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Ativistas encerram greve de fome após 26 dias ingerindo só água e soro

Em ato na manhã deste sábado, grevistas conclamam população a seguir mobilizada, construindo a resistência democrática a partir das ruas, em defesa do direito de Lula ser candidato

Publicado: 27 Agosto, 2018 - 09h23 | Última modificação: 27 Agosto, 2018 - 13h22

Escrito por: Redação CUT

Lu Sudré
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Os sete grevistas que ficaram sem qualquer tipo de alimentação entre os dias 31 de julho e 25 de agosto, encerraram o protesto por justiça para o ex-presidente Lula e contra a miséria no último sábado (25), atendendo pedidos das entidades que representam para retornar às bases e fomentar a luta popular com o potencial simbólico do ato praticado.

Segundo Jaime Amorim, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e um dos ativistas, o fim da greve de fome “não é o final da jornada, ao contrário, é uma nova etapa que começa.”

"Ao longo dos 26 dias, foi feito um grande debate com a sociedade brasileira, denunciando a volta da fome, e mostrando para o mundo as consequências do golpe, o aumento da violência, o abandono dos mais pobres por parte do estado e o papel que o Poder Judiciário exerceu para que isso acontecesse", declarou Amorim.

“O judiciário cumpriu um papel decisivo a favor do golpe e contra o povo, mostramos para todos esses cenários em que se conduziu a judicialização da política e a politização do Poder Judiciário, o que é incompatível com uma sociedade democrática", acrescentou.

Para os sete ativistas, tão importante quanto dialogar com os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) foi conquistar a solidariedade ativa da população, que ampliou por meio de suas redes pessoais as mensagens dos grevistas que repercutiram quase que exclusivamente pelos canais de mídia progressistas, sendo propositalmente bloqueados pelos principais canais de comunicação da mídia comercial.

"Ao sair da greve temos consciência de que cumprimos um papel importante, ajudamos a mobilizar e organizar o povo, colocamos em pauta novas perspectivas para este país, evocamos a ideia de um Brasil-Nação para todos os brasileiros", afirma Amorim.

“Nós saímos da greve para um outro patamar da luta, seguiremos lutando pela liberdade de Lula, mas olhamos para a frente vislumbrando o Congresso do Povo e a consolidação da Frente Brasil Popular como um instrumento de desenvolvimento político e social para toda nossa gente, abrigando a nova militância que surgiu da resistência ao golpe e vem crescendo cada vez mais, uma militância sem vícios, que está disposta a ajudar a construir uma nova história possível e necessária."

Reintrodução alimentar

A primeira refeição dos sete militantes foi frutas e água. Acompanhados pelos profissionais de saúde, eles iniciaram no sábado a chamada reintrodução alimentar.

O médico Ronald Wolf, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares (RNMMP) que acompanhou os militantes desde o início, explicou que eles precisam comer alimentos leves, em pequenas quantidades, várias vezes ao dia.

“Ao longo de uma semana, eles farão um escalonamento crescente da diversidade da alimentação até chegar ao considerado normal”.

Segundo o médico, o último grupo da fase de reintrodução alimentar será o das proteínas animais, "que agora, neste momento, estão contraindicados".

Wolf explicou que a falta de energia dos militantes da greve de fome, o estado de inatividade do tubo digestivo, não permite a ingestão de proteínas. "Caso ingerissem proteínas poderiam ter um alto risco de complicações, como diarreia, dores e outros prejuízos ao estômago”.

A partir da experiência de outras greves de fomes e dos acompanhamentos médicos constantes, foi produzida uma cartilha de orientação para a reintrodução alimentar, entregue aos grevistas e suas famílias.

Os sete militantes farão exames de controle e, assim que retornarem aos seus estados, manterão por um período avaliações de saúde regulares, mas Wolf está confiante que nenhum dos grevistas apresente problema de saúde.

 “A inatividade do tubo digestivo durou 26 dias, mas é um tubo que não nasceu agora. Já tinha uma ingestão alimentar diversificada. O organismo deles tem a memória da alimentação, além da necessidade. Claro que todas as células do corpo e todo o organismo foram afetados [durante a greve de fome], a reintrodução da dieta deve ser de forma lenta agora, mas é algo mais simples”, esclarece o médico.

Além da saúde física, ao longo da greve também houve uma forte preocupação com a saúde mental dos grevistas, que também seguirão acompanhados por psicólogos. “A recepção na cidade deles será o principal ingrediente que dará essa nutrição emocional. A afetividade, a questão da emoção. Nós [médicos] e os psicólogos e as psicólogas, que aqui estivemos todo esse tempo, conversamos sobre isso. Entendemos que esse afago, essa recepção, que essa onda de energia positiva para eles é mais importante do que nós, profissionais da saúde”, destaca Wolff.

Reivindicações

Os sete militantes de movimentos sociais fizeram greve de fome reivindicando que a Corte Suprema cumprisse a determinação do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) de que o Estado Brasileiro garanta a Lula os direitos políticos e a participação nas eleições presidenciais deste ano.

E também para que o STF pautasse as Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADCs) 43 e 44, que tratam da prisão após condenação em segunda instância, como é o caso de Lula, mantido preso político na sede da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR), desde o dia 7 de abril.

Lula foi condenado pelo juiz Sérgio Moro no caso do tríplex do Guarujá, sem crime nem provas de qualquer ato ilegal. O que foi comprovado é que o apartamento não pertence ao ex-presidente e, sim, a construtora OAS. Mesmo assim, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) confirmou a decisão de Moro.

Para eles, Lula tem o direito de responder o processo em liberdade até o caso ser decidido na última instância da Justiça. Eles acusam o Poder Judiciário de violar a Constituição e impedir o povo de escolher pelo voto, soberanamente, nas eleições deste ano, o próximo Presidente da República.

No primeiro dia da greve de fome, os ativistas pediram audiências aos 11 ministros do Supremo. Foram atendidos apenas pela presidente, ministra Carmen Lúcia, que ouviu um dos grevistas; pelo ministro Ricardo Lewandowski, que recebeu todos os ativitas, e pelos funcionários do ministro Gilmar Mendes e de Luís Barroso e pela m8nistra Rosa Weber.

Militante passou mal

Na última terça-feira (21), no momento em que era realizada uma mobilização em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, organizada pela Frente Brasil Popular, uma das ativistas do grupo, Zonália Santos, 48 anos, passou mal e foi atendida pelos paramédicos do SAMU e encaminhada para o Hospital regional Asa Norte. Ela é assentada da reforma agrária em Rondônia. Após receber atendimento médico, Zonália retornou ao Centro Cultural de Brasil, onde permanece em repouso e segue em observação.

Revolta

A situação de risco à vida dos sete ativistas tem sido alertada pelos médicos que acompanham a greve de fome, mas eles continuam irredutíveis e prometem ir até às últimas consequências até que o STF se sensibilize com as reivindicações.

Líderes de movimentos que apoiam o protesto expressaram repúdio à insensibilidade de ministros do Supremo. Maria Kazé, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) culpa o STF pela situação.

“O Supremo não demonstrou até agora um mínimo sinal de sensibilidade para com os companheiros e companheiras que estão há 23 dias esperando dolorosamente para serem recebidos por um ministro, por uma ministra”.

Os grevistas

Frei Sérgio Görgen, 62 anos, gaúcho, dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), diz que os ministros do STF precisam voltar a ter algum tipo de conexão com a população brasileira.

Rafaela Alves se manifesta por meio de versos: “A situação está extrema / Para onde vai a nação? / Com epidemias, desemprego / Sem saúde, educação / Políticas Sociais extintas / Resta abandono destruição. / Contra negros, jovens, mulheres / A violência só alimenta / Os preços desenfreados / O povo já não aguenta / A mídia segue mentindo / Nossas redes a enfrenta”.

Completando 68 anos em meio à Greve de Fome, Gegê Gonzaga, paraibano radicado em São Paulo, representa a Central dos Movimentos Populares (CMP), tem uma vida inteira dedicada à luta social. Segundo ele, “a resposta precisa começar de baixo pra cima e não de cima para baixo, somente assim o pobre, o trabalhador, o negro, o indígena, o camponês vão ter espaço de representação”.

Já a avó-coragem, Zonália Santos, 48 anos, assentada da reforma agrária em Rondônia, não hesitou em deixar a rotina junto dos filhos e netos para agregar a força e a garra da mulher sem-terra na greve de fome. “Nós não estamos aqui nos manifestando apenas pelo direito do presidente Lula em ter um julgamento justo, nós estamos manifestando nossa contrariedade com a volta da fome, da miséria da exploração”.

O pernambucano Jaime Amorim, 58 anos, dirigente do MST e da Via Campesina, diz que o ato reafirma sua opção política e coloca em destaque denúncias que têm sido ignoradas pelo Poder Judiciário, que tem se mostrado subserviente ao grande capital.

“Passar fome nesta greve é uma opção militante, colocamos nossas vidas aqui para que se possa evitar que milhões de brasileiros e brasileiras passem fome por não ter comida na mesa, passem fome por não ter opção”, afirmou.

Também militante do MST, Vilmar Pacífico, 60 anos, veio do Paraná, falou sobre a indignação de um povo que enfrenta diariamente a pressão e a agressão por parte das forças do estado. “A justiça deveria servir ao povo, deveria ser o lugar onde pudéssemos nos socorrer, mas a verdade que temos observado a cada dia é que ela também está se prestando ao serviço do capital e virando as costas para aqueles a quem deveria cuidar”.

Já Leonardo Soares, 22 anos, do Levante Popular da Juventude, que aderiu à luta em 6 de agosto, diz que “essa greve de fome tem a função de fomentar a participação e a organização do povo”. Segundo ele, a luta que os ativistas empreendem é por uma causa justa, que aglutina o povo e propõe a organização como ferramenta principal na disputa que se configura no atual processo.

*Com informações da Comunicação da Greve de Fome e TVT.