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Com ruas vazias, rendimento de motoristas de aplicativos como UBER cai mais de 60%

Motoristas de aplicativo criticam a falta de informação do governo sobre ajuda à categoria desde o agravamento da crise econômica, causada pela pandemia do coronavírus. Movimento caiu mais da metade, dizem

Publicado: 23 Março, 2020 - 08h30 | Última modificação: 23 Março, 2020 - 08h49

Escrito por: Rosely Rocha

Roberto Parizotti
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Pedro Pita é músico e motorista de aplicativo. Aos 27 anos precisa trabalhar em duas profissões diferentes para poder pagar o aluguel de R$ 1.200,00 e as despesas da família, a esposa e dois filhos, um de 11 anos e uma de quatro. 

Mas a pandemia do coronavírus (Covid 19) e as restrições impostas pelos governos ou pelas próprias pessoas para não se contaminarem, tiraram de vez seu chão. Como músico teve suspenso, por hora, um contrato para gravar um disco, os bares em que tocava fecharam por 30 dias e ele teve dois shows que faria no SESC cancelados.

Com todo o agravamento da crise econômica, só restou a Pedro trabalhar como motorista de aplicativo, mas o seu rendimento dirigindo de 12 a 14 horas fazendo em média 20 corridas ao dia, caiu mais da metade. Antes sua diária ficava entre R$ 250,00 a R$ 280,00.  Na quinta-feira (19) saiu para trabalhar de sua casa, em São Bernardo do Campo, às seis da manhã e voltou às oito da noite. No bolso, exatos R$ 108,00.

“Eu senti a queda do movimento já no sábado, segunda-feira piorou, terça foi terrível, e na quinta, a queda foi brutal. Fiz oito corridas e cheguei a ficar duas horas sem tocar o aplicativo, sem nenhuma chamada”, conta Pedro.

Do valor que conseguiu dirigindo 14 horas, ele ainda tem de descontar R$ 60,00 de combustível. Para piorar nesta sexta-feira  (20) vence o aluguel da casa e em breve vai vencer o aluguel de R$ 400,00 do veículo que utiliza para trabalhar. Pedro não sabe como fará para pagar os aluguéis e outras contas.

“Minha mulher ganha R$ 1.600,00 por mês. Só vai dar pra comer. Vou atrasar todas as contas. Vou ter de renegociar o valor do aluguel com a imobiliária, com o dono do carro e ainda corro o risco de não aceitarem uma negociação. Estou sem perspectiva de trabalho na música e a situação dos motoristas de aplicativos é desesperadora”, diz.

Para piorar, o governador do estado de São Paulo, João  Doria (PSDB) e o prefeito Bruno Covas (PSDB) tomaram algumas medidas para que as pessoas evitem circular, como o fechamento de lojas, parques, shoppings e casas noturnas. Bares e restaurantes devem atender preferencialmente por entregas ou com 50% da sua capacidade. Com isso, as ruas e avenidas da maior metrópole do país praticamente se tornaram um deserto, o que diminui ainda mais a possibilidade de Pedro e outros motoristas encontrarem um cliente.

Roberto ParizottiRoberto Parizotti
Avenida Paulista na sexta-feira (20) às 16 horas
Roberto ParizottiRoberto Parizotti
Avenida Paulista, São Paulo

 

Roberto ParizottiRoberto Parizotti
Bares,antes superlotados,hoje a clientela não apareceu

“Sinceramente não sei o quê fazer, estou perdido, tentando ver o barco correr pra ver o que dá”, desabafa.

E por enquanto não há luz no fim do túnel. Nesta sexta-feira (20), o ministério da Economia, cortou a projeção de crescimento para o Produto Interno Bruto (PIB) para este ano de 2,10% para míseros 0,02%. Já outras projeções de instituições conceituadas como a Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que a economia brasileira poderá ter contração de 4,4% no ano.

Se isto acontecer, o Brasil entrará numa recessão profunda, e como Pedro outros 3,6 milhões de brasileiros que vivem do transporte estarão jogados à própria sorte. São taxistas, motoristas e trocadores de ônibus, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em dezembro do ano passado.

A PNDA não traz o número exato dos profissionais que são apenas motoristas de aplicativos. No entanto, somente o aplicativo Uber tem no Brasil 1milhão de motoristas, diz o próprio site da empresa. A maioria recorreu ao bico depois de perder o emprego e não conseguir no recolocar. As taxas de desemprego começaram a subir depois do golpe de 2016 e ainda não estavam em patamares razoáveis na antes da crise de saúde pública começar. E hoje o exército de informais já soma 38,8 milhões de trabalhadores e trabalhadora e representam 41,1% da força ocupada no país.

E neste exército de informais está também Flávio (que prefere não revelar o sobrenome) de 54 anos. Ele decidiu procurar uma alternativa de rendimentos como motorista de aplicativo, ao perceber que sua outra atividade como prestador de serviços em empresas de informática, não dava mais para pagar suas despesas familiares.

Trabalhando oito horas como motorista, de preferência a noite, conseguia em torno de R$ 200,00. Mas a pandemia do coronavírus o fez parar na semana passada, para proteger a filha pequena. Flávio ficou apavorado com a possibilidade de levar o vírus para dentro de casa e contaminar toda a sua família.

Para tomar essa decisão, ele conta com as suas economias que vão cobrir as despesas deste mês, mas não sabe o que fará nas próximas semanas, apesar da esposa trabalhar e ajudar nas despesas de casa.

Flávio reclama da falta de comunicação do governo federal que não dá uma diretriz definitiva de como a população deve se comportar, se é pra ficar em casa de vez ou trabalhar como puder.

“Hoje me disseram que vão bloquear os aplicativos no Rio de Janeiro. Esta decisão vai chegar a São Paulo?”, questiona para em seguida responder: “Não sabemos”.

“Cada estado está dando uma diretriz e as pessoas estão se arriscando porque este governo federal não dá nenhuma segurança. Todo dia é uma informação desencontrada e só gera insegurança pra quem está trabalhando”, critica.

R$ 200,00 prometidos pelo governo não pagam nem supermercado

Outra critica de Flávio é o valor de R$ 200,00 que o governo promete para os informais.

“E aí o que eu faço com 200 reais?”, questiona, e complementa: “Você vai ao supermercado e deixa lá no mínimo 500. A gente teme o desemprego e esse governo não dá uma contrapartida para as pessoas se ‘segurarem’ até passar essa crise”, critica.

Mesmo sem estar nas ruas, Flávio mantém contato com os outros motoristas e, segundo ele, a situação de seus colegas está chegando a um ponto insustentável.

“A reclamação geral é que o movimento está caindo, caindo. A espera de um chamado varia de 40 minutos a uma hora. Tem gente que saiu às sete da manhã e até a uma da tarde tinha ganho R$ 40,00”, conta.

O motorista acredita que seus colegas ainda estão nas ruas porque precisam pagar as contas que vão do aluguel do carro ao supermercado. Outros, diz ele, acham que nunca vão pegar coronavírus porque são jovens.

“Tem muita gente rodando ainda porque falta conscientização. Enquanto este governo não der uma diretriz, uma segurança do que vai fazer, vai ter gente rodando por aí”, afirma.