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Bolsonaro demonstra desconhecimento quando diz que salário de brasileiro é alto

Em visita ao Chile, Bolsonaro disse que mercado de trabalho no Brasil precisa se aproximar da informalidade porque os brasileiros ganham muito. Economistas ouvidos pelo Portal CUT discordam do presidente

Publicado: 27 Março, 2019 - 09h00 | Última modificação: 27 Março, 2019 - 09h22

Escrito por: Tatiana Melim

Alex Capuano/CUT
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Em meio à discussão sobre a reforma da Previdência, que praticamente acaba com o direito à aposentadoria e prejudica, principalmente, os mais pobres, Jair Bolsonaro (PSL) voltou a fazer declarações contra os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiros.

Ele disse no último sábado (23), durante um café da manhã com empresários no Chile, que o brasileiro ganha muito e voltou a defender que o mercado de trabalho no Brasil deve beirar a informalidade.

“Tenho dito à equipe econômica que na questão trabalhista nós devemos beirar a informalidade porque a nossa mão de obra é talvez uma das mais caras do mundo", afirmou Bolsonaro, que já disse em várias ocasiões que pretende aprofundar a reforma Trabalhista do ilegítimo Michel Temer (MDB) que acabou com mais de 100 itens da CLT.

Ao contrário do que disse Bolsonaro, “o custo do trabalho no Brasil, hoje, é menor até mesmo do que o da China”, rebate o economista Marcio Pochmann, explicando que desde 2015 houve uma queda expressiva no custo da mão de obra no Brasil.

“Até 2014, era diferente. O custo no Brasil era 20% maior. Tanto é que diziam que era difícil competir com os chineses. Mas, em 2017, essa relação mudou e o custo da mão de obra na China passou a custar 16% mais do que aqui”.

Segundo o estudo de 2012 (último dado disponível) do Bureau of Labor Statistics sobre o custo de empregar na indústria de transformação, que abrange salários, benefícios e tributos, em uma amostra de 34 países, o Brasil ficou na 28º posição, abaixo de todos os países desenvolvidos e de países como Eslováquia, República Tcheca, Argentina e Grécia.

A fala de Bolsonaro, portanto, não tem embasamento, diz Pochmann, que reafirma: “Não há nenhum indicador que comprove que o custo da mão de obra no Brasil é o mais caro”.

Segundo o economista, nem mesmo o estudo do Bureau of Labor Statistics dos EUA, um dos poucos levantamentos sobre o custo da mão de obra na indústria de transformação, sinalizou esse alto custo que diz Bolsonaro.

Custos de compensação por hora na fabricação (Bureau of Labor Statistics dos EUA)

O debate é mais complexo, Bolsonaro!

O economista e diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, reforça a avaliação feita por Pochmann e diz que não é verdade que a mão de obra no Brasil é a mais cara do mundo, tem lugares onde um operário ganha até três vezes mais do que aqui.

“A mão de obra mais cara é na Alemanha, por exemplo, onde um metalúrgico ganha três vezes mais do que um trabalhador metalúrgico no Brasil. Não é tão simples fazer uma comparação pelo custo de encargos sobre a folha de pagamento”, diz Clemente, acrescentando que a carga tributária brasileira não é a mais cara em comparação com diversos países, como a própria Alemanha.

“O debate é mais complexo e precisa ser aprofundado, considerando que o mercado de trabalho brasileiro e a proteção social e trabalhista são muito desiguais, um reflexo da desigualdade na estrutura econômica do país”.

Que tal começarmos falando sobre reforma Tributária?

Para começar a corrigir essa distorção é preciso abordar a questão tributária, defende o diretor técnico do Dieese. Ele usa como exemplo o quanto os bancos pagavam de encargos trabalhistas hoje e há cerca de 30 anos.

Em 1990, diz Clemente, os bancos pagavam cerca de 50% de encargos sociais sobre o total de 1,2 milhão de bancários. Atualmente, eles pagam os mesmos 50% sobre 400 mil trabalhadores e ganham muito mais.

“Hoje, os bancos são 4, 5, 6 vezes maiores e ganham muito mais com apenas 1/3 da força de trabalho”, explica.

“Portanto, o debate que precisa ser feito é sobre uma reforma tributária que cobre, por exemplo, sobre o faturamento desses bancos e não sobre os encargos da folha de pagamento. É preciso tributar quem tem mais, quem não paga IPVA de jatinho, avião e de grandes fortunas”, defende.

Informalidade não é o caminho

Reduzir o rendimento do trabalho e transformar a informalidade como regra no mercado de trabalho é insustentável como argumento para viabilizar a geração de empregos e a retomada do crescimento econômico, defendem os economistas.

Tanto Pochmann quanto Clemente acreditam que o discurso de um presidente da República deveria ser o oposto do que defende Bolsonaro.

O que deveríamos ouvir de um presidente são declarações que sinalizem um rumo para o Brasil, que tire o país de uma situação precária, e não que generalize essa precariedade para o conjunto dos brasileiros
- Clemente Ganz Lúcio

“Se Bolsonaro insistir nesse discurso, vamos tornar a precarização a situação legalmente estabelecida no país. Teremos uma economia fraca, com maus empregos”.

Para Pochmann, a tentativa de Bolsonaro de igualar por baixo o mercado de trabalho é uma inversão de prioridades. “É justamente o contrário do que buscam os países que querem acabar com a desigualdade”.

Segundo o economista, quando a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) foi criada, em 1943, o objetivo era elevar a remuneração de quem está na base da pirâmide e, com isso, combater a desigualdade.

O que Bolsonaro propõe hoje é o oposto disso. Quer uma classe média sem direitos e com remuneração rebaixada
- Marcio Pochmann