Após ser aprovada por ampla maioria dos deputados federais, proposta que acaba com a jornada de trabalho 6x1 sem redução salarial aguarda por aprovação no Senado para passar a valer
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC), aprovada pela Câmara Federal no final do mês de maio, que acaba com a jornada de trabalho 6x1 com redução das atuais 44 semanais para 40 horas e sem redução salarial ainda aguarda ser colocada em votação no Senado Federal. A PEC precisa de 49 votos favoráveis dos 81 senadores para passar a valer.
Para se ter uma ideia de como a redução da jornada vai melhorar a vida das pessoas, levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do IBGE, em 2025, apontou que 22,0 milhões de trabalhadores formais (54% do total), possuem jornadas semanais acima de 40 horas. Já entre os empregados informais, aproximadamente 4,8 milhões trabalham em jornadas superiores a 40 horas. Mas, embora a proposta tenha o apoio de 71% da população brasileira, setores empresariais e políticos vêm trabalhando contra a sua aprovação, dizendo que a medida provocará desemprego e inflação. No entanto, esse argumento é rechaçado por economistas e estudiosos do mundo do trabalho.
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Confira:
Estudo da professora de economia e pesquisadora do mundo do trabalho da Unicamp, Marilane Teixeira, comprova justamente o contrário do que dizem alguns setores empresariais, o fim da escala 6 x 1 pode gerar até 4,5 milhões de novas vagas de trabalho.
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Se o aumento no custo operacional é de 1% e o empresário repassar integralmente esse aumento, vai ser um aumento de 1% no preço do produto”, avalia Felipe Pateo, economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação pública federal vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento.
Já Marilane Teixeira, avalia que não há risco de aumento generalizado de preços. “Se fosse assim, então, toda vez que eleva o salário mínimo, você teria um aumento da inflação exponencial porque o salário mínimo tem impacto para o conjunto da economia”, compara.
Com mais pessoas empregadas e salários preservados, a tendência é haver maior circulação de renda na economia. Com tempo livre os trabalhadores e trabalhadoras terão tempo de ir às compras, consumir serviços, como cultura, lazer, alimentação, bem-estar, cuidados pessoais e viagens, incrementando o setor de turismo, entre outros.
A redução de jornada contribui também com menos faltas por doenças físicas e psicológicas relacionadas ao excesso de trabalho. O trabalhador descansado sofre menos riscos de acidentes e doenças ocupacionais, aliviando as despesas da Previdência Social e do SUS.
Pesquisa Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), divulgada em 15 de abril deste ano, apontou que dos responsáveis por pequenos negócios, 51% afirmam que o fim da escala 6x1 não trará impacto para suas empresas. Outros 11% veem possibilidade de impacto positivo, 27% estimam impacto negativo e 11% não souberam opinar.
Trabalhadores mais descansados costumam produzir mais por hora trabalhada, com menos erros e retrabalho. Em 2024, 19 empresas brasileiras aderiram, ao experimento internacional da organização 4 Day Week Global, de quatro dias de trabalho semanais. Uma das empresas viu sua receita e produtividade subir quase 15%. Do total das empresas, 46,2% optaram por manter o modelo original, proposto. As demais (53,8%) seguem testando internamente. Outras reduziram a semana de quatro dias para duas ou três semanas por mês. Em média as horas trabalhadas caíram de 43 horas semanais para 35, após um ano.
Outras empresas que adotaram a semana de 5x2 tiveram resultados positivos, como por exemplo, a Chilli Beans. Segundo o proprietário da marca, Caito Maia, 280 lojas já aderiram à jornada 5X2. Em entrevista a um Podcast, ele disse que medida já apresenta resultados positivos como atrair mais jovens trabalhadores às vagas oferecidas.
A unidade da fábrica da Embalixo, em Hortolândia (SP), reduziu a jornada para 36,2 horas semanais. Apesar de ter contratado mais 110 funcionários, o CEO da empresa, Rafael Costa, disse em entrevista à revista Exame, que com a mudança seus funcionários conseguem organizar melhor a vida, diminuindo as faltas e, quando eles estão na empresa, estão focados, aumentando a produtividade.
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Um estudo do Ipea mostra que a redução da jornada terá efeito semelhante aos aumentos do salário mínimo, e que as projeções que preveem redução do PIB e do emprego não são respaldadas por estudos que analisam a experiência histórica brasileira.
“Aumentos reais [do salário mínimo], que chegaram a 12% em 2001, 7,6% em 2012 e 5,6% em 2024, não causaram efeitos negativos sobre o nível de emprego”, diz nota técnica do Ipea. Leia aqui.
Este cenário desmonta o argumento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de que haverá uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (-0,7%).
A escala 6x1 está disseminada sobretudo em setores com forte presença feminina, como comércio e serviços. Na prática, o único dia de “folga” costuma ser absorvido por tarefas domésticas acumuladas, compras, organização da casa e cuidados com filhos ou familiares. Quando se soma trabalho remunerado, deslocamento e trabalho doméstico, há mulheres que ultrapassam 11 horas diárias de atividade contínua.
No Brasil, de acordo com o Censo de 2022, do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas – uma diferença de quase 10h por semana. Entre mulheres pretas e pardas, a carga é ainda maior: 1,6 hora a mais por semana do que entre mulheres brancas.
Empresas podem investir mais em tecnologia, automação e melhorias de gestão para aumentar a produtividade em vez de depender de jornadas extensas.
Trabalhadores com mais tempo disponível tendem a investir mais em cursos e formação, aumentando a produtividade da economia.
Saiba mais: Tire dúvidas sobre o fim da escala 6x1 com cartilha do Dieese disponível para download