Cortes em benefícios sociais podem derrubar renda, emprego e arrecadação no interior
Professora da Unicamp explica que aposentadorias, BPC e Bolsa Família movimentam o comércio local e que a redução desses recursos pode provocar uma reação em cadeia, atingindo até quem não recebe os benefícios
Publicado: 23 Outubro, 2026 - 15h37 | Última modificação: 23 Outubro, 2026 - 16h05
Escrito por: Rosely Rocha
Cortar ou deixar de reajustar os benefícios sociais e previdenciários pode provocar uma retração econômica nas cidades do interior do Brasil, com impactos sobre o comércio, o emprego e a arrecadação das prefeituras. O dinheiro que chega às famílias de baixa renda por meio do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e das aposentadorias não serve apenas para garantir a sobrevivência de quem recebe. Ele também movimenta a economia local e sustenta atividades das quais dependem milhares de trabalhadores.
É o que explica a economista Luiza Nassif, professora do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Segundo ela, quando esses recursos são reduzidos, o prejuízo vai muito além da perda direta de renda dos beneficiários: alcança os estabelecimentos comerciais, os prestadores de serviços e as famílias que dependem dos empregos gerados nessas atividades.
“Quando a gente tem gastos do governo que são focados nas pessoas mais pobres ou gastos progressivos, que impactam mais a renda dos mais pobres do que dos mais ricos, isso vai ter um efeito multiplicador maior”, diz.
Uma das razões para o peso desses benefícios nas economias do interior é que boa parte da renda recebida pelas famílias mais pobres é destinada imediatamente ao consumo. Ao contrário de quem tem rendimentos elevados e pode poupar uma parcela maior do que ganha, essas famílias precisam gastar o dinheiro com alimentação, produtos básicos e serviços.
“Se você dá dinheiro na mão de uma família que não tem uma renda alta, esse dinheiro vai ser todo utilizado para comprar coisas, para comprar comida, para comprar serviços. De modo geral, o que a gente observa é que as famílias mais pobres gastam um percentual muito alto da renda, enquanto as famílias mais ricas vão poupar uma parte dessa renda", explica a professora de economia.
Esse gasto movimenta uma cadeia de atividades econômicas. O dinheiro usado para comprar alimentos, por exemplo, representa receita para o mercado, a mercearia, a padaria e seus fornecedores. Esses estabelecimentos, por sua vez, precisam de trabalhadores e de outros serviços para continuar funcionando.
Por isso, a redução dos benefícios pode atingir até quem não recebe nenhuma transferência do governo. Se as famílias beneficiárias passam a comprar menos, o comércio vende menos, os estabelecimentos podem reduzir suas atividades e a necessidade de mão de obra também pode diminuir.
“De modo que, quando a gente movimenta a economia, gera emprego, faz com que aquela economia esteja aquecida, você também está fazendo com que essa geração de renda impacte a arrecadação dos impostos”, diz Luiza.
Um estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), do qual Luiza Nassif também é pesquisadora, reforça essa estimativa de que, sem a valorização real dos benefícios sociais e previdenciários, a renda agregada das cidades do interior cai. A estimativa é a de que poderia ficar entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar projetado com a continuidade dos reajustes reais. Em alguns estados, o impacto seria ainda maior, chegando a perdas de 17% a 18% no Rio Grande do Norte, no Amapá e no Piauí.
O estudo utiliza um multiplicador econômico de 1,81 para estimar os efeitos diretos e indiretos das mudanças na renda. Isso significa que a perda inicial de recursos não fica restrita ao valor que deixa de chegar às famílias: ela se propaga pela economia à medida que o consumo diminui e o dinheiro deixa de circular entre empresas e trabalhadores.
Interior depende mais dos benefícios sociais e previdenciários
O levantamento do Made utiliza dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) para avaliar a participação das aposentadorias, do BPC e do Bolsa Família na renda das famílias. A análise separa capitais e regiões metropolitanas das demais cidades de cada estado, permitindo comparar o peso dessas fontes de renda em diferentes contextos econômicos.
De acordo com os dados divulgados pela Agência Brasil, cerca de 4 mil dos 5.569 municípios brasileiros estão fora das regiões metropolitanas. Nesses locais, a participação das transferências públicas na renda é proporcionalmente maior do que nos grandes centros urbanos.
No Ceará, por exemplo, aposentadorias e benefícios sociais representam 40% da renda agregada nas cidades do interior, contra 22% na capital e na região metropolitana.
Segundo Luiza, a diferença está na maior dependência dessas localidades em relação aos recursos públicos. Nas grandes cidades, a renda gerada por outras atividades econômicas tem peso maior e a produção costuma atender mercados mais amplos. Já nos municípios menores, a redução de uma fonte importante de renda pode comprometer uma parcela significativa do consumo local.
“A gente observa naquele estudo que vai ser um efeito maior para as cidades pequenas, ou as cidades que não são capitais e regiões metropolitanas, porque o percentual da renda que é proveniente desses benefícios é muito maior. Então tem um efeito direto, primário, ali na renda total que as famílias têm, que depois vai criar esse efeito multiplicador. Então você começa de um impacto que já é maior.”
A economista ressalta, porém, que os efeitos não ficam restritos às pequenas cidades. A redução dos benefícios também afeta as capitais e regiões metropolitanas, embora a participação dessas rendas seja proporcionalmente menor. Além disso, as relações comerciais entre municípios e estados fazem com que os efeitos se espalhem por outras regiões.
Cortes podem reduzir a arrecadação das prefeituras
A retração do consumo também pode prejudicar as contas públicas municipais. Quando as famílias compram menos e as empresas vendem menos, a atividade econômica perde força, o que afeta a geração de renda e a arrecadação de tributos relacionados ao consumo e aos serviços.
“Quando a gente movimenta a economia, gera emprego, faz com que aquela economia esteja aquecida, você também está fazendo com que essa geração de renda impacte a arrecadação dos impostos. E isso vai valer para as prefeituras, para os impostos federais, para os impostos estaduais e para os impostos indiretos, impostos sobre consumo.”
Esse mecanismo ajuda a explicar por que cortar benefícios sociais para economizar recursos públicos pode produzir efeitos contrários ao esperado. A redução das despesas com transferências pode diminuir a renda das famílias, enfraquecer o comércio e reduzir receitas tributárias. Assim, parte da economia obtida inicialmente pode ser acompanhada de perdas na arrecadação e de menor atividade econômica.
Para a economista, a discussão sobre o equilíbrio das contas públicas precisa considerar não apenas quanto o governo gasta, mas também quais despesas são reduzidas e quais consequências essa decisão produz.
“Mesmo que a gente chegue a um acordo de que precisam ser feitos alguns cortes, mesmo no cenário no qual, por alguma razão, seja necessário, o que a gente corta faz diferença”, afirma.
Luiza argumenta que despesas direcionadas às famílias de baixa renda tendem a produzir efeitos econômicos mais amplos porque uma parcela elevada dos recursos retorna rapidamente ao consumo. Já valores destinados a grupos de renda mais alta podem ter uma parcela maior poupada, gerando um efeito multiplicador menor.
“Uma renda que é dada para uma pessoa muito rica provavelmente vai parar na poupança. Isso não tem nenhum efeito multiplicador ou tem um efeito multiplicador muito baixo. Então, quanto daquela renda volta para circular na economia e estimular essa economia é muito pouco.”
A professora acrescenta que existem alternativas para discutir o ajuste das contas públicas sem concentrar o peso sobre os mais pobres. Na avaliação dela, a redução da taxa de juros ajudaria a aliviar a pressão sobre as contas do governo. Caso sejam necessários cortes de despesas, também é preciso avaliar gastos e benefícios fiscais que favorecem grupos de maior renda.
“Um jeito muito mais fácil de fazer isso seria uma redução da taxa de juros. A taxa de juros é hoje em dia um problema para esse equilíbrio das contas públicas.”
“Tem formas e formas de você reduzir o gasto. Reduzir o gasto exatamente pegando esses benefícios que são focados na renda das pessoas mais pobres acaba tendo um impacto sobre a produção econômica muito maior do que quando você corta gastos que são regressivos”, acrescenta.
Reajustes abaixo da inflação aumentam a pobreza
Além dos efeitos sobre a atividade econômica, a perda de valor dos benefícios compromete a capacidade das famílias de comprar alimentos e outros itens essenciais. Quando o reajuste fica abaixo da inflação, o valor recebido pode até aumentar nominalmente, mas passa a comprar menos.
“Quando os benefícios sociais são reajustados abaixo da inflação, isso significa que, com o tempo, esse valor que eles recebem vai perdendo o poder de compra.”
A consequência é especialmente grave para quem vive próximo à linha da pobreza. Se os preços dos produtos básicos sobem mais do que o benefício, as famílias podem deixar de conseguir comprar o necessário para a própria sobrevivência. A valorização real, por outro lado, pode elevar a renda de quem está pouco abaixo da linha de pobreza e permitir que essas pessoas ultrapassem esse limite.
“Quando a gente aumenta o valor deles, a gente, na verdade, está puxando algumas famílias que estão ali ao redor da linha da pobreza, abaixo dela, mas muito próximas dela, para cima da linha da pobreza. Porque elas passam a ter o valor que, em termos, além da pobreza, chega a ser maior.”
As simulações do Made indicam que, se os benefícios não tivessem registrado ganhos reais entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de pessoas a mais estariam em situação de pobreza nos municípios fora das regiões metropolitanas. Desse total, 2,4 milhões estariam em extrema pobreza.
Os números reforçam que a política de valorização dos benefícios não tem apenas uma função de proteção social. Ela também contribui para sustentar o consumo, a atividade econômica e a renda de trabalhadores que dependem do funcionamento do comércio e dos serviços locais.