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CUT debate o fascismo, a extrema direita e fortalece ação sindical

A segunda etapa dos “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque — Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista” reforça a organização da classe trabalhadora

Publicado: 05 Maio, 2026 - 15h15 | Última modificação: 05 Maio, 2026 - 15h20

Escrito por: Luiz R Cabral

CUT
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Diante de um atual ambiente de tensões entre o governo e o Congresso, com decisões que impactam a agenda democrática e trabalhista, a CUT, por meio da Secretaria Nacional de Formação, realizou, na noite de 30 de abril, a segunda etapa dos “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque — Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista”. O encontro, desta vez sob a condução da ECOCUT, reuniu, de forma online, trabalhadores, trabalhadoras e especialistas de diversas regiões do país.

Os convidados da atividade foram Iêda Leal, pedagoga e secretária de imprensa da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), e o advogado Normando Rodrigues.

O evento foi aberto com uma mística em homenagem a Apolônio de Carvalho. A memória de Apolônio foi apresentada como inspiração para o debate, por ser uma referência da resistência. A escola sindical da ECOCUT leva o nome do histórico militante de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. 

Na mediação do encontro, a secretária nacional de Formação da CUT, Rosane Bertotti, ressaltou o caráter político e simbólico da atividade e, rememorou Daniel Gaio, falecido em 30 de abril, afirmando que ele era uma pessoa de “serenidade, acolhimento e alegria”, alguém que “abraçava, afagava, cantava” e transmitia energia de luta. A partir dessa lembrança, Bertotti  convocou os presentes a assumir a continuidade da luta: “a luta precisa de você. A CUT precisa de você”, disse.

 A importância do debate no momento atual

Nos últimos dias, o Congresso Nacional tomou decisões que atingem diretamente interesses populares, como a derrubada de vetos parciais do governo ao projeto de lei da  Dosimetria e a rejeição da indicação ao Supremo Tribunal Federal feita pelo presidente Lula de Jorge Messias. O movimento evidencia o acirramento político e amplia a pressão sobre trabalhadores e trabalhadoras. Diante desse cenário, cresce a necessidade de fortalecer a mobilização social e enfrentar o avanço da extrema direita.

É nesse contexto que iniciativas como os ciclos formativos da CUT ganham ainda mais importância. Mais do que um espaço de debate, o encontro se consolida como um momento de escuta, troca de experiências e construção coletiva de caminhos para enfrentar os desafios do presente e defender direitos.

Fascismo como projeto de poder e negação da igualdade

Normando Rodrigues afirmou que o fascismo deve ser compreendido como uma ideologia estruturada, baseada em desigualdades e exclusões. “O fascismo não é um espectro abstrato que paira sobre a história. Ele tem forma, conteúdo e método”, disse. Segundo ele, trata-se de um projeto que substitui a política institucional pela violência e mobiliza o ressentimento social por meio da construção de inimigos.

“Fascismo tem um posicionamento muito bem definido: é uma ideologia, uma visão total de sociedade, uma visão total de mundo. Ele representa a materialização política de uma visão essencialmente misógina, racista, homofóbica e transfóbica.”

Aliança estrutural entre fascismo e neoliberalismo

Rodrigues  também destacou a relação entre fascismo e neoliberalismo, apontando o individualismo como ponto de convergência. Para Rodrigues, essa lógica se expressa nas transformações do mundo do trabalho, com o avanço da precarização e da ideia do “empreendedor de si mesmo”, que enfraquece a organização coletiva e dificulta a construção da consciência de classe.

“Embora existam diferenças na forma de atuação, fascismo e neoliberalismo convergem em pontos estruturais importantes. Ao contrário do que muitos pensam, o fascismo não é uma ideologia de massas no sentido igualitário — ele também é profundamente individualista. Assim como o liberalismo radical, ele coloca o indivíduo no centro. A diferença está na forma como essa superioridade se expressa: no neoliberalismo, ela se dá pelo poder econômico e pela lógica de mercado; no fascismo, pela força e pela violência política. Mas, no fundo, ambos partem de um mesmo princípio: a rejeição da igualdade como valor fundamental”, disse.

Estrutura sindical e limites históricos à autonomia dos trabalhadores

O advogado afirmou que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) combina avanços na proteção individual com limitações à autonomia sindical. “A legislação fascista trata o sindicato como uma extensão do governo”, disse, ao defender a ampliação da liberdade sindical.

Organização da base como resposta ao avanço da extrema direita

Se a análise de Normando Rodrigues apontou os mecanismos do fascismo, Iêda Leal destacou os caminhos de enfrentamento na prática cotidiana. “É compromisso. A gente tem que traduzir, transformar tudo isso em luta. Que luta, qual luta? Como luta? Nós não vamos abrir mão de conversar com as pessoas”, afirmou.

Segundo ela, a mobilização precisa ser pedagógica e alcançar trabalhadores “precarizados” que não se reconhecem como parte da classe. “Eu preciso falar com aquele que distribui o panfleto... Eu preciso falar com aquele que mora na região nordeste, que é pobre, que não tem carteira assinada e que não se acha um trabalhador, não tem ninguém que o defenda”, disse.

Direitos trabalhistas no centro da disputa política

Na avaliação da pedagoga, a pauta sindical deve responder às transformações do trabalho, com a defesa da redução da jornada, o fim da escala 6x1 e o combate à “pejotização” e à “plataformização”. Ela também destacou a importância da formação política no enfrentamento ao autoritarismo. “Eu só vou saber combater o fascismo quando eu souber como ele funciona”, afirmou.

Para Iêda, o momento atual exige atuação contínua e diálogo. “O exercício de ouvir nos vai dar mais garantias de que a gente vai fazer a intervenção melhor”, disse, ao defender que a resposta aos discursos de ódio passa pela reconstrução de vínculos sociais e pela defesa da vida.

Ao final, os participantes defenderam o fortalecimento dos sindicatos como espaços de prática democrática e construção de igualdade. A CUT deve dar continuidade aos ciclos formativos ao longo do ano, ampliando o debate e preparando trabalhadores para enfrentar os desafios políticos e econômicos do país.