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Covid-19: Comunidades indígenas podem ser dizimadas, alerta Carmen Foro

Em artigo, Secretária-Geral da CUT Nacional lista as políticas e ações do governo Bolsonaro contra os povos indígenas, lembra que já são 7 mortos pela doença e cobra ação em defesa dessas comunidades

Publicado: 20 Abril, 2020 - 10h06 | Última modificação: 20 Abril, 2020 - 10h27

Escrito por: CUT Nacional

Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Em plena pandemia do coronavírus (Covid-19), o governo de Jair Bolsonaro demitiu o diretor do Ibama, após realização de operação para acabar com o garimpo ilegal em terra indígena do Pará, que também protegeria essas comunidades contra a doença que já matou 7 indígenas,  o desmatamento na Amazônia Legal cresceu e, em menos de 20 dias lideranças indígenas foram assassinadas no país.

O relato, feito em artigo assinado por Carmen Foro, Secretária-Geral da CUT Nacional, é um alerta para mais uma tragédia que pode dizimar o povo indígena se nada for feito para conter a disseminação da Covid-19 nas terras indígenas.   

Confira a íntegra do artigo:

A Situação dos povos indígenas no contexto do coronavírus

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) está aumentando a cada dia no Brasil e até agora não se tem notícia de nenhuma ação concreta do governo de Jair Bolsonaro para impedir que a doença cause outro genocídio nas comunidades indígenas. O abandono desses brasileiros que vivem em uma situação de grande vulnerabilidade representa um verdadeiro extermínio de povos e culturas.

É sabido que os indígenas brasileiros não foram dizimados somente pela brutalidade do invasor, mas também por doenças que vieram nas caravelas. São inúmeros os registros históricos do impacto devastador de doenças infecciosas, como gripe, sarampo e varíola em povos indígenas. Há 500 anos, eram mais de 4 milhões. Atualmente, restam somente cerca de 900 mil indígenas no território brasileiro.

Assim, como no resto do país, entre os indígenas a doença começa a fazer suas vítimas. Neste sábado (18), foi confirmada a sétima morte de um indígena por Covid-19. O Tuxaua de 67 anos da etnia Sateré Maué faleceu ontem (17), no município de Maués, Amazonas.

Mas a Articulação dos Povos Indígenas (APIB) denuncia que, para o governo Federal apenas 3 indígenas morreram até o momento devido ao novo coronavírus. Isto acontece porque a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, não faz o atendimento e o registro dos indígenas não aldeados.

O que, para a APIB, é racismo institucional. Afinal, indígena é indígena dentro ou fora de seu território.

E mesmo a sociedade brasileira enfrentando uma situação nunca vivida, como é o caso desta pandemia, a pressão sobre a floresta amazônica e o território indígena não diminui, ao contrário, só aumenta.

Em menos de 20 dias, duas lideranças indígenas foram assassinadas no Brasil. Neste sábado (18), um indígena do povo Uru-eu-wau-wau foi morto no distrito de Jaru, em Rondônia. No dia 31 de março o crime aconteceu no Maranhão. Zezico Guajajara, professor e liderança que lutava pela proteção do território do seu povo foi brutalmente assassinado.

Como se não bastasse tanta desgraça, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou o aumento do desmatamento da Amazônia Legal entre janeiro e março. Um crescimento de 51% em relação ao primeiro trimestre do ano passado. O número significa um recorde para o período nos últimos cinco anos, desde que INPE passou a usar a metodologia atual.

Enquanto isso, o Conselho da Amazônia, anunciado pelo governo Bolsonaro como a grande solução para conter o aumento do desmatamento ainda não possui orçamento, meta, atividade ou função divulgada para a sociedade.

O certo é que este crescimento marca uma mudança na dinâmica do avanço sobre a floresta. Por ser a estação das chuvas na região amazônica, o primeiro trimestre geralmente tem números mais baixos de desmatamento do que o restante do ano. Sinal de que os desmatadores estão animados com as falas e política destrutiva do governo Bolsonaro para Amazônia. Afinal, enquanto a população brasileira se mantém atenta à pandemia, o governo, ao invés de intensificar o controle e a fiscalização ambiental, ataca políticas indígenas e demite funcionários empenhados na proteção da floresta e seus povos.

E o ataque contra as comunidades indígenas veem de todos os lados. No Congresso Nacional tramitam duas medidas que afetam diretamente os territórios indígenas: o projeto que regulamenta a exploração de terras indígenas (PL 191/2020) e a Medida Provisória (MP) 910/2019 que na prática é a legalização da grilagem e um incentivador dessa prática extremamente lucrativa.

Fora do Congresso, o Bolsonaro não se intimida em deixar claro sua intenção. Alguns dias atrás mandou demitir o diretor do IBAMA responsável pela operação que combatia garimpo ilegal em território indígena no sul do Pará. A operação visava também conter o avanço do coronavírus com a expulsão dos invasores dos territórios.

A APIB tem buscado intensificar as ações de proteção aos territórios indígenas diante de tantas ameaças. Dia 20 de março reuniu com a Frente Mista Parlamentar em Defesa dos Territórios Indígenas. Também enviou cartas aos governadores cobrando providências. A APIB propõe a adoção urgente de estratégias de proteção para o controle da circulação de pessoas nestes territórios com intenção de impedir a entrada do coronavírus.

Este ano, não ocorrerá o 16º. Acampamento Terra Livre, a maior manifestação dos povos indígenas do Brasil, realizado em Brasília. Em seu lugar, acontece o Abril Vermelho Indígena, programação virtual organizada pela APIB em que organizações indígenas e indigenistas dividem uma programação virtual com debates e denúncias da questão indígena em meio à pandemia do coronavírus.