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Brexit e a crise da integração europeia

​Desafios para a classe trabalhadora

Publicado: 05 Julho, 2016 - 15h09 | Última modificação: 14 Julho, 2016 - 12h18

Escrito por: Vagner Freitas, Antonio Lisboa e João Felicio

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Margem de apenas 3% dos votos selou a separação do Reino Unido da UE

Uma margem de apenas 3% dos votos selou a separação do Reino Unido da União Europeia (UE) no ultimo dia 23 de junho, deixando incrédulos desde o cidadão comum ao mais experiente analista.

Para tornar a situação ainda mais crítica, a votação foi apertada e mostra uma divisão interna no Reino Unido: Escócia e Irlanda do Norte votaram amplamente pela permanência na União Europeia. Já são cogitadas, inclusive, tentativas de separação desses países do Reino Unido, buscando uma forma de voltar à União Europeia. Na Inglaterra, o voto pela permanência na UE venceu nas grandes cidades como Liverpool, Manchester e Londres, mas foi derrotado nas pequenas cidades e no interior. Além disso, grupos à direita e à esquerda estiveram em campanha tanto pelo voto na saída quanto pelo voto na permanência.

Devido à complexidade social, política e econômica em jogo, o significado e a dimensão das consequências que essa decisão implica só poderão ser avaliados completamente daqui a alguns anos, quando se consumar totalmente a separação. Daqui até lá, tanto políticas adotadas pelo Reino Unido, quanto pela União Europeia poderão afetar o quão dolorosa ou não será a separação.

A saída do Reino Unido foi impulsionada pela crise econômica internacional que se arrasta desde 2008 e continua causando efeitos devastadores e duradouros em todo o mundo, principalmente sobre a economia real, os serviços públicose o mercado de trabalho. Existe um consenso razoável entre os especialistas, no entanto, de que no curto prazo a Brexit (expressão para a “saída Britânica”) representará uma desaceleração da economia, queda dos investimentos, perda de empregos e até mesmo uma possível recessão da economia britânica.

Com a decisão de sair, o Reino Unido abandona uma posição privilegiada dentro da UE pois não fazia parte da zona do Euro e, assim, não sofria diretamente com as medidas monetárias e de austeridade promovidas a partir de Bruxelas pelo Banco Central Europeu (BCE) e que vem causando amplo repúdio por parte do movimento sindical em países como a França, a Itália e Portugal. Ademais, a UE representa um mercado de 500 milhões de consumidores com poder de compra relativamente alto, que dava ao Reino Unido benefícios econômicos e comerciais, tarifários e não-tarifários muito vantajosos, os quais são a razão de grande parte da atração dos capitais financeiros de origem europeia para a City de Londres (centro financeiro inglês).

Há também uma importante dimensão política que não se pode esquecer. A UE sempre foi, primordialmente, um projeto geopolítico, um fator de estabilização militar regional e de manutenção da paz num continente marcado pelo horror de duas grandes guerras. A integração regional europeia deveria ser construída em base a princípios de solidariedade, impulsionada pela intervenção ativa do Estado na economia para garantir direitos e políticas de bem-estar social. Porém, com o passar dos anos, e principalmente a partir da década de 1980, este projeto foi sendo paulatinamente desmontado em favor de uma visão neoliberal de Europa, que visa sobretudo garantir a liberdade e os direitos do grande capital, às custas da classe trabalhadora. Nos anos 2000, a União Europeia passou a reforçar a sua face econômica neoliberal, cobrando mais e mais austeridade de países como Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Irlanda.

A estes motivos econômicos para a saída britânica somam-se razões sociais e culturais da Brexit,que foram radicalizadas pela atual situação de crise e austeridade por que passa o continente europeu. Em meio a divisões tanto na centro-direita quanto na centro-esquerda, a extrema direita (tanto na Grã-Bretanha quanto na Europa) foi a grande favorecida com o resultado, mobilizando o protecionismo nacionalista e a xenofobia contra trabalhadoras e trabalhadores migrantes, elementos que foram importantes no recente voto britânico pelo abandono da UE.

De fato, dados mostram que entre 1993 e 2014 a população de estrangeiros no Reino Unido mais do que duplicou, passando de 3,8 milhões para cerca de 8,3 milhões. Índia, Polônia e Paquistão são as três maiores fontes de imigração britânica, nesta ordem. A UE aumentou sua participação de 25% para 50% desse total entre 2004 e 2014, coincidindo com o processo de inclusão no bloco de países do Leste Europeu e com a crise financeira iniciada em 2008, que levou a um incremento da migração também dos países do Sul da Europa para o Reino Unido.

            O aumento da preocupação com o tema da migração vem crescendo na opinião pública britânica (cerca de 45% o consideram preocupante) na mesma medida em que avança o partido de extrema-direita britânico UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido, em inglês), que atualmente já tem a terceira maior votação do país, apresentando um discurso demagógico fortemente anti-migrante e anti-muçulmano. Vale ressaltar, porém, que há claramente um choque geracional em curso, com os jovens votando em sua maioria para permanecer na UE, enquanto a população com mais de 45 anos optou massivamente pela saída. Do ponto de vista xenófobo, realmente era necessário sair da UE para que o Reino Unido pudesse aplicar políticas anti-migratórias ainda mais duras, discriminatórias e excludentes.

Uma onda de ataques xenófobos já está assolando imigrantes e refugiados no Reino Unido através de ataques verbais nas ruas e transportes públicos, pichações a edifícios como o Centro Cultural Polonês de Londres, distribuição de folhetos e cartas ameaçando imigrantes, em especial os do leste europeu, e agressões em redes sociais. Esses ataques revelam o risco de uma direita fascista voltar a ganhar poderes em diversos países da Europa.

Dentro do Partido Conservador inglês (Tory), a vitória da Brexit e a subsequente renúncia do Primeiro Ministro David Cameron abriram espaço para a ascensão de lideranças ainda mais à direita de Cameron. Ao mesmo tempo no campo da esquerda, o Partido Trabalhista (Labour Party) também se dividiu internamente, ao ponto de recuperar forças o campo moderado de Tony Blair e ser questionada a atual liderança progressista de Jeremy Corbyn, acusado de ter um discurso dúbio e fraco ao longo do processo do referendo e por isso ter perdido a confiança do partido.

Estima-se que a desaceleração da economia e a queda dos investimentos europeus gerará perda de empregos, ou seja, o custo da decisão de saída da UE recairá sobre as trabalhadoras e trabalhadores, em especial os imigrantes. Isso demandará do movimento sindical britânico uma luta árdua em ao menos duas frentes: a defesa do emprego, salários e condições de trabalho, de um lado, e de outro, junto com o movimento sindical internacional, está colocado o desafio de organizar e difundir um contra-discurso que seja capaz de combater o nacionalismo xenófobo e que possa dialogar com as aspirações da juventude que votou pela permanência na UE.

O problema político de fundo é que a Brexit se deu pela direita e não através de uma crítica à esquerda sobre as políticas neoliberais que a UE promove a partir de Bruxelas. A crítica a respeito do caráter excessivamente pró-empresarial e pró-mercado financeiro da UE, da sua cultura anti-classe trabalhadora, do seu funcionamento anti-democrático, das suas ações militares imperialistas, não estiveram no centro dos debates antes do referendo. Pouco se debateu, por exemplo, as causas políticas, econômicas e militares/humanitárias do recente aumento do fluxo migratório para o Reino Unido.

É por estes e outros motivos que, nesse momento crítico em que vivemos, é preciso fazer um contraponto político claro, recuperando os valores da solidariedade e a tradição do internacionalismo, pilares da atuação do movimento sindical desde as suas origens no século XIX, quando o império britânico já se beneficiava da mão-de-obra barata de suas colônias para seu própio desenvolvimento nacional. A CUT estará sempre ao lado dos quase seis milhões de trabalhadores e trabalhadoras filiados à TUC inglesa (Trades Union Congress) e de todos que frente à austeridade neoliberal, ao fascismo e à xenofobia, promovem a unidade de classe e a solidariedade internacional.

 

 

Vagner Freitas

Presidente da CUT

Antonio de Lisboa Amâncio Vale

Secretário de Relações Internacionais da CUT

João Felicio

Presidente da Confederação Sindical Internacional, CSI