Amir Khair: não tem maior inimigo da...
Para engenheiro e consultor na área pública, BC está prestando um desserviço ao país
Publicado: 10 Setembro, 2013 - 16h52
Escrito por: Valdo Albuquerque
Em entrevista à Federação Nacional dos Engenheiros, Amir Khair, engenheiro e consultor na área pública, afirmou que no momento o Banco Central está prestando um desserviço ao país. “Não tem maior inimigo da economia do que o Banco Central”, criticou. “O Banco Central serve ao interesse do mercado financeiro, é o que pratica as mais elevadas taxas de juros ao longo da história no mundo, e esse ônus é pago pela população como um todo com o dinheiro dos impostos que oneram principalmente as classes de menor renda”, acrescentou Khair. Para ele o BC está na contramão do mundo. “O Banco Central opera aumentando taxas Selic quando o mundo inteiro está baixando desde setembro do ano passado”, denunciou. “Ele [BC] tem o diagnóstico de que inflação se combate assim, mas a Selic cria uma distorção na questão do câmbio, que é a forma como influi na inflação, tornando o real uma moeda supervalorizada em relação ao passado do Brasil e a outras moedas em comparações históricas”, explica.
Khair afirmou que “houve uma redução da Selic ao longo do tempo, então o comprometimento das finanças com juros no passado era maior ainda, a média histórica dos últimos 20 anos é da ordem de 7 a 8% do PIB”. “Este ano deve bater em 5%, ano passado foi um dos valores mais baixos da série, 4,8%”, prosseguiu. Em termos de valor, só considerando o governo federal, a média do primeiro semestre deste ano está em R$ 16 bilhões por mês de juros, é um montante extremamente elevado se você levar em consideração que houve um aumento de 60% no programa Bolsa Família e este ano se prevê gastar R$ 23 bilhões. Portanto, em menos de dois meses gasta-se com juros um Bolsa Família”, alertou Khair.
“O Brasil é recordista mundial [em juros], o que faz com que a produção e a riqueza sejam deslocadas em doses maciças para o mercado financeiro. Enquanto não houver uma política dura em relação ao mercado financeiro fazendo com que ele pratique taxas de juros em nível internacional, o Brasil não vai conseguir retirar o freio da economia”, apontou o economista. “A média internacional dos países emergentes para pessoa física é de 10% ao ano, para os países desenvolvidos é de 3% ao ano”. Khair chamou a atenção para o fato do Brasil estar tirando da produção para alimentar a especulação financeira. “O Brasil tem uma carga tributária de 35% do PIB e 5% são usados para pagar juros, ou seja, a carga líquida é da ordem de 30%. É um nível muito satisfatório, é perfeitamente possível fazer muito mais coisas, agora, isso pressupõe um Estado comprometido politicamente com a sociedade, e não com o mercado”, avaliou.
Na opinião do economista, “o cenário externo não é, nem será favorável para os próximos anos. O Brasil vai ter que se apoiar fundamentalmente na economia doméstica e deve se preparar para ganhar uma posição mais competitiva internacionalmente, não dependendo exclusivamente da exportação da agricultura ou da pecuária e de algumas commodities que têm penetração internacional”. “O problema é que estamos com um rombo nas contas externas muito forte”, destacou. “Nos últimos doze meses encerrados em junho, que era o último dado disponível, estava em US$ 72,5 bilhões, que correspondem a 3,2% do PIB [Produto Interno Bruto], já um recorde histórico, e é possível que neste ano bata em US$ 80 bilhões. É uma situação bastante ruim, fragilizando os fundamentos macroeconômicos do País”, acrescentou.
Ele fez algumas sugestões para o enfrentamento da situação. “Primeira providencia é baixar a Selic para 5% ao ano, que é o que praticam os países emergentes”, propôs. “Com isso, faz-se com que o custo de carregamento das reservas internacionais diminua sobremaneira. A redução das taxas de juros ao tomador é outra medida extremamente importante, para isso há instrumentos, além de continuar botando o Banco do Brasil e a Caixa para competir nesse mercado com os grandes bancos privados”. “Ao jogar a Selic para baixo, reduzindo os lucros, você força os bancos privados a ganharem com o crédito, que é a função deles, financiar o desenvolvimento do País”.
“A terceira questão seria fazer a maxidesvalorização cambial. E ainda desonerar mais o consumo popular, por exemplo, em vez de desonerar o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] das empresas, desonerar o das pessoas, dos trabalhadores. A diferença é fulminante, isso repercute em ganho do poder aquisitivo. Também deveria atacar duramente a questão social, reduzindo custos por exemplo do transporte coletivo, a intermediação de alimentos, investindo maciçamente em saúde e continuar com bons programas, como o de habitação, só que com cuidado na questão do desarranjo na política urbana. São algumas medidas pontuais necessárias para o equilíbrio das contas públicas e externas”, completou.