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Diagnóstico preocupante: Plano de Flávio Bolsonaro põe SUS em risco

Enquanto Lula amplia médicos, medicamentos e políticas de cuidado, Flávio Bolsonaro propõe mudanças que ameaçam os direitos de quem mais precisa de saúde e proteção social

Publicado: 07 Outubro, 2026 - 11h54 | Última modificação: 07 Outubro, 2026 - 12h00

Escrito por: Redação CUT

SECOM / IA
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Para quem depende do SUS, uma consulta, um exame ou uma cirurgia não pode esperar. É justamente nesse ponto que a proposta de saúde de Flávio Bolsonaro levanta preocupação: o programa prevê ampliar a participação de empresas privadas no atendimento pago pelo sistema público, com a contratação de consultas, exames e outros procedimentos quando houver equipamentos ou horários ociosos. A justificativa é reduzir filas e aproveitar estruturas que já existem.

A questão é o que vem depois. Se a rede pública não for fortalecida na mesma proporção, a contratação de serviços privados pode deixar de ser apenas um complemento e passar a ocupar um espaço cada vez maior na oferta de atendimento pelo Estado.

O programa também não detalha quanto será investido na ampliação da rede pública nem estabelece, de forma clara, qual será o limite da participação privada. Por isso, a discussão não se resume a saber quem fará um exame ou atenderá um paciente. É preciso entender qual será o papel da rede própria do SUS e até que ponto o governo pretende depender de empresas para garantir um serviço que é responsabilidade do Estado.

Como funciona a lógica privada

Quando o poder público contrata uma empresa para prestar um serviço de saúde, a relação passa a ser definida por contratos, metas, custos, prazos e mecanismos de fiscalização. A lógica é diferente da de uma unidade pública, cuja responsabilidade é garantir atendimento à população de acordo com as necessidades de saúde.

Isso não significa que toda contratação privada resulte necessariamente em pior atendimento. O ponto central é outro: a contratação pode complementar uma rede pública estruturada ou se tornar uma alternativa à expansão dessa rede.

Se a segunda opção prevalecer, o Estado poderá depender cada vez mais de contratos para oferecer consultas, exames e procedimentos. Nesse caso, além de financiar o atendimento, terá de controlar os contratos, fiscalizar a execução, acompanhar a qualidade e garantir que o serviço continue disponível quando houver aumento da demanda.

Na saúde pública, portanto, eficiência não pode ser medida apenas pela quantidade de procedimentos realizados ou pelo custo de cada atendimento. É preciso garantir que o paciente seja atendido quando precisar e tenha continuidade no tratamento.

A promessa de gastar menos

O programa coloca o controle das despesas do governo entre suas prioridades. Na saúde, uma política de contenção de gastos pode afetar a capacidade de ampliar equipes, manter unidades, comprar equipamentos e garantir medicamentos.

Se postos e hospitais não tiverem estrutura suficiente para atender à população, o governo poderá recorrer mais a empresas para realizar consultas, exames e outros procedimentos. Mas contratar serviços não garante, por si só, economia. O resultado depende dos valores dos contratos, da quantidade de procedimentos adquiridos, dos custos administrativos e da capacidade do poder público de fiscalizar a execução.

É aí que aparece uma questão central da proposta: se a demanda por saúde continuar crescendo, de onde virão os recursos para ampliar o atendimento?

Quem pode pagar a conta?

Quando falta médico no posto, o paciente continua precisando de consulta. Quando um exame demora meses, a doença não espera. Quando falta medicamento, a pessoa continua precisando do tratamento.

Se a capacidade de atendimento do SUS não acompanhar o crescimento da demanda, quem depende exclusivamente da rede pública poderá enfrentar mais dificuldades para conseguir consultas, exames ou cirurgias. O programa de Flávio não detalha, porém, como pretende preparar e ampliar a estrutura pública para atender a essas necessidades.

A pergunta, portanto, é direta: como garantir atendimento universal se a estrutura própria do SUS não crescer na mesma proporção da demanda?

E os trabalhadores da saúde?

A ampliação da contratação de empresas e organizações privadas também pode alterar a forma de contratação dos profissionais. Em vez de vínculos diretos com o Estado, concursos e carreiras públicas, podem ganhar espaço contratos terceirizados e outros modelos de vínculo.

A forma de contratação não é um detalhe administrativo. Ela pode influenciar a estabilidade das equipes, a permanência dos profissionais nas unidades e a continuidade do atendimento.

Para quem procura um posto de saúde ou acompanha um tratamento durante meses, conhecer a equipe e contar com profissionais que permaneçam no serviço pode fazer diferença.

Programas que atendem milhões

A discussão também envolve políticas que fazem parte da rotina de milhões de brasileiros, como Mais Médicos, Farmácia Popular, Brasil Sorridente, Saúde da Família e o Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O projeto de saúde de Flávio não estabelece compromissos específicos de manutenção e expansão desses programas, o que deixa em aberto como essas políticas serão tratadas caso o programa seja colocado em prática.

Hoje, elas têm impacto direto na vida da população. O Mais Médicos chegou a 27,4 mil profissionais em 2025, 97% acima de 2022, e 60% estavam em municípios de média a altíssima vulnerabilidade. Já o Farmácia Popular oferece 41 itens gratuitamente, está presente em mais de 4,9 mil municípios e beneficiou 27,3 milhões de pessoas em 2025.

Outras políticas também foram ampliadas. O Brasil Sorridente alcançou 1,2 mil Centros de Especialidades Odontológicas em 2025, enquanto o SUS mantém, por meio do Programa Nacional de Imunizações (PNI), uma das maiores estruturas públicas de vacinação do mundo.

Para quem depende do SUS, esses números têm tradução concreta. É o médico que chega a uma cidade onde faltam profissionais, o remédio retirado gratuitamente na farmácia, a vacina encontrada no posto e o tratamento odontológico que uma família talvez não tivesse condições de pagar.

O que o programa não esclarece

O SUS existe porque a saúde é um direito e uma responsabilidade do Estado. Por isso, qualquer pessoa deve poder procurar um médico, fazer um exame, conseguir um medicamento ou realizar uma cirurgia, independentemente de sua renda.

A proposta de Flávio amplia o espaço para serviços privados, mas não deixa evidente quanto será investido na expansão da rede pública nem qual será o limite dessa participação no atendimento. Também não apresenta, de forma detalhada, como pretende garantir a continuidade das políticas que hoje alcançam milhões de pessoas.

Essa definição será importante porque, quanto maior a dependência de serviços contratados, maior também será a necessidade de transparência sobre valores, critérios de contratação, qualidade e fiscalização.

O que está em jogo na saúde nestas eleições

No fim, a discussão chega à vida real. Para quem vive de salário ou aposentadoria, quando a saúde aperta, não existe planilha que possa esperar: há uma pessoa precisando de atendimento, uma família aguardando o resultado de um exame ou alguém que não pode ficar sem medicamento.

Por isso, o debate não se resume a quanto o governo pretende gastar. É preciso saber que tipo de SUS será mantido, quanto será investido na rede pública e qual será o papel das empresas privadas. Saúde pública é responsabilidade do Estado e precisa garantir atendimento universal e de qualidade, principalmente para quem não tem dinheiro para recorrer ao setor privado.