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A Cinemateca queima, enquanto o secretário da Cultura está em Roma

Governo federal foi criticado por descaso com a cultura. Secretário disse que a PF vai apurar se houve crime

Publicado: 30 Julho, 2021 - 09h06

Escrito por: Redação RBA

Reprodução
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O rescaldo do que se perdeu na noite de ontem (29) no incêndio que atingiu um galpão da Cinemateca Brasileira ainda está para ser feito, mas observadores apontam danos significativos e lamentam mais esse golpe contra a cultura. Nas redes, o clima alternava desolação, pedidos de apuração sobre as circunstância do acidente no galpão da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, e críticas ao governo federal, responsável pela manutenção da Cinemateca. Funcionários já haviam feito alertas públicos sobre os riscos.

Em entrevista ao canal GloboNews, Francisco Campera, diretor da Fundação Roquette Pinto, ex-gestora da Cinemateca, diz que perderam-se 4 toneladas de documentação da história do cinema nacional. “Toda a documentação do Instituto Nacional de Cinema, da década de 60, até hoje da Secretaria Especial de Cultura, passando pela Embrafilme e pela Concine. Há também cópias de filmes, mas que já estavam em estado pior de conservação.”

Tragédia anunciada

A fundação cuidava da Cinemateca até agosto do ano passado, quando a instituição voltou a ficar sob responsabilidade do governo. Campera afirmou que, na ocasião, ele prestou depoimento ao Ministério Público Federal para afirmar que não se tratava de “risco” de incêndio, mas de “tragédia anunciada”, expressão várias vezes repetida ontem.

Na semana passada, em audiência, o MPF voltou a falar em risco de incêndio nas instalações da Cinemateca, incluindo a sede, no bairro de Vila Clementino, na zona sul da capital. A ação por abandono foi suspensa por 60 dias, com novo prazo para que a União efetivasse melhorias no patrimônio. A entidade se originou em 1940. Apenas de cinema e audiovisual, são aproximadamente 40 mil títulos – curtas, médias ou longas-metragens. O acervo tem quase 250 mil rolos de filmes.

PF vai investigar

Ainda ontem, a Secretaria Especial da Cultura divulgou nota na qual afirmou que “lamenta profundamente e acompanha de perto” o episódio. Segundo o órgão, há aproximadamente um mês “todo o sistema de climatização do espaço passou por manutenção”, o que seria “parte do esforço do governo federal para manter o acervo da instituição”. A secretaria informou ainda que pediu apoio da Polícia Federal na investigação das causas da tragédia. O titular da pasta, Mário Frias, está em Roma, para reunião dos ministros da Cultura do G20. No Twitter, ele afirmou que a PF fará perícia “para descobrirmos se foi um incêndio criminoso ou não”.

“O colapso do CNPq e o incêndio da Cinemateca são consequências do abandono criminoso do governo Bolsonaro pela ciência e pela cultura”, afirmou em rede social o cientista político Christian Lynch. “No caso específico da Cinemateca, é como se ele pessoalmente tivesse ido até lá para atear o fogo.”

Crime com a cultura

Para o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ), o incêndio “não é tragédia anunciada, é projeto de governo”. Em outro campo político, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), também atacou. “O incêndio na Cinemateca de São Paulo é um crime com a cultura do país. Desprezo pela arte e pela memória do Brasil dá nisso: a morte gradual da cultura nacional”, afirmou.

“Que tragédia!”, exclamou a cantora Daniela Mercury nas redes sobre o incêndio na Cinemateca. “Denunciamos várias vezes a situação de abandono em que se encontrava a cinemateca. O governo federal não cuidou e olhe o que está acontecendo. A perda desse acervo é um crime contra a cultura brasileira”, declarou a artista.

Manutenção de equipamento

De acordo com a capitã dos Bombeiros Karina Paula Moreira, o fogo teria começado durante manutenção do ar-condicionado por uma empresa terceirizada. “O incêndio começou em uma das salas de acervo histórico de filmes que fica no primeiro andar”, afirmou à GloboNews. “Essa parte é dividida entre três salas, uma delas com acervo de filmes entre 1920 e 1940 e uma das salas de arquivo impresso, também histórico. Estamos levando o que foi queimado e preservado dentro dessas três salas – provavelmente nada. Porém, no andar térreo, tem uma parte grande do acervo histórico que não foi atingida.”

Dezessete viaturas, com aproximadamente 70 bombeiros, foram enviadas ao local. O chamado foi feito por volta das 18h, e duas horas depois o incêndio estava praticamente controlado. Não houve perdas humanas. Mas a cultura brasileira se perdeu mais um pouco.