CUT integra atos na Argentina em memória dos 50 anos do golpe no país
Delegação brasileira integrou atividades em La Plata e Buenos Aires, com seminário, visitas a centros de repressão e ato que reuniu 1,5 milhão nas ruas
Publicado: 25 Março, 2026 - 16h03
Escrito por: André Accarini e Alexandre Bento
A CUT participou, nos dias 22, 23 e 24 de março, de uma jornada internacional na Argentina em memória dos 50 anos do golpe militar que levou o país a uma ditadura marcada por perseguições, torturas e desaparecimentos. A central integrou uma delegação com sindicalistas de diversos países da América Latina e da Europa, em atividades realizadas nas cidades de La Plata e Buenos Aires.
A programação reuniu entidades sindicais, movimentos sociais e organizações de direitos humanos e foi organizada em três momentos centrais. O primeiro deles foi o seminário Memória e Justiça em Jornada Histórica na Argentina, uma atividade internacional realizada em La Plata, no Teatro Argentino Centro Provincial de las Artes e que debateu os impactos da Operação Condor sobre a classe trabalhadora latino-americana. A operação foi uma rede de cooperação para repressão articuladas pelas ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Bolívia, com apoio dos Estados Unidos.
Já na segunda-feira (23), a delegação internacional de mais de 70 sindicalistas da América Latina e da Europa fez visitas a locais históricos da repressão. A delegação percorreu espaços que foram utilizados como centros de detenção e tortura durante a ditadura, como a ex-Comisaria 5ta, a Comissão Provincial pela Memória e o centro clandestino Automotores Orletti, em Buenos Aires. O roteiro reforçou o papel da preservação da memória histórica como instrumento de denúncia e resistência.
O ápice da jornada uma grande mobilização popular na terça-feira (24), data que marca o Dia Nacional da Memória pela Verdade e Justiça na Argentina e que reuniu cerca de 1,5 milhão de pessoas na Plaza de Mayo,m nas proximidades da Casa Rosada, em Buenos Aires.
Memória, justiça e o paralelo com o Brasil
Para o secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT, Quintino Severo, os dois primeiros dias de atividades tiveram um peso político que vai além da recuperação histórica, ao estabelecer vínculos diretos com a conjuntura atual. “Foi um processo de muita história, mas também de fazer a relação com o que está acontecendo hoje. O fascismo e o avanço da extrema direita têm uma relação muito forte com o que foi a ditadura militar”, afirmou.
O dirigente destacou ainda o perfil das vítimas do regime e a centralidade da classe trabalhadora nesse processo. “Dos 30 mil mortos e desaparecidos, cerca de 70% eram da classe trabalhadora, ativistas, militantes. Houve uma ofensiva muito forte dentro das fábricas e empresas. Recuperar essa história é também fazer um paralelo com o presente, com essa ofensiva da extrema direita”, disse.
Quintino também ressaltou o impacto da mobilização do dia 24 de março, que reuniu uma multidão nas ruas de Buenos Aires. “A marcha foi algo emocionante. Foram milhares e milhares de pessoas, uma concentração tão grande que não conseguia se mover. Muita gente jovem, famílias, crianças, idosos. Isso mostra que a memória está viva e que há uma tentativa de não deixar essa história desaparecer. Quando as pessoas fazem essa relação entre a ditadura e o que acontece hoje, isso cria uma expectativa de mudança”, avaliou, ao defender que a pauta da democracia e do enfrentamento à extrema direita deve estar no centro da ação sindical.
Classe trabalhadora no centro do debate
O secretário-geral da CUT, Renato Zulato, enfatizou a responsabilidade histórica da classe trabalhadora latino-americana na preservação da memória e na resistência a novas ameaças autoritárias.
“Nós da CUT temos uma honra de estar nesse seminário e vamos estar presentes na marcha. Temos responsabilidade porque também vivemos uma ditadura no Brasil, orquestrada pelo Plano Condor, onde vários companheiros desapareceram e estão desaparecidos até hoje”, declarou.
Zulato estabeleceu paralelos entre Brasil e Argentina ao destacar a importância de manter viva a memória histórica. “No Brasil, o dia 31 de março tem o mesmo significado que o 24 de março aqui na Argentina. Não podemos deixar que essa memória desapareça. Aqueles que viveram não podem esquecer, e os jovens precisam conhecer essa história. Nós seguimos buscando justiça, inclusive com a localização de restos mortais de vítimas”, afirmou.
O dirigente também chamou atenção para os desafios contemporâneos e o avanço de ideologias autoritárias. “Hoje enfrentamos um novo fascismo que se expressa no racismo, no feminicídio, no ataque à população LGBT e à democracia. Precisamos estar atentos e solidários entre os povos da América Latina para impedir novas tentativas autoritárias”, disse.
Ato na praça
A mobilização do dia 24 foi o ponto alto das atividades. Segundo dirigentes da CUT, cerca de 1,5 milhão de pessoas participaram do ato em Buenos Aires, ocupando as ruas em direção à Plaza de Mayo. A marcha reuniu centrais sindicais argentinas, como CGT e CTA, além de movimentos sociais e organismos de direitos humanos, em uma demonstração de força popular e compromisso com a memória, a verdade e a justiça.
Lado a lado com as centrais argentinas CGT, CTA de los Trabajadores (CTAT) e CTA Autónoma (CTAA), os sindicalistas brasileiros reforçaram a frente única contra o ajuste econômico e a precarização do trabalho. A presença da CUT na marcha simbolizou não apenas o respeito aos 30 mil desaparecidos da ditadura argentina, mas o compromisso com a defesa da democracia e da justiça social em todo o continente.