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40 anos de lutas: da CUT às Américas, a articulação da luta por igualdade

Presença no CMTA/CSA, no CNDM e no Brasil que Cuida amplia a participação das trabalhadoras na construção de políticas nacionais e continentais

Publicado: 26 Agosto, 2026 - 10h12 | Última modificação: 26 Agosto, 2026 - 10h16

Escrito por: André Accarini

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“Não podemos mais ficar falando dos nossos problemas só para nós mesmas. Precisamos ampliar o debate.” A afirmação da secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, ajuda a explicar uma nova etapa da organização iniciada pelas mulheres da Central há 40 anos.

Desde a criação da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, em 1986, elas conquistaram cotas, paridade e uma secretaria nacional. Também levaram para a CUT pautas como igualdade salarial, creches, cuidado, direitos reprodutivos e combate à violência.

Hoje, essa atuação também está presente em espaços nacionais e internacionais.

Amanda Corcino preside o Comitê de Mulheres Trabalhadoras das Américas, o CMTA, da Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas, a CSA. Também representa a CUT no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, o CNDM, e integra o Comitê Gestor do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida.

A presença nesses espaços não representa uma trajetória individual. É resultado da organização de mulheres dos sindicatos, ramos, federações, confederações e CUTs estaduais.

Da CUT para as Américas

Em maio de 2025, Amanda foi eleita presidenta do CMTA durante o 5º Congresso da CSA, realizado na República Dominicana. Foi a primeira vez que uma dirigente da CUT assumiu a presidência do comitê.

O CMTA reúne sindicalistas de diferentes países e contribui para incorporar a igualdade de gênero às políticas da CSA. Entre suas pautas estão igualdade salarial, combate ao assédio e à violência, ratificação da Convenção 190 da OIT e maior participação das mulheres nos espaços de poder.

“É uma tarefa importante, porque os desafios das mulheres trabalhadoras são os mesmos em toda a região”, afirmou Amanda após a eleição para a presidência do CMTA.

Embora cada país tenha sua realidade, muitos dos problemas enfrentados são comuns às regiões . As mulheres recebem salários menores, estão mais presentes nos trabalhos precários e assumem a maior parte do cuidado familiar. Também enfrentam assédio, violência e dificuldades para chegar às direções sindicais e aos espaços políticos.

A presidência do CMTA permite que a CUT compartilhe experiências como a paridade, o protocolo contra discriminação e assédio e a campanha permanente de combate ao feminicídio. Também abre espaço para a construção de ações conjuntas entre as trabalhadoras das Américas.

Participação nas políticas nacionais

No Brasil, Amanda está represntante da CUT no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher durante o período de 2024 a 2027. O CNDM participa da formulação de políticas para as mulheres, acompanha ações do poder público e promove o diálogo com as organizações da sociedade civil.

"A nossa presença, a presença da CUT, do movimento sindical nesse espaço ajuda a fazer a realção do mundo do trabalho com outras áreas da vida das mulheres. A falta de creches, por exemplo, dificulta o acesso ao emprego. A violência compromete a saúde, a renda e a autonomia. A ausência de proteção social atinge principalmente as trabalhadoras informais", explica a dirigente..

No Conselho, ela prossegue, a CUT pode "apresentar essas demandas e acompanhar políticas sobre igualdade salarial, cuidado, redução da jornada, combate à violência e direitos sexuais e reprodutivos. E é a a continuidade da luta iniciada pelas nossas mulheres, nos sindicatos, ainda nos anos 1980, que mostraram que creche também era uma reivindicação trabalhista", 

Da campanha por creche ao Brasil que Cuida

Amanda também integra, como representante titular da CUT, o Comitê Gestor do Plano Nacional de Cuidados. O secretário nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos da Central, Ari Aloraldo do Nascimento, é suplente.

A Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas, a Fenatrad, também participa dessa estrutura.

O Comitê Gestor acompanha a execução do Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida. A presença sindical permite cobrar que as ações saiam do papel e considerem as necessidades de quem cuida e de quem precisa ser cuidado.

O Brasil que Cuida reúne 79 iniciativas em cinco áreas, com previsão de R$ 25 bilhões em investimentos até 2027.

Entre as ações estão a ampliação de creches e escolas em período integral, a criação de cuidotecas e lavanderias públicas e a formação profissional de trabalhadoras do cuidado. Também estão previstas medidas para pessoas idosas, pessoas com deficiência, famílias com responsabilidades de cuidado e trabalhadores e trabalhadoras do setor.

Para as mulheres da CUT, essa discussão começou muito antes da criação do plano. A campanha “Creche para todos”, lançada no fim dos anos 1980, já denunciava que a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado limitava o emprego, a renda e a participação sindical das mulheres.

Hoje, a CUT integra o Comitê Gestor responsável por acompanhar a execução do Plano Nacional de Cuidados. Nesse espaço, a Central defende a ampliação dos serviços públicos, a valorização das trabalhadoras domésticas e cuidadoras e uma divisão mais justa do cuidado entre Estado, famílias, empresas, mulheres e homens.

Uma representação coletiva

A presença da CUT no CMTA, no CNDM e no Brasil que Cuida dá continuidade ao trabalho de muitas mulheres. Dídice Godinho Delgado coordenou a primeira comissão nacional. Depois dela, Sandra Rodrigues Cabral, Luci Paulino de Aguiar, Maria Ednalva Bezerra de Lima, Rosane da Silva e Junéia Martins Batista conduziram essa política em diferentes períodos.

Amanda Corcino representa hoje uma construção feita por trabalhadoras rurais, urbanas, domésticas, servidoras públicas, professoras, bancárias, comerciárias, metalúrgicas e mulheres das águas e das florestas. São elas que levam suas experiências para o movimento sindical e ajudam a transformá-las em propostas. 

Quarenta anos depois, a luta permanece nos sindicatos, nas campanhas salariais e nas negociações coletivas. Mas também chegou aos conselhos, aos comitês de políticas públicas e à articulação sindical das Américas. Para Amanda, ocupar esses espaços é parte importante que integra a luta das mulehres da CUT porque "significa ampliar a capacidade de cobrar políticas de cuidado, igualdade salarial, redução da jornada, combate à violência e participação das mulheres nos espaços de poder".

Ela pontua que se trata da organização construída dentro da CUT chegando a outros espaços onde decisões são tomadas e direitos podem ser conquistados.