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Diversidade em disputa: o paradoxo de ser LGBTQIA+ e conservador ao mesmo tempo

Pessoas LGBTQIA+ têm liberdade de escolha em seus ideais. No entanto, é preciso compreender por que tais escolhas existem e o que significam diante da violência, da exclusão e dos ataques a direitos.

Publicado: 25 Agosto, 2026 - 14h12 | Última modificação: 25 Agosto, 2026 - 15h06

Escrito por: André Accarini

CUT - IA
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Recentemente, ganhou ainda mais destaque nas redes sociais a existência — e a militância — de pessoas LGBTQIA+ conservadoras, que defendem ideais de direita e até de extrema direita. Isso chamou a atenção de grande parte da comunidade, já que essas ideologias, historicamente, perseguem e praticam ações e condutas excludentes e discriminatórias em relação a segmentos minorizados.

Mas as chamadas pessoas “LGBTQIA+ de direita” realmente existem. Estão nas redes sociais, em igrejas, em partidos, em campanhas eleitorais e também nas famílias e nos locais de trabalho. São gays, lésbicas, bissexuais, pessoas trans e outras pessoas LGBTQIA+ que se identificam com o conservadorismo, defendem candidatos de direita ou apoiam pautas liberais na economia.

O secretário de Políticas LGBTQIA+ da CUT, Walmir Siqueira, explica que a sexualidade não anula outras identidades nem determina o voto. “Uma pessoa LGBTQIA+ pode ser empresária, seguir sua religião, ser militar, pode defender o livre mercado, o capitalismo, valores tradicionais etc. A verdade é que os interesses pessoais e a construção social pela qual essas pessoas passam podem pesar mais do que a pauta identitária na cabine de votação”, diz.

Para o dirigente, é preciso compreender que o sistema social em que vivemos ainda é eficiente em produzir “gays homofóbicos, negros racistas, mulheres machistas”. E a luta dos movimentos que defendem as pautas desses grupos deve ser abrangente para que as pessoas tenham consciência de a quais grupos pertencem e de quais são suas lutas.

Uma pessoa pode reproduzir, contra o próprio grupo, valores e discursos produzidos por uma sociedade que historicamente marginaliza pessoas LGBTQIA+. O mesmo ocorre quando pessoas negras reproduzem o racismo ou quando mulheres reproduzem o machismo: o fato de pertencer a um grupo oprimido não impede a assimilação da ideologia que sustenta sua opressão — e isso não torna o racismo ou o machismo aceitáveis
- Walmir Siqueira


Coexistência inconsistente

A existência de pessoas LGBTQIA+ que defendem o capitalismo, o livre mercado ou ideias conservadoras não significa que essas ideias sejam justas ou que não tenham relação com a desigualdade. Por isso, reconhecer que pessoas LGBTQIA+ conservadoras existem não significa validar o conservadorismo nem tratar essa posição como uma simples preferência individual. Significa compreender como a ideologia dominante atravessa os sujeitos e pode levá-los a defender estruturas que também os atingem.

“A liberdade de uma pessoa se identificar com essas ideias deve ser respeitada, mas não pode ser confundida com a ausência de conflito ou com uma suposta ordem natural. É justamente por essa razão que os movimentos sociais precisam promover ações de conscientização, formação política e campanhas públicas capazes de revelar essas contradições, combater a homofobia internalizada e fortalecer a defesa coletiva dos direitos LGBTQIA+”, diz Walmir Siqueira.

A sexualidade não apaga classe social, religião, raça, profissão, território e história de vida. Mas reconhecer essa liberdade não obriga ninguém a fechar os olhos para a realidade. Para Walmir, a pergunta não é se uma pessoa LGBTQIA+ pode votar na direita. A pergunta é se “ela conhece o projeto político que está ajudando a fortalecer, se sabe quem luta por seus direitos e quem trabalha para limitá-los. Se entende que uma fala de ódio, quando ganha força, não vai parar na porta da casa de quem votou nela e, mais, que isso não vai se transformar numa agressão a essa pessoa”.

O poder das redes sociais

Walmir reforça que é preciso tratar esse debate com seriedade e ação concreta de conscientização, mas sem deboche e sem rótulos depreciativos. “Por mais que a maioria da comunidade se sinta até desrespeitada e agredida por alguns de seus iguais, que defendem o fascismo, referir-se a alguém como LGBT 'QI' a menos’ como temos visto, é um tipo de ataque que só empurra as pessoas para mais longe e evita a conversa que precisa ser feita”.

Para ele, o caminho é outro: o do diálogo, do acolhimento, da informação, da formação e da consciência de classe.

“Ninguém tem de pedir autorização para pensar ou votar. Mas toda escolha política precisa ser feita com consciência. Quando um projeto ataca direitos, espalha preconceito e transforma pessoas em inimigas, não estamos falando apenas de opinião. Estamos falando de vidas.”

O que está em disputa

A população LGBTQIA+ não pede privilégio. Pede o direito de viver.

Pede o direito de estudar sem sofrer humilhação. De trabalhar sem ser demitida por ser quem é. De acessar um posto de saúde sem constrangimento. De formar família. De usar o próprio nome. De caminhar na rua sem medo. De envelhecer com dignidade.

No Brasil, muitos desses direitos foram conquistados com luta social e decisões da Justiça. Em 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu as uniões estáveis entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar. Em 2013, o Conselho Nacional de Justiça proibiu cartórios de recusarem o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Em 2019, o STF determinou o enquadramento da homofobia e da transfobia na Lei do Racismo até que o Congresso aprove legislação específica. As decisões do STF e a Resolução 175 do CNJ mostram que esses avanços não foram presentes. Foram resultado de pressão, organização e resistência.

Isso importa porque direitos podem ser ameaçados, esvaziados ou retirados.

A Fundação Perseu Abramo apontou mais de 400 projetos de lei que atacam direitos LGBTQIA+ em tramitação no país. O mesmo levantamento cita dados do Grupo Gay da Bahia, segundo os quais 291 pessoas LGBTQIAPN+ morreram de forma violenta em 2024. Os números e os projetos estão reunidos neste levantamento.

Não se trata, portanto, de uma discussão distante, de gabinete ou de rede social. Trata-se de emprego, moradia, escola, saúde e segurança e, acima de tudo, da vida dessas pessoas. “Falamos de sobrevivência”, diz Walmir.

Na próxima matéria da série Direitos LGBTQIA+ em disputa, vamos explorar as nuances do conservadorismo para tentar identificar o motivos que leva LGBTQs a apoiarem seus algozes.