Diversidade em disputa: o que leva um LGBTQIA+ a ser conservador
Segunda matéria da série explora nuances do conservadorismo para tentar identificar o motivos que leva pessoas LGBTQIA+ a apoiarem seus algozes
Publicado: 25 Agosto, 2026 - 23h01 | Última modificação: 26 Agosto, 2026 - 10h10
Escrito por: André Accarini
No últimos tempos, têm crescido a expressão de grupos conservadores, em especial nas redes sociais, defendendo que grupos historicamente minorizados podem seguir ideologias com tendências conservadores e até fascistas. É o caso da população LGBTQIA+ em que um grupo formado por gays foi às redes para reforçar suas posições políticas, contrárias aos pensamentos libertários e igualitários, característicos da comunidade LGBTQIA+.
Curiosamente, são todos brancos, cisgêneros e heternormativos, defendendo que são liberais, capitalistas e a meritocracia, em geral. Não somente o vídeo, mas o posicionamento de outras ‘personalidades’ causou uma reação da comunidade que entende que apesar de a sexualidade não definir ideologia política e econômica, é preciso que haja a consciência de que esse sistema exclui, segrega, violenta e mata LGBTQIA+ todos os dias no mundo todo.
O que está em questão é a vida das pessoas. Esta segunda matéria da série Direitos LGBTQIA+ em disputa, explora as nuances do conservadorismo para tentar identificar o motivos que leva LGBTQIA+'s a apoiarem seus algozes. Na matéria anterior, o foco foi sobre o paradoxo de ser LGBTQIA+ e conservador ao mesmo tempo, abordando questões como a liberdade de escolha em ideais em a necessária compreensão sobre a opressão de de sistemas sociais como a direita e a extrema direita em contraponto à liberdade de escolha de ideologias.
Onde está o choque?
O conservadorismo não é uma coisa só. Há diferenças entre liberalismo econômico, conservadorismo moral, direita tradicional e extrema direita. Misturar tudo só confunde.
Uma pessoa pode defender o livre mercado e, ao mesmo tempo, apoiar direitos civis LGBTQIA+. Pode ser crítica de políticas econômicas de esquerda sem defender perseguição a pessoas trans ou ataques a casais homoafetivos.
Mas o conflito aparece quando o conservadorismo moral transforma uma visão particular de família, religião ou gênero em regra para toda a sociedade.
Edmund Burke, um dos autores mais associados ao pensamento conservador, valorizava a tradição e as instituições que atravessam gerações. Michael Oakeshott definiu a disposição conservadora como a preferência pelo familiar em vez do desconhecido, pelo que já foi testado em vez do que parece novo.
Essa ideia pode parecer simples. E, para quem está protegido pela tradição, ela pode parecer confortável.
Mas o que é tradição para uns pode ser exclusão para outros. “Durante muito tempo, a família reconhecida pelo Estado foi a família formada por homem, mulher e filhos. Pessoas LGBTQIA+ ficaram fora desse formato. Não porque fossem incapazes de amar, cuidar ou construir laços. Ficaram fora porque a norma dizia que havia uma única forma aceitável de existir”, lembra Walmir Siqueira, secretário de Políticas LGBTQIA+ da CUT.
A defesa cega da tradição, portanto, pode virar defesa da desigualdade quando não se pergunta a quem essa tradição serve. É aí, nesse ponto, que a existência LGBTQIA+ mexe com o conservadorismo moral. Não porque pessoas LGBTQIA+ queiram destruir famílias, mas porque mostram que família também pode ser afeto, cuidado, responsabilidade e compromisso fora do modelo imposto como único.
O pensamento sobre a falsa paz da vida privada
Há pessoas LGBTQIA+ que dizem: “Minha vida é privada. Não quero militância. Só quero viver em paz.” O desejo é legítimo, afinal, todo mundo deveria poder viver em paz. No entanto, a vida privada só é respeitada quando há direito público. O casamento civil, o nome social, a proteção contra discriminação e o atendimento sem violência não surgiram porque alguém pediu discrição. Surgiram porque movimentos sociais ocuparam espaço e exigiram reconhecimento.
Michel Foucault ajuda a entender essa questão. Em seus estudos sobre sexualidade, o filósofo mostrou que sexo, desejo e identidade nunca foram tratados apenas como assuntos privados. Instituições como Estado, medicina, escola, igreja e família criaram regras sobre quem seria visto como “normal” e quem seria tratado como desvio. Não é por acaso que tantas pessoas LGBTQIA+ foram silenciadas, corrigidas, expulsas de casa ou empurradas para a culpa.
A lição é simples: quando a sociedade decide que uma identidade é inferior, a vida privada deixa de estar protegida.
A pessoa que acredita estar segura porque “não faz militância” pode descobrir tarde demais que o preconceito não cobra carteira de filiação. A violência não pergunta se a vítima é discreta, conservadora, rica, pobre, religiosa ou de direita.
A norma não é natureza
Dois grandes nomes do pensamento, Simone de Beauvoir e Judith Butler, afirmavam que gênero não é destino natural nem verdade fixa, mas uma construção social moldada por normas repetidas e impostas ao longo da vida.
Isso não quer dizer que alguém “escolhe” sua identidade como quem troca de roupa. Quer dizer que a sociedade cria regras duras sobre como cada pessoa deveria falar, vestir, amar, desejar e existir. E pune quem escapa delas.
Quando uma mulher trans exige respeito ao seu nome, ela não está pedindo favor. Está enfrentando uma regra que quer negar sua própria existência.
Quando dois homens se casam, não estão atacando a família. Estão dizendo que o Estado não pode decidir qual amor merece proteção.
Quando uma jovem lésbica se recusa a viver escondida, ela não está provocando ninguém. Está recusando uma vida marcada pelo medo.
Por que, afinal, parte da comunidade apoia quem ataca direitos?
Há vários fatores que podem levar as pessoas a apoiarem os ideais de seus algozes. No caso da representatividade, há quem vote pensando em ideais liberais e burgueses na economia. Há quem tenha medo da violência urbana e acredite que a solução seja o uso da força e da violência policial, sem pensar em soluções estruturais oriundas do combate à desigualdade social. Há quem tenha sido formado em ambientes religiosos conservadores. Há quem rejeite a linguagem dos movimentos sociais. Há quem se sinta representado por candidatos que prometem ordem, disciplina e punição.
Também há quem acredite que sua posição social basta para protegê-lo.
Um homem gay, cisgênero, branco, empregado e aceito pela família pode viver uma experiência muito diferente da de uma travesti expulsa de casa, de uma mulher trans sem acesso ao mercado formal ou de uma pessoa LGBTQIA+ pobre que mora na periferia.
É por isso que a consciência de classe é tão importante.
Consciência de classe é perceber que a vida não é igual para todo mundo. É entender que quem tem mais proteção social pode não sentir de imediato o tamanho da violência que atinge os outros. É olhar além da própria bolha.
A extrema direita trabalha justamente para impedir esse olhar. Ela divide trabalhadores. Coloca pobres contra pobres. Faz a população acreditar que pessoas LGBTQIA+, negras, indígenas, mulheres, imigrantes e pessoas com deficiência são responsáveis pelos problemas que, na verdade, nascem da desigualdade, da exploração e da falta de direitos.
Em vez de apontar para quem lucra com salários baixos, precarização e desemprego, aponta para quem já sofre preconceito. Em vez de discutir moradia, comida, trabalho e saúde, inventa pânico moral. Em vez de combater a violência, escolhe quem pode ser alvo dela.
A consciência de classe começa quando a pessoa entende que a sua experiência não é a experiência de toda a comunidade. Quem está protegido hoje precisa enxergar quem está sendo atacado. Direitos não são individuais. Quando retiram o direito de uma pessoa, abrem caminho para retirar o direito de muitas
Liberdade não é licença para violência
A defesa da liberdade de escolha precisa ter um limite muito claro.
Ninguém deve ser perseguido por ter opinião política. Ninguém deve ser ridicularizado por ser conservador. Mas ninguém pode usar opinião política, religião ou liberdade de expressão para humilhar, ameaçar, excluir ou estimular violência contra pessoas LGBTQIA+.
“Não é necessário concordar com tudo para respeitar a humanidade de alguém. Não é necessário abandonar a fé para defender o direito de uma pessoa trans acessar a escola e o trabalho. Não é necessário ser de esquerda para reconhecer que a homofobia e a transfobia matam”, diz Walmir.