Altamiro Borges: Grileiro da Cutrale e...
Publicado: 04 Fevereiro, 2010 - 10h45
Preparandoo clima para o início das investigações da Comissão Parlamentar Mista deInquérito (CPMI) do MST, que será um dos principais palanques da oposiçãodemo-tucana em 2010, a TV Globo voltou à carga com as fortes cenas dadestruição dos pés de laranja da empresa Cutrale, no interior paulista, emsetembro passado. Com base num outro vídeo bastante suspeito da Policia Civilde São Paulo, nove ativistas dos sem-terra foram presos na semana passada,inclusive três dirigentes petistas, acusados de participarem de “furtos, depredaçõese atos de vandalismo”.
O bombardeio midiático é violento. Quando dadestruição dos laranjais, até Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro nosgovernos Sarney e FHC, estranhou a virulência dos ataques. “Não vou defender oMST pela ação, embora esteja claro para mim que ele é uma das únicasorganizações a, de fato, defender os pobres no Brasil. Mas não vou tambémcondená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras emnovos cordeiros imolados pela ‘fúria de militantes irracionais’”. Indignado coma cobertura da mídia, ele criticou duramente “o noticiário televisivo queomitiu que a fazenda [da Cutrale] é fruto de grilagem contestada peloIncra”.
Respostas do MST sãoofuscadas
Agora, com a prisão espalhafatosa earbitrária das lideranças rurais, a mídia hegemônica volta à ofensiva. Acrítica é implacável, apesar do próprio MST já ter reconhecido publicamente oequívoco daquela iniciativa. Numa entrevista à revista CartaCapital, no finaldo ano passado, João Pedro Stedile, da coordenação nacional do movimento, foitaxativo. “A destruição dos pés de laranja foi um erro. Deu margem para que oserviço de inteligência da PM, articulado com a TV Globo, desmoralizasse oMST”. Para ele, o equívoco decorreu do desespero das famílias de sem-terraacampadas na região, que vivem em condições desumanas e sem qualquerinfra-estrutura.
Já com relação às imagens de depredação efurtos na fazenda, usadas para justificar a prisão das lideranças, o dirigentedo MST rejeitou as acusações da polícia. “Isto é mentira. As famílias nãofizeram nada daquilo. Foi uma armação entre a polícia e a Cutrale. Depois dasaída das famílias, chamaram a imprensa. Desafiamos a organizarem uma comissãoindependente para investigar quem desmontou os tratores e entrou nas casas dosempregados”. Ele lembra que os sem-terra foram retirados à força do local emdois caminhões da Cutrale, sendo filmados e revistados.
Revista Veja arquivareportagem
Em todo este estranho episódio, a mídia venalrevela que tem lado nos conflitos de classe – que defende abertamente osinteresses dos barões do agronegócio. Com as cenas exibidas à exaustão parajogar a sociedade contra o MST, as redes “privadas” de televisão e os jornalõesoligárquicos demonizam os sem-terra e endeusam a poderosa Cutrale. Nesteesforço, eles deixam, inclusive, de repercutir denúncias antigas contra aempresa. Em maio de 2003, por razões desconhecidas – talvez em mais uma açãomercenária –, a insuspeita revista Vejapublicou elucidativa reportagem sobre a Cutrale. Agora, ela simplesmentearquivou a bombástica matéria.
Na ocasião, ela revelou que a empresa é umadas mais ricas e poderosas do mundo. “O brasileiro José Luís Cutrale e suafamília detêm 30% do mercado global de suco de laranja, quase a mesmaparticipação da Opep no negócio de petróleo”. A produção mundial de laranjas ede derivados se reduzia a duas regiões do planeta – no interior de São Paulo ena Flórida, nos EUA. “A Cutrale vende suco concentrado para mais de vintepaíses, entre os quais os Estados Unidos, todos os da Europa e a China. Seusclientes são grandes companhias do padrão da Parmalat, da Nestlé e da CocaCola, dona de uma das mais de suco de laranja mais populares dos EstadosUnidos”.
“A agressividadegerencial da Cutrale”
Segundo a revista, este poderoso império foierguido de forma suspeita. “O principal segredo do negócio consiste em adquirira fruta a preço baixo – preço de banana, brincam os fornecedores –, esmagá-lopelo menor custo possível e vender o suco a um valor elevado”. Em 2001, o governoFHC chegou a investigar a altíssima lucratividade da Cutrale (nos anos 1980,ela teve taxas de retorno na ordem de 70%, um fenômeno raro). “Uma autoridadeda Receita Federal relatou a Vejaque a estratégica para elevar a lucratividade do grupo passa por contabilizarparte dos resultados por intermédio de uma empresa sediada no paraíso fiscaldas Ilhas Cayman. Com isso, informa a autoridade da Receita, a Cutraleconseguiria pagar menos impostos no Brasil”.
A revista também criticava a “agressividadegerencial da família Cutrale”, que já virou “lenda no interior paulista. Osplantadores de laranja no Brasil têm poucas opções para escoar a produção. Háapenas cinco grandes compradores da fruta e Cutrale é o maior deles. Por essarazão, acabam mantendo com o rei da laranja uma relação que mistura temor edependência. Por um lado, eles precisam que ele compre a produção. Por outro,assustam-se com alguns métodos adotados pela Cutrale para convencê-los anegociar as laranjas por um preço mais baixo”. Vários produtores relataram àrevista a brutal pressão para baixar preços ou mesmo para adquirir suasfazendas, inclusive com sobrevôos ameaçadores de helicóptero e outros métodosterroristas.
Uma coleção deprocessos na Justiça
Um fato gravíssimo ocultado pela mídia nosdias atuais de ódio ao MST é que Cutrale coleciona processos na Justiça pordesrespeito aos direitos trabalhistas, crimes ambientais, pressão contra oslavradores e porte ilegal de armas. Na reportagem de maio de 2003, a revistacitava que “essa linha dura já rendeu à Cutrale discussões legais sobreformação de cartel. De 1994 para cá, ela já foi alvo de cinco processos noConselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), autarquia encarregada depreservar a concorrência… Jamais sofreu uma punição”.
A revista Vejae o grosso da mídia hegemônica simplesmente esqueceram estas irregularidades.Para satanizar o MST, a imprensa endeusa a Cutrale. Os sem-terra são osbandidos e o poderoso empresário, um santo. As emissoras “privadas” detelevisão e os jornalões sequer explicam aos ingênuos que as terras no interiorpaulista não pertencem legalmente à empresa. Elas fazem parte do lote chamadoNúcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares pertencentes à União. Ouseja, elas foram griladas – roubadas – pela Cutrale. Em 2007, a Justiça Federalcedeu a totalidade do imóvel ao Incra. Mas a empresa permanece na área com baseem ações judiciais protelatórias.
A mídia faz escândalo com a destruição dedois hectares de laranjas em setembro, numa área que seria usada no plantio dealimentos para os acampados, mas não informa que desde que a Cutrale começou amonopolizar o produto, milhares de pequenos e médios agricultores jáabandonaram, de 1999 a 2006, cerca de 280 mil hectares de pés de laranja em SãoPaulo. “Mas a TV Globo e o helicóptero da PM nunca se importaram”, ironizaStedile. Diante da riquíssima família Cutrale, que tem uma fortuna avaliada emUS$ 5 bilhões, os colunistas da mídia são realmente laranjas!