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Carta-testamento de Getúlio Vargas completa 67 anos e reforça luta contra golpistas

O suicídio de Vargas “barrou a tentativa de golpe e levantou grande parte do povo contra líderes de direita, partidos e mídia golpistas de então, derrotando-os fragorosamente

Publicado: 24 Agosto, 2021 - 17h06

Escrito por: CUT RS

Reprodução
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A carta-testamento deixada pelo presidente Getúlio Vargas, após ter dado um tiro no próprio peito em 24 de agosto de 1954, completa 67 anos e permanece atual. O texto alerta para a ação das elites antidemocráticas, que já naquele tempo tinham os mesmos projetos contra os interesses do povo brasileiro e a soberania nacional.

O suicídio de Vargas “barrou a tentativa de golpe e levantou grande parte do povo contra líderes de direita, partidos e mídia golpistas de então, derrotando-os fragorosamente. Venceu a democracia e venceram os interesses maiores do povo brasileiro”, segundo o Fórum 21, que resgatou o documento histórico durante a resistência ao golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff em 2016.

“Hoje, quando golpistas atacam a democracia, o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional, a carta-testamento revela que o tempo passou, mas ela não perdeu atualidade”, afirma o secretário de Organização e Política Sindical da CUT-RS, Claudir Nespolo.   

Segundo o dirigente sindical, “desgastados e com medo de perder as eleições de 2022, os golpistas querem continuar impondo um programa neoliberal, que vem tirando direitos da classe trabalhadora e entregando as empresas estatais e os serviços públicos”.

“Não é à toa que várias conquistas sociais da era Vargas já foram destruídas pelos golpistas e estão ameaçados os direitos que ainda restam na Constituição de 1988”, aponta Nespolo. 

A história não se repete, lembra o dirigente da CUT-RS, “mas as elites brasileiras, que defenderam a escravidão com unhas e dentes, nunca tiveram escrúpulos em romper com a democracia para chegar ao poder, de forma aberta ou disfarçada, derrubando governantes populares, eleitos democraticamente pelo povo”.

Getúlio enfrentou a ameaça de golpe e venceu com o sacrifício da própria vida. Brizola também venceu o golpe contra a posse constitucional do vice-presidente João Goulart, em 1961, formando a Rede da Legalidade, que está completando 60 anos. 

Jango decidiu não reagir ao golpe, em 1964, o que resultou em 21 anos de ditadura, com centenas de mortos e desaparecidos políticos, milhares de presos, torturados e exilados. Além disso, foi um período de arrocho salarial, corrupção e concentração de renda nas mãos de poucos, atrasando por 40 anos o desenvolvimento do Brasil.

“Que o último legado de Getúlio reforce a resistência e a luta do povo brasileiro, que já vem saindo às ruas, em meio à pandemia, respeitando os cuidados sanitários, por vacina já para todos, empregos e renda, contra as privatizações, em defesa dos serviços públicos e da democracia, e pelo impeachment de Bolsonaro”, conclui Nespolo.

Leia a íntegra da carta-testamento!

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

Não me acusam, me insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social.

Tive que renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a Justiça da revisão do salário-mínimo se desencadearam os ódios.

Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.

Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação.

Meu sacrifício nos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória.

Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue terá o preço do seu resgate.

Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história.