Ciclo de Diálogos da CUT: extrema direita é ameaça ao meio ambiente
Ciclo de Diálogos Formativos traz debate sobre avanço neofascista, crise climática, poder econômico e defende mobilização da classe trabalhadora na disputa por um projeto democrático, sustentável e popular
Publicado: 15 Julho, 2026 - 18h13
Escrito por: André Accarini
As relações entre a crise climática, o avanço da extrema direita e os desafios enfrentados pelo movimento sindical foram fios condutores para o debate “Fascismo, Soberania Nacional, Geopolítica, Crise Climática e Necropolítica, realizado como parte do Ciclo de Diálogos Formativos da CUT intitulado "Democracia sob ataque - fascismo, extema direita e a luta sindicl cutista".
Organizada pela Secretaria de Formação da CUT e coordenada pela Escola Sindical Chico Mendes na Amazônia, a atividade contou com a participação do economista agrícola e ambientalista Jean Marc von der Weid e da secretária Nacional de Meio Ambiente da CUT, Rosalina Amorim.
O encontro abordou as condições econômicas, sociais e políticas que favorecem o crescimento de movimentos autoritários e discutiu como sindicatos, movimentos populares e organizações da sociedade podem atuar diante desse cenário. Entre os temas tratados estiveram a disputa pela soberania nacional, os impactos da crise ambiental, a transição energética, a precarização do trabalho e a necessidade de ampliar a formação política da classe trabalhadora.
Ao analisar o crescimento da extrema direita, os Jean Marc e Rosalina destacaram que o fenômeno está ligado às crises econômica, social, política e ambiental do capitalismo. Nesse contexto, o enfrentamento ao fascismo também envolve a participação dos trabalhadores nas decisões sobre desenvolvimento, produção de energia, proteção dos territórios e políticas públicas.
Jean Marc iniciou sua fala alertando que a crise ambiental reúne diferentes processos interligados, como o aquecimento global, a perda da biodiversidade, a poluição do solo, da água e do ar, a crise energética, as pandemias e a elevação dos oceanos.
“Essas crises se entrelaçam, elas se alimentam mutuamente”, afirmou. Segundo ele, essa situação é resultado da aceleração do desenvolvimento capitalista e já provoca ondas de calor, secas prolongadas, inundações, queimadas, deslocamentos populacionais e destruição das condições de vida em diversas regiões.
O economista ressaltou que não se trata de uma ameaça distante. “Não é uma coisa que vai acontecer pros meus netos, já está acontecendo para nós. Pros meus netos vai ser muito pior”, disse.
Para Jean Marc, as medidas apresentadas pelo chamado capitalismo verde são insuficientes porque procuram preservar o mesmo modelo de produção, consumo e concentração de riqueza responsável pela devastação ambiental. A simples substituição de automóveis movidos a combustíveis fósseis por veículos elétricos, por exemplo, não modifica uma organização social baseada no transporte individual e na exploração intensiva de recursos naturais.
“A gente tem que começar a pensar que o futuro vai ser um futuro em que o tipo de organização da sociedade, o tipo de consumo da sociedade terá que ser profundamente modificada”, afirmou.
Crises favorecem alternativas autoritárias
Ao relacionar a crise ambiental com o crescimento da extrema direita, Jean Marc destacou o enfraquecimento das democracias e o aprofundamento das desigualdades nos países capitalistas. Para ele, a deterioração das condições sociais favorece o aparecimento de alternativas políticas autoritárias.
“As sociedades europeia, americana, até hoje em dia vivem crises sociais cada vez mais profundas e que estão significando, politicamente, num renascer de uma alternativa de tipo neofascista”, declarou.
Segundo o ambientalista, setores da sociedade passam a ser atraídos por respostas autoritárias quando as instituições políticas deixam de apresentar soluções para os problemas econômicos e sociais. Essas alternativas, no entanto, não enfrentam as causas da crise ambiental e podem aprofundar a repressão, a retirada de direitos e a exclusão de parcelas da população.
Jean Marc também relacionou a ascensão da extrema direita ao cenário de disputa internacional e à crise da hegemonia dos Estados Unidos. Na avaliação dele, o enfraquecimento econômico e político das potências tradicionais pode ampliar conflitos, intervenções sobre outros países e disputas por petróleo, terras, água e outros recursos estratégicos.
Nesse cenário, a questão ambiental também envolve a defesa da soberania nacional. Territórios, fontes de energia, florestas, minerais e reservas de água tornam-se alvo dos interesses de grandes empresas e de países que buscam assegurar recursos para a manutenção do atual modelo econômico.
Organização popular para mudar políticas públicas
Jean Marc afirmou que a superação da crise não será conduzida espontaneamente pelas classes dominantes. Embora cientistas possam identificar os riscos e apresentar diagnósticos, são a organização social e a ação política que podem modificar decisões governamentais e políticas públicas.
“Quem resolve os problemas é o povo organizado, capaz de interferir nos processos de decisão política de maneira a alterar as políticas públicas que hoje reforçam, nacionalmente e internacionalmente, a evolução desse processo de destruição”, afirmou.
Para ele, ainda é necessário ampliar a compreensão da classe trabalhadora sobre a gravidade da crise ambiental e sua relação com o capitalismo e a extrema direita. Esse processo exige formação política, conscientização e organização sindical.
“Ou o movimento social é capaz de fazer isso ou não vai ter solução”, alertou.
Rosalina Amorim reforçou que a formação promovida pela CUT é fundamental para transformar o conhecimento sobre a crise em participação e mobilização social. Para ela, o debate precisa alcançar dirigentes, militantes, sindicatos, comunidades e organizações populares de todo o país.
“Acho que esse é um processo muito forte de mobilização e formação para os companheiros e companheiras em todo o Brasil”, afirmou.
A dirigente destacou que uma das prioridades da CUT é a defesa da transição justa. O conceito estabelece que as mudanças na produção e nas fontes de energia devem garantir emprego decente, direitos, proteção social, qualificação profissional e participação efetiva dos trabalhadores.
Segundo Rosalina, projetos de energia eólica e solar implantados sem diálogo com as populações locais vêm provocando conflitos, violações de direitos e impactos sobre comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e sobre os trabalhadores dos territórios.
A transição energética é necessária, mas não pode ser controlada exclusivamente pelo grande capital. “Sem essa participação da classe trabalhadora é o grande capital que vai dominar o processo”, alertou.
Rosalina explicou que a implantação de fontes renováveis de energia não representa, por si só, uma transição socialmente justa. Para que as mudanças beneficiem a população, é necessário avaliar seus efeitos sobre o trabalho, a renda, os modos de vida e os direitos das comunidades que vivem nas áreas onde os projetos são instalados.
Disoputar políticas e proteger trabalhadores
Rosalina defendeu a participação dos sindicatos desde a elaboração dos projetos até as negociações coletivas. A preocupação é impedir que as mudanças tecnológicas e energéticas resultem em postos de trabalho precarizados, terceirizados, com baixos salários e sem direitos garantidos.
“É importante a participação dos sindicatos nesses processos de transformação”, afirmou.
A dirigente também ressaltou que acordos e convenções coletivas podem estabelecer mecanismos de proteção diante de enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos extremos. Essas medidas devem evitar que os trabalhadores sejam responsabilizados ou percam renda quando as atividades econômicas forem interrompidas por desastres climáticos.
Para Rosalina, cada sindicato e cada CUT estadual precisa incorporar o tema à sua atuação, dialogando com universidades, comunidades, movimentos sociais e organizações que defendem os territórios.
“A participação efetiva dos sindicatos pode mudar essa realidade. Mecanismo de proteção nos acordos coletivos é fundamental”, disse.
Eleições
Ela também chamou a atenção para a atuação de representantes negacionistas no Congresso Nacional. Segundo a dirigente, a escolha de parlamentares comprometidos com os direitos sociais, os territórios e o meio ambiente faz parte da disputa política contra a extrema direita e contra o controle das políticas públicas pelo poder econômico.
Quando o financiamento público privilegia o agronegócio e as grandes corporações, enquanto a agricultura familiar e os pequenos produtores recebem menos recursos, o Estado contribui para manter um modelo concentrador, que amplia desigualdades e pressões sobre o meio ambiente.
“A gente precisa ter representantes que estão alinhados com as nossas políticas, com a defesa do nosso povo, com a defesa dos nossos territórios e com a defesa da pauta dos trabalhadores”, afirmou.
O debate mostrou que a luta contra o fascismo e a extrema direita passa pela capacidade de transformar conhecimento e conscientização em organização política. Isso inclui disputar políticas públicas, fortalecer sindicatos, proteger trabalhadores, defender a soberania nacional e construir alianças entre populações urbanas, povos do campo, das águas, das florestas e das periferias.
Para Rosalina, somente a mobilização coletiva poderá produzir mudanças capazes de enfrentar a crise climática e assegurar condições dignas para as próximas gerações.
“Essas mudanças têm que acontecer e elas só vão acontecer se nós nos mobilizarmos e fortalecermos essa luta”, concluiu.