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Pra encerrar a discussão sobre a necessidade de enfrentar o racismo, apresentamos o novo presidente da Fundação Cultural Palmares

Publicado: 29 Novembro, 2019 - 00h00 | Última modificação: 29 Novembro, 2019 - 17h36

O novo nome à frente da Fundação Cultural Palmares, o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo, militante de direita, negou a existência de racismo no Brasil e que a escravidão foi "benéfica para os descendentes".

Sérgio defendeu nas redes sociais o fim do feriado da Consciência Negra, criticou manifestações culturais ligadas à população negra e atacou diversas personalidades negras, entre elas a atriz Taís Araújo, o ator Lázaro Ramos e ex-vereadora Marielle Franco.

O Dia da Consciência Negra é um dos seus alvos preferenciais, ele defendeu sua extinção dizendo ele causaria "incalculáveis perdas à economia do país" ao homenagear quem ele chamou de um "um falso herói dos negros", Zumbi dos Palmares — que dá nome à fundação que ele agora preside. Também já afirmou que o feriado foi feito sob medida para o "preto babaca" que é um "idiota útil a serviço da pauta ideológica progressista".

Nas redes sociais ele também já publicou que no Brasil existe um racismo "nutella", ao contrário dos Estados Unidos, onde existiria um racismo "real". "A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda". Também chegou a dizer que o movimento negro precisa ser "extinto" porque "não há salvação". Em outra ocasião, escreveu que "merece estátua, medalha e retrato em cédula o primeiro branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo". Também já disse sentir "vergonha e asco da negrada militante".

A Fundação é órgão responsável pela promoção da cultura afro-brasileira, uma entidade pública brasileira vinculada ao Ministério da Cultura, instituída pela Lei Federal nº 7.668, de 22 de agosto de 1988 e teve seu Estatuto aprovado pelo Decreto nº 418, de 10 de janeiro de 1992, e tem como missão os preceitos constitucionais de reforços à cidadania, à identidade, à ação e à memória dos segmentos étnicos dos grupos formadores da sociedade brasileira, além de fomentar o direito de acesso à cultura e à indispensável ação do Estado na preservação das manifestações afro-brasileiras. No artigo 1º, da Lei que a instituiu, lê-se: Promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.

O artigo 215 da Constituição Federal de 1998 assegura que o "Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais populares, indígenas e afro-brasileiras, e de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional.

Toda a História é basicamente uma grande sequência de eventos que são causas e consequências dos outros. A grande inovação dos europeus para consolidar o comércio transatlântico de escravos foi uma nova e possivelmente inédita justificativa: o racismo. Passaram a justificar a escravidão pela cor da pele. Os africanos não chegavam na América como escravos sob a justificativa de que eram prisioneiros de guerra, criminosos ou devedores em seus locais de origem. Eles chegavam aqui como escravos sob a justificativa de serem negros. Eram considerados uma raça inferior aos brancos. Por isso não tinham direitos, por isso não tinham alma, por isso podiam tranquilamente ser tratados como coisas, e não como seres humanos.

O racismo foi a justificativa inventada pelos brancos para seguir com a escravidão do negro tão vantajosa economicamente. Sim, o negro escravizou o negro, assim como o branco escravizou o branco em vários períodos da história. Porém foi o branco quem levou essa prática exclusivamente contra os povos negros ao patamar do negócio mais lucrativo para a época. E até nos dias de hoje, não tem remédio. A força da economia capitalista é avassaladora, e para o bem ou para o mal, segue sua própria lógica.

Apesar da primeira Constituição Brasileira de 1824 e das primeiras ideias em direitos humanos, a escravidão continuou como traço da normalidade no país, sendo abolida apenas em 1888.

A história do negro brasileiro após a abolição é uma trilha do caminho vicioso da favela e da rua. O trabalho não-qualificado era praticado pelos escravos e negros livres após a escravidão. Existe uma discriminação ocupacional e salarial, que se utiliza da ideia de que o trabalho do negro não vale tanto quanto os demais.

Apenas em 2089 brancos e negros terão uma renda equivalente no Brasil. Em média, os brasileiros brancos ganham o dobro do que os negros.

O feminicídio também tem cor no Brasil, atinge principalmente as mulheres negras. As mulheres negras também são mais vitimadas pela violência doméstica, assim como pela violência obstétrica e pela mortalidade materna.
Homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Só 10% dos livros brasileiros publicados entre 1965 e 2014 foram escritos por autores negros, dos personagens retratados pela literatura nacional 60% dos protagonistas são homens e 80% deles, brancos.

Homens negros são só 2% dos diretores de filmes nacionais e atrás das câmeras, não foi registrada nenhuma mulher negra. O fosso racial permanece entre os roteiristas: só 4% são negros. Das produções brasileiras que alcançaram as maiores bilheterias entre 2002 e 2014, dentre os filmes analisados, 31% tinham no elenco atores negros, quase sempre interpretando papeis associados à pobreza e criminalidade.

O racismo é a consequência da escravidão. Se você inverte a causa e a consequência, você ainda não entendeu o assunto. No Brasil, a história do negro ainda está por ser escrita. O racismo operou como elemento de manutenção de privilégios da elite branca. O racismo faz com que pessoas negras não se entendam parte de uma história e de um povo. O racismo desumaniza. As pessoas negras e não-negras precisam urgentemente discutir e lutar contra o racismo. A sociedade brasileira precisa enxergar e assumir que o racismo existe e pensar no peso da questão dos privilégios.