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CUT lança Ciclos de Diálogos sobre o fascismo com a presença de Marilena Chauí

No evento, a filósofa e o secretário da CUT debateram os perigos do fascismo e do neoliberalismo na vida da sociedade e do trabalhador

Publicado: 17 Abril, 2026 - 11h59 | Última modificação: 17 Abril, 2026 - 17h16

Escrito por: Redação CUT

Secom / CUT
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O avanço de ideias autoritárias e a disputa em torno do conceito de democracia marcam o cenário político atual. Nesse ambiente de tensão, o fascismo deixa de ser apenas uma referência histórica e passa a aparecer como uma possibilidade concreta nas democracias contemporâneas, com efeitos contundentes sobre direitos, organização social e a vida da classe trabalhadora.

É nesse contexto que a CUT lançou o primeiro encontro dos “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque-Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista". Realizado de forma online, na noite de 16 de abril, o debate reuniu dirigentes sindicais, trabalhadores e especialistas de várias regiões do país. Os convidados desta primeira edição foram a filósofa Marilena Chauí e o  Secretário de Administração e Finanças da CUT, Ariovaldo de Camargo.

O evento foi organizado pela secretaria de Formação da CUT. Logo na abertura, Rosane Bertotti, secretaria da pasta, apontou o tom do encontro. “É hora de organização e ação coletiva. Estamos em um período em que o conceito de democracia está sendo disputado e precisa ser defendido pela classe trabalhadora”, afirmou.

A proposta do ciclo, explicou a dirigente, é ir além da reflexão teórica. A ideia é preparar os trabalhadores para enfrentar desafios concretos e fortalecer a atuação política nos próximos anos, especialmente no cenário eleitoral de 2026. Os encontros serão quinzenais, até julho, com temas que atravessam o cotidiano da população: trabalho, segurança pública, racismo, misoginia, crise climática e guerra cultural.

O tom do debate

Marilena Chauí e Ariovaldo de Camargo convergiram ao analisar as bases do avanço autoritário no país. Para Chauí, o fenômeno está diretamente ligado ao neoliberalismo, que reorganiza a sociedade ao transformar direitos em mercadorias e esvaziar o espaço público. Esse processo, afirmou, “cria terreno para a desinformação, o discurso de ódio e a construção de inimigos sociais, corroendo a solidariedade e fragmentando a vida coletiva”.

A avaliação dialoga com a leitura de Ariovaldo. Segundo ele, esse ambiente se expressa na perda de consciência de classe entre trabalhadores. “Quando o trabalhador deixa de se reconhecer como parte de uma coletividade, passa a defender ideias que enfraquecem seus próprios direitos”, afirmou. Para o dirigente, o avanço dessas ideias no Brasil não é abstrato e já se manifesta em episódios como os ataques de 8 de janeiro de 2023.

Ao aprofundar a análise, Marilena Chauí destacou que o modelo neoliberal desloca recursos públicos – antes destinados a políticas sociais – para o capital privado. Na prática, direitos como saúde e educação deixam de ser universais e passam a depender da renda, ampliando desigualdades. Ariovaldo relacionou esse processo à precarização do trabalho e ao enfraquecimento das formas coletivas de organização, como a negociação sindical.

"A negociação individual substituindo a negociação coletiva pulveriza, enfraquece o sindicato e o patrão depois passa a exercer o seu poder de autoritarismo", afirmou.

A filósofa também apontou que a lógica empresarial se expande para diferentes esferas da vida, produzindo o chamado “precariado”, marcado pela instabilidade e pela ausência de proteção social. “Nesse cenário, cresce a responsabilização individual pelo fracasso”, disse.

Outro ponto de convergência foi o papel do Estado. Chauí alertou que, ao contrário da ideia de “Estado mínimo”, o neoliberalismo fortalece mecanismos de vigilância e controle, especialmente com o uso de tecnologias digitais. Ariovaldo complementou ao destacar que essas transformações exigem uma resposta organizada. “O sindicato precisa estar no cotidiano das pessoas, dialogando com a realidade concreta e disputando consciência”, afirmou.

Na avaliação do dirigente, o movimento sindical precisa ampliar sua atuação para além das pautas corporativas e se consolidar como espaço de organização popular nos territórios. Ele criticou a substituição da negociação coletiva por acordos individuais e se posicionou contra a privatização de serviços públicos, a militarização das escolas e a precarização das relações de trabalho, como a “uberização”.

Ao tratar das novas tecnologias, Ariovaldo também dialogou com a preocupação apresentada por Chauí sobre controle e subjetividade. Segundo ele, sem regulação e sem apropriação social, ferramentas como a inteligência artificial podem aprofundar desigualdades. Para o dirigente, cabe à classe trabalhadora compreender e disputar esses instrumentos.

Os “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque-Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista" seguem nas próximas semanas com a proposta de ampliar o debate e fortalecer a organização coletiva. A aposta da CUT é que a formação política continue sendo uma ferramenta central para enfrentar desigualdades e defender a democracia no país.