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Do Afeganistão ao Brasil, mulheres são principal alvo do fundamentalismo

Socióloga Jacqueline Pitangui, da ONG Cepia, teme pelo futuro das mulheres afegãs, mas alerta que perseguição sexista não é exclusividade de grupos radicais islâmicos

Publicado: 17 Agosto, 2021 - 11h47 | Última modificação: 17 Agosto, 2021 - 11h52

Escrito por: Redação RBA

ONU/Fardin Waezi
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Com a tomada de Cabul no último domingo (15) pelo grupo extremista Talibã, cresce a preocupação da comunidade internacional com o risco de retrocesso nos direitos das mulheres no Afeganistão.

O porta-voz do Talibã, Suhail Shaheen, chegou a prometer um “governo islâmico inclusivo”, garantindo a meninas e mulheres o direito à educação, da escola à universidade. Por outro lado, já há relatos de casamentos forçados e violência sexual contra elas nas áreas dominadas pelos fundamentalistas.

O histórico do grupo, que governou o país entre 1996 e 2001, serve de alerta. Além de não poderem estudar, as mulheres eram obrigadas a ficarem confinadas em casa. Só poderiam sair ou viajar com a presença de um homem da família. Até mesmo o acesso à saúde era limitado, pois era proibido que as mulheres fossem atendidas por médicos e enfermeiros do sexo masculino. Acusações de adultério poderiam resultar na pena capital por apedrejamento.

A socióloga Jacqueline Pitangui, fundadora e coordenadora-executiva da ONG Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação (Cepia), ex-presidenta do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, afirma que observa a situação das mulheres do Afeganistão “com enorme tristeza e preocupação”. Contudo, ela diz que a perseguição aos direitos das mulheres não é exclusividade das leituras fundamentalistas do Islã.

“O Afeganistão é lá, mas também é aqui. Ou seja, não é uma característica ou monopólio do islamismo. Se tomarmos a forma como diferentes religiões – muçulmana, judaica ou cristã – interpretam textos sagrados de maneira radical, fundamentalista, há uma coisa que é ao mesmo tempo dolorosa e intrigante: é sempre a mulher o alvo principal desses religiosos”, disse Jacqueline, em entrevista a Marilu Cabañas, para o Jornal Brasil Atual, nesta terça-feira (17).

Paralelos

A ativista afirma que o Afeganistão, apesar de extremo, não é um “ponto fora da curva”. O Brasil, que também está inserido nessa curva, sofre com o avanço do discurso fundamentalista religioso. Ela cita, por exemplo, que a luta pelos direitos sexuais e reprodutivos da mulher foi obstruída nos últimos anos. “Não é possível conversar sobre aborto no Brasil hoje sem cair numa questão religiosa, de demonização de quem está tratando desse assunto.” Nas escolas, também cresce a intolerância, com a tentativa de banir as discussões de gênero do currículo.

Na participação da mulher na política, o Brasil é ainda mais atrasado que o Afeganistão. Por lá, até a chegada do Talibã, elas ocupavam 27% das cadeiras do Parlamento. Por aqui, a bancada feminina na Câmara atingiu 15% nas últimas eleições, com apenas 77 deputadas entre os 513 representantes eleitos.

Na política internacional, o Brasil do presidente Jair Bolsonaro é um dos líderes do chamado Consenso de Genebra, aliança de países conservadores no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Até então, o grupo era comandado pelos Estados Unidos. Mas, com a chegada do democrata Joe Biden à presidência do país, os representantes estadunidenses abandonaram essa aliança. Com pretexto de defender os valores tradicionais da família, este grupo se opõe a avanços nos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

“O Brasil caminha de mãos dadas com países como Afeganistão, Egito, Iraque e Bahrein”, alerta Jacqueline. “Não cabe a diversidade e o pluralidade nesse discurso religioso. Portanto, não cabe a democracia. Diversidade e pluralismo são pilares da democracia. Na democracia, você não impõe. Você argumenta e chega a consensos. Mas com uma fé cega, não se discute”, finaliza.

Assista à entrevista