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Ciclo de Diálogos da CUT debate fascismo, racismo e violência política

Encontro do ciclo formativo discutiu o avanço da extrema direita, suas conexões com o mundo do trabalho e os desafios da luta sindical diante do fascismo, do racismo e da violência política

Publicado: 29 Maio, 2026 - 14h00 | Última modificação: 29 Maio, 2026 - 14h14

Escrito por: Andre Accarini

reprodução / IA
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O avanço da extrema direita, a relação entre fascismo e capitalismo, a violência política contra mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ e os desafios da organização sindical diante desse cenário estiveram no centro do quarto encontro do “Ciclos de Diálogos Formativos: Democracia sob Ataque – Fascismo, Extrema Direita e a Luta Sindical CUTista”, promovido pela Secretaria Nacional de Formação da CUT em parceria com a Escola Sindical São Paulo. Com o tema “Fascismo, racismo e violência política”, a atividade reuniu dirigentes sindicais, militantes e educadores em um debate sobre como o fascismo se manifesta no cotidiano, no mundo do trabalho e nas estruturas sociais.

O encontro ocorreu em formato remoto e teve como debatedores o professor e pesquisador Dennis de Oliveira, da Universidade de São Paulo (USP), e Walmir Siqueira, secretário nacional de Políticas LGBTQIA+ da CUT. A mediação e abertura ficaram a cargo de dirigentes da área de formação da Central, entre eles Sueli Veiga, secretária-adjunta nacional de Formação da CUT, e e a dirigente da CUT São Paulo, coordenadora geral da Escola Sindical São Paulo, Telma Victor. 

Ao abrir a atividade, Sueli relacionou o debate político ao momento vivido pela classe trabalhadora, marcado pela mobilização pelo fim da escala 6x1 e pela redução da jornada de trabalho. Segundo ela, a formação política e sindical segue sendo uma ferramenta estratégica para enfrentar ataques a direitos e fortalecer a organização coletiva.

“Essa é uma semana histórica para nós trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou Sueli ao citar os avanços recentes na pauta da jornada de trabalho e destacar que conquistas sociais são resultado de mobilização persistente da classe trabalhadora organizada.

A dirigente também situou o seminário dentro do esforço permanente da CUT de formação política de dirigentes e trabalhadores, lembrando que o enfrentamento ao fascismo exige organização e capacidade de disputar valores e consciência nos locais de trabalho e nos territórios.

Fascismo como expressão do capitalismo contemporâneo

Em sua exposição, Dennis de Oliveira defendeu que o fascismo não deve ser entendido apenas como um comportamento individual, uma deformação moral ou uma simples radicalização ideológica, mas como uma manifestação vinculada ao funcionamento do capitalismo contemporâneo.

Segundo ele, limitar a análise do fascismo a uma questão de comportamento ou irracionalidade política impede compreender as suas raízes materiais e econômicas.

“Muitas vezes [o fascismo] é tratado meramente como uma deformação política, uma deformação cognitiva de comportamento. É isso também, mas eu acredito que é necessário transcender esse tipo de avaliação para pensar o fascismo como uma decorrência da própria forma que o capitalismo se organiza nos dias de hoje”, afirmou o pesquisador.

Na avaliação do professor, a reorganização produtiva global marcada pela precarização do trabalho, fragmentação das cadeias produtivas e aprofundamento das desigualdades cria condições para o avanço de discursos autoritários e discriminatórios. Dennis argumentou que a intolerância e as hierarquias sociais mobilizadas pelo fascismo funcionam como mecanismo de legitimação da exclusão.

“À medida que ele vai estabelecendo hierarquias de sujeitos — a mulher é menos, o negro é menos — você justifica a exclusão social”, afirmou, defendendo que racismo, machismo e LGBTfobia precisam ser compreendidos como partes de uma mesma estrutura de dominação.

Para Dennis, a democracia e a ampliação de direitos entram em choque com essa lógica. O pesquisador destacou que avanços conquistados por meio de políticas públicas, ações afirmativas e participação social permitiram que grupos historicamente marginalizados passassem a reivindicar direitos e cidadania de forma mais ampla.

“Esses sujeitos e sujeitas que vão sendo incorporados nesse universo de direitos se sentem cidadãos e, como cidadãos, não aceitam qualquer tipo de situação”, disse.

O professor também chamou atenção para a forma racializada da economia global, argumentando que os processos produtivos mais violentos e degradantes seguem concentrados sobre países periféricos e populações racializadas. Ao comentar a chamada transição energética, questionou se tecnologias consideradas “limpas”, como carros elétricos, rompem de fato com a lógica predatória ou apenas deslocam a exploração para outros territórios, por meio da mineração intensiva de minerais estratégicos, como o lítio.

Outro ponto enfatizado por Dennis foi a defesa da ciência pública e das universidades como elementos centrais para a soberania nacional e para a construção de alternativas tecnológicas capazes de romper dependências econômicas.

“Furar a bolha” e disputar consciência no cotidiano

Ao comentar os impactos concretos da extrema direita no cotidiano, Walmir Siqueira destacou que o fascismo não se expressa apenas nos espaços institucionais ou nas disputas eleitorais, mas também nas relações diárias, nos ambientes de trabalho, nas escolas e nas redes sociais.

“A gente vê no nosso dia a dia como esse pensamento fascista, antidemocrático, funciona na prática”, afirmou.

Walmir relatou situações vividas em espaços comuns de convivência e chamou atenção para o fato de trabalhadores muitas vezes reproduzirem discursos autoritários e discriminatórios mesmo sendo diretamente afetados pelas desigualdades e pela retirada de direitos.

Segundo ele, o desafio do movimento sindical é dialogar com essas pessoas, ampliar a consciência política e romper o isolamento das bolhas ideológicas.

“O que a gente não pode fazer é deixar de falar, deixar de debater, deixar de encarar”, afirmou. “Essa é a vontade que a direita tem da gente: colocar a gente, entre aspas, no lugar da gente. E o nosso lugar é onde a gente quiser estar.”

O dirigente também abordou a escalada da violência política e da discriminação direcionada a pessoas LGBTQIA+, mulheres e população negra, alertando para a naturalização crescente de práticas antes menos explícitas.

“Hoje é com muita naturalidade que eles agem contra as pessoas LGBTs, impedem as pessoas trans de usarem banheiro, tratam negros e negras com racismo explícito”, afirmou, defendendo a necessidade de enfrentar esses discursos no cotidiano e nos espaços de convivência social.

Formação política como estratégia sindical

Ao longo do encontro, participantes defenderam que o enfrentamento ao fascismo exige combinar análise estrutural das desigualdades com trabalho de base, disputa de valores e fortalecimento da organização coletiva.

Também foi destacado que direitos trabalhistas não são concessões patronais, mas resultado de luta social acumulada ao longo de décadas. A própria mobilização pela redução da jornada foi citada como exemplo de conquista construída historicamente pela classe trabalhadora organizada.

O ciclo de formação terá continuidade no próximo 11 de junho, com o debate “Fascismo, machismo e ofensiva patriarcal”, organizado pela Escola Sul da CUT, com participação da filósofa Márcia Tiburi e da secretária nacional de Mulheres Trabalhadoras da CUT, Amanda Corcino.