesa passa também pela integração dos trabalhadores. Em um cenário de disputa entre Estados Unidos, China e outras potências pela influência econômica e política na região, a cooperação entre os países latino-americanos deve caminhar junto com a defesa dos direitos sociais e trabalhistas.
“A integração também precisa ser dos trabalhadores, fortalecendo a cooperação sindical, defendendo direitos e negociação coletiva nas cadeias produtivas transnacionais e enfrentando a precarização do trabalho. Defender a integração latino-americana é, portanto, defender a democracia, a soberania e o direito dos povos de decidir seu próprio modelo de desenvolvimento”, afirma Lisboa.
Para o Brasil, a principal lição do Chile é que democracia e soberania não podem ser tratadas como questões separadas. Defender a capacidade de decidir os próprios rumos significa proteger setores estratégicos, fortalecer a indústria nacional, garantir trabalho decente e assegurar que a riqueza produzida no país esteja a serviço da maioria da população.
Cinquenta e três anos depois do golpe que derrubou Salvador Allende, a história chilena permanece como um alerta: soberania também significa ter capacidade de decidir democraticamente o destino das riquezas de um país e garantir que os trabalhadores participem dos benefícios desse desenvolvimento.
Para saber mais
Para quem quer conhecer melhor o processo que levou ao golpe de 1973, o documentário A Batalha do Chile, do cineasta Patricio Guzmán, é uma das principais referências sobre o período. Filmado durante os acontecimentos, a trilogia acompanha o governo de Salvador Allende, a crescente polarização política, a mobilização popular e a ofensiva que culminou no golpe militar.
A obra é dividida em:
- A Insurreição da Burguesia (1975)
- O Golpe de Estado (1976)
- O Poder Popular (1979)
Filmado durante o próprio processo político chileno, A Batalha do Chile reúne imagens que se tornaram documentos históricos sobre a experiência de Allende, a mobilização popular e o golpe militar.
