Acidentes em silos de armazenagem matam mais de seis trabalhadores por mês no Brasil
Foram 394 mortes registradas entre 2021 e 2015; soterramento e quedas respondem por mais da metade dos casos
Publicado: 17 Março, 2026 - 10h46 | Última modificação: 17 Março, 2026 - 10h51
Escrito por: Luís Indriunas - Brasil de Fato
Soterradas por toneladas de grãos, asfixiadas por gases, queimadas por explosões ou engalfinhados por pás de moagem. Entre 2021 e 2025, pelo menos 394 pessoas morreram enquanto trabalhavam nas áreas dos silos de armazenagem de produtos. Ou seja, em média, houve 1,5 morte por semana nesse tipo de acidente, segundo levantamento exclusivo do Ministério do Trabalho que o Brasil de Fato teve acesso.
A principal causa da morte, com 39,4% dos casos, é o soterramento, quando o trabalhador morre afogado pelas toneladas de grãos sobre ele. O segundo lugar, com 18,7%, é das mortes por queda.
Essas duas causas têm, na maioria das vezes, origens semelhantes: acontecem quando o trabalhador vai limpar ou fazer a quebra manual de torrões de grãos empedrados no interior do silo, para facilitar o escoamento do material.
O levantamento aponta também um índice de 1,15 morte por acidentes, o que significa que há mais mortes do que acidentes. Foram 394 contra 344 eventos em cinco anos. Alguns desses casos são de trabalhadores que tentam ajudar outro trabalhador a se salvar dos engolfamentos ou das quedas, mas acaba morrendo junto. As explosões são também uma causa na qual as mortes coletivas acontecem, como o caso de uma cooperativa em Palotina (PR), em 2023, quando dez trabalhadores morreram.
Os silos de armazenagem são equipamentos comuns principalmente no agronegócio para armazenar grãos como soja, milho e feijão, além de serragens e outros materiais a granel, deixando os produtos distantes de intempéries climáticas e mantendo a temperatura e o controle da umidade. Um silo de grão pode conter de 35 a 70 mil toneladas de produtos e sua altura pode chegar a até 30 metros de altura. Silos também são usados pela mineração e outras indústrias como a madeireira e a de cimento.
Trabalhadores terceirizados
Um estudo anterior feito entre 2020 e 2022 registrou vítimas de diversas idades de 6 a 64 anos. No entanto, a grande maioria, 74% tinham entre 21 e 50 anos. Foi constatada também uma grande presença de terceirizados nessas funções de alto risco, principalmente após a reforma trabalhista do governo Michel Temer, que afrouxou direitos, como aponta o chefe de Planejamento, Controle e Avaliação da Seção de Fiscalização do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho no Rio Grande do Sul (SRTE/RS), Rudy Allan Silva da Silva, responsável pelas duas pesquisas.
Outra característica é que são trabalhos temporários, onde a presença de migrantes é grande. Como o caso de Dionelson de Almeida Bia, de 32 anos, natural de Chapadinha, no Maranhão, que morreu, em outubro de 2025, junto com outro companheiro, em um silo de soja, em Água Boa, no Mato Grosso. Ele estava cerca de 1.900 quilômetros distante da sua cidade natal. Ou como oito dos dez homens mortos na explosão em Palotina, no Paraná, em 2023, que eram haitianos.
A grande maioria dos registros são de homens, mas mulheres também podem ser vítimas. É o caso de Genseli Cristina Alves do Paraíso, de 27 anos, que morreu após 12 dias internada, por causa da explosão de um silo de uma cooperativa agrícola, em Cândido Mota (SP), em fevereiro de 2025.
A metodologia usada pelo auditor para fazer levantamento dos números foi baseada na Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), documento obrigatório para registrar acidentes ou doenças ocupacionais à previdência social. No entanto, foi preciso fazer uma filtragem para chegar aos silos e seu entorno especificamente, já que a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) do Ministério do Trabalho, o termo usado é “armazenamento”, que engloba outras atividades. O mesmo acontece sobre a ocupação, as pesquisas contam com a função “operador de silo”.
Se essa questão pode apontar a subnotificação, outra prática comum também amplia esse problema. Muitas vezes, o empregador deixa de comunicar a morte quando ela acontece após o acidente.
Sul e Centro-Oeste com mais da metade das mortes
As regiões Sul e Centro-Oeste juntas respondem por 67,77% do total de óbitos em silos da pesquisa. O Sul somando 152 vítimas (38,58%) e o Centro-Oeste, 115 vítimas (29,19%).
Os três estados líderes concentram 46,4% de todas as fatalidades do país. São eles: Mato Grosso (MT), 16,75%; Paraná (PR), 16,24%. e Rio Grande do Sul, 13,45%.
Os números de mortes acompanham a divisão do número de silos no país. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no primeiro semestre de 2025, o Brasil tinha 9.624 silos de armazenagem, sendo 43,53% na região Sul e 32,55% no Centro-Oeste e 12,76% na Sudeste.
Algumas características gerais da região também indicam os tipos de acidentes. No Centro-Oeste, fazendas e agroindústrias são o palco de principal de engolfamentos e desobstruções, principalmente no Mato Grosso e Goiás. O Mato Grosso do Sul apresenta grande índice de intoxicação, característica comum ao Paraná.
No Rio Grande do Sul, há uma elevada taxa de acidentes por quedas de altura e colapsos estruturais, entre outras razões, pela infraestrutura mais antiga.
Maioria das mortes podem ser evitadas
O trabalho em toda a área dos silos é considerado um trabalho de confinamento, o que faz com seja classificado na legislação de alto risco. Para Silva da Silva, as normas atuais já possibilitam segurança básica necessária para a atividade. Ele avalia que acima de 90% dos acidentes analisados poderiam ser evitados se as empresas acompanhassem as normas. “A legislação é forte. Há leis muito sólidas”, avalia o responsável pela pesquisa.
A ministra Kátia Arruda, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) que também acompanha a questão, a conscientização das partes é o caminho. “A partir de uma conscientização, empresas e trabalhadores poderão encontrar normas mais adequadas em termos de saúde e segurança, porque não é possível que a pessoa saia de casa e viva uma situação tão grave como essa”, afirma .
O trabalho confinado onde a estrutura não é feita para humanos, no entanto, os humanos precisam ir para essas estruturas, muitas vezes com limitação de entrada e de saída e com atmosfera perigosa. Por isso, como alerta Arruda, esse tipo de procedimento deve ser feito em equipe: além do trabalhador que vai atuar, é preciso ter um supervisor e um vigia, profissional com conhecimento do procedimento.
Para Silva da Silva, é possível também diminuir as mortes e acidente com a prevenção através de projetos e os controles de engenharia. “É pensar racionalmente muito, muito antes do senso comum que é fornecer EPI [Equipamento de Proteção Individual] e pronto”, afirma.
O auditor destaca que há tecnologia para descaracterizar o ambiente como espaço confinado, mudando a dinâmica de entrada e saída, a compartimentação, as estruturas de ventilação e exaustão, além de instalar equipamentos de alívio de explosão. Para tal, é preciso investimento e realinhamento dos fabricantes.
“Uma coisa é responder para um produto que dá qualidade ao grão, o que pode ser mais barato do que um produto que privilegia o trabalho humano dentro daquela estrutura”, detalha.
Apesar das carências e dificuldades, a ministra do TST vê que empresas têm se conscientizando e trabalhado na prevenção.
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), por exemplo, inclui as questões dos silos no Programa Soja Legal, que reforça a importância do cumprimento da legislação trabalhista e da promoção de ambientes de trabalho seguros.
Após 10 mortos por explosão, empresa fecha acordo com o MP
Em 26 de julho de 2023, aconteceu uma série de explosões sequenciais em um silo de secagem de grãos da C.Vale Cooperativa Agroindustrial, em Palotina, no Paraná, que provocou a morte de 10 trabalhadores, sendo oito haitianos. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o espaço armazenava mais de 10 mil toneladas de milho.
Na ocasião, moradores da região sentiram o tremor causado pelas explosões. Vidros das residências próximos chegaram a quebrar.
Em julho de 2025, o Ministério Público do Trabalho no Paraná (MPT-PR) firmou um acordo judicial com a empresa para readequação de questões de segurança. Alguns meses após as explosões, um relatório do MPT apontou acúmulo de poeira, gerado pela movimentação de grãos nos silos, que provocou a atmosfera explosiva.
O acordo prevê que a C.Vale adote um programa de gerenciamento de riscos, com foco na prevenção de acidentes e na melhoria contínua das condições de segurança em todas as suas 10 unidades num prazo de 10 anos.
Entre as obrigações assumidas, destacam-se a implementação de melhorias físicas nas instalações e a elaboração de planos de ação voltados à prevenção de explosões em ambientes confinados.