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Ameaças de bolsonaristas preocupam jornalistas na mesma medida da Covid-19

Ataques a jornalistas se intensificaram na mesma proporção da propagação do vírus com xingamentos, ameaças e agressões físicas

Publicado: 27 Maio, 2020 - 09h43 | Última modificação: 27 Maio, 2020 - 11h28

Escrito por: CUT-DF

MYKE SENA/ESPECIAL PARA O METROPOLES
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Trabalhadores de todas as categorias vêm ampliando a organização para preservar as vidas frente à pandemia do novo coronavírus, que até o final dessa segunda-feira 25 somou mais de 24 mil mortos no Brasil, 104 no Distrito Federal. Na corrida para preservar a vida, jornalistas vêm se mobilizando não só contra os riscos da Covid-19, mas também contra as ameaças de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

Os ataques a jornalistas se intensificaram na mesma proporção da propagação do vírus. Xingamentos, ameaças e agressões físicas passaram a fazer parte do dia-a-dia da categoria, impedindo o livre exercício da profissão e, na ponta, impactando negativamente na democracia. Os ataques se tornaram tão intensos que nessa segunda, o jornal Folha de S. Paulo e o Grupo Globo decidiram suspender a cobertura jornalística na porta do Palácio do Alvorada temporariamente até seja garantida a segurança dos profissionais de imprensa.

Desde os primeiros casos de agressão registrados, o Sindicato dos Jornalistas do DF vem cobrando dos diversos órgãos do governo e das empresas a segurança da categoria. No último dia 14 de maio, o Sindicato publicou nota afirmando que oficiou o Gabinete de Segurança Institucional, a Secretaria de Governo e a Secretaria Especial de Comunicação Social, exigindo medidas como instalação de câmeras de segurança na entrada em todos os locais de circulação e trânsito de pessoas; entrada diferenciada para apoiadores e jornalistas; e unificação dos sistemas de cadastro de profissionais de imprensa credenciados.

Segundo a coordenadora-geral do Sindicato dos Jornalistas do DF Juliana Cézar Nunes, a segurança dos jornalistas vem sendo uma das principais preocupações da entidade sindical, principalmente devido à postura do governo federal, que infla as manifestações agressivas de seus apoiadores. “O que infelizmente ocorre é que boa parte desses manifestantes age de acordo com as ações do próprio presidente Bolsonaro, e aumentam o tom de agressões aos jornalistas à medida que ele (Bolsonaro) também aumenta”, comenta.

Falas grotescas como “cala a boca”, “pergunte para sua mãe”, bem como menções machistas e misóginas são pronunciadas sem qualquer pudor por Bolsonaro contra jornalistas. Levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) aponta que, de janeiro a abril deste ano, foram registrados 141 episódios em que o presidente da República se pronunciou contra o Jornalismo.

Nessa segunda 25, o Sindicato dos Jornalistas do DF publicou nova nota de repúdio aos ataques de apoiadores de Bolsonaro contra jornalistas ocorridos no Palácio da Alvorada e na Esplanada dos Ministérios, quando apoiadores de Bolsonaro, sem máscara, se aproximaram das equipes de reportagem com gritos e xingamentos. “Renovamos nosso apelo para que o Governo do Distrito Federal atue no sentido de combater aglomerações e punir com multa as pessoas que transitam sem o uso de máscara, conforme lei em vigor. Também solicitamos providências por parte do Ministério Público”, diz trecho da nota.

Mais trabalho, menos salário

Além da luta para defender a própria vida, jornalistas ainda enfrentam ataques aos direitos trabalhistas. Com a edição da medida provisória 936 do Executivo federal, que permite uma série de quebras de direitos trabalhistas durante a pandemia, redução de salário, suspensão de contrato e sobrecarga na jornada de trabalho são constantes.

Segundo levantamento do Sindicato dos Jornalistas, 228 jornalistas de 15 veículos de comunicação da imprensa tradicional tiveram seu salário reduzido em 25%, e pelo menos nove trabalhadores foram demitidos. “A MP 936 trouxe prejuízos imensos para a categoria. Nós entendemos que a MP não deveria afetar trabalhadores das atividades essenciais, além de ter sido um grande equívoco o STF autorizar os acordos individuais sem a intermediação dos sindicatos. Em alguns casos conseguimos fazer negociações, mas sem dúvida poderíamos ter negociado melhores termos para os colegas se a participação do sindicato estivesse prevista na MP”, afirma a coordenadora-geral do Sindicato do Jornalistas do DF Juliana Cézar Nunes.

Segundo ela, a MP 936 “se revela a tentativa de desmonte e enfraquecimento do papel do sindicato em defesa dos trabalhadores”.

A dirigente sindical ainda afirma que grande parte da categoria está em sistema de home office, ou seja, trabalhando de casa. Entretanto, embora estejam mais protegidos contra a Covid-19, são atacados com jornadas de trabalho extenuantes. “(Jornalistas) Estão em casa, mas sem receber pelos custos adicionais e tendo que usar seus próprios materiais, além da sobrecarga de trabalho. A gente sabe que essa jornada não é respeitada e, infelizmente, colegas, inclusive mulheres lactantes, são assediadas e obrigadas a cumprir uma jornada muito maior do que no trabalho presencial”, denuncia.

Casos de Covid-19 na categoria

Até agora, o Sindicato dos Jornalistas do DF registra três trabalhadores com Covid-19 na categoria. Entretanto, a entidade sindical acredita que haja subnotificação dos casos.

Desde o início da pandemia, o Sindicato procurou a Secretaria de Saúde para que jornalistas e radialistas que estão trabalhando presencialmente possam se vacinar prioritariamente contra a H1N1, além de estarem no grupo dos que farão teste da Covid-19. A expectativa é de que o teste seja liberado para pelo menos 3 mil jornalistas.

Privatização da EBC

De forma oportunista, o governo Bolsonaro aproveita a pandemia do novo coronavírus para investir pesado na privatização da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Em decreto publicado no último dia 21, o governo federal qualificou a EBC no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). Segundo o texto, “o prazo para conclusão dos trabalhos do Comitê Interministerial será de cento e oitenta dias, contado da data de contratação dos estudos”.

“A qualificação, portanto, da EBC no PPI do governo federal, significa um desrespeito à Constituição, um ataque ao direito à informação da sociedade brasileira e uma redução da transparência do Poder Executivo. Conclamamos a sociedade a lutar conosco para reverter esta medida”, afirma trecho de nota da Frente em Defesa da EBC e da Comunicação Pública, que reúne dezenas de entidades da sociedade civil e entidades representativas dos trabalhadores da empresa. (http://www.cutbrasilia.org.br/site/2020/05/22/frente-repudia-investidas-do-governo-federal-para-privatizar-ebc/)

Série Covid-19: Trabalhadores no centro do debate

A CUT-DF iniciou na segunda-feira 25 a série Covid-19: Trabalhadores no centro do debate. Abordaremos as consequências da pandemia do novo coronavírus nas diversas categorias de trabalhadores do Distrito Federal, que vêm se deparando não só com a crise sanitária, mas também com o descaso de governos e patrões, que acentuam o ataque aos direitos trabalhistas.

Ao mesmo tempo, mostraremos a atuação dos sindicatos de trabalhadores, que não pararam em nenhum momento desde a chegada do vírus, reinventando suas formas de atuação para assegurar os direitos trabalhistas, bem como a dignidade e a vida dos trabalhadores.