O Santander e a segunda conquista espanhola
Publicado: 18 Dezembro, 2007 - 00h00
A trinta quilômetros da Praça da Sé, em São Paulo, existe uma escola que até alguns dias tinha o nome de Itajuibe II, homônimo do Conjunto Habitacional onde está implantada.
Provocados por um professor, os alunos do ensino médio tomaram para si a tarefa de encontrar um nome mais significativo, com mais personalidade e com o qual se identificassem, colocando em prática aquilo que costumamos chamar de "protagonismo juvenil".
Diversos nomes foram indicados, entre eles Luiza Mahiam e João Cândido pela luta contra a escravidão e o racismo, Bob Dylan e Bob Marley pelas músicas que fizeram, Martin Luther King por seu exemplo pacifista. Luiz de Camões e Clarice Lispector por sua obra literária e até moradores anônimos foram lembrados, entre eles um certo "véio" Joaquim, que terÃÂa trabalhado no prédio quando estáva em obras e se enforcado lá dentro - por isso seu espÃÂrito assombrava os corredores e banheiros da escola.
A disputa foi acirrada. Destacou-se um pequeno grupo que havia sugerido o nome de Clarice Lispector. Fazendo intensa campanha, conseguiram convencer uma boa parte do eleitorado, que acabou optando por sua candidata. Imediatamente foi iniciada a segunda fase; colher no mÃÂnimo 450 assinaturas da comunidade para que a proposta fosse enviada àAssembléia Legislativa de maneira a que pudesse ser formalizada a mudança de nome.
Toda essa atividade cÃÂvico-pedagógica, lamentavelmente, foi abortada em cinco de dezembro quando a Secretária Estadual da Educação formalizou parceria com o Banco Santander e algumas ONGs. O Itajuibe II foi incluÃÂdo na Rede Ibero-Americana de Ensino Fundamental e, junto com outras 31 escolas estaduais, "adotado" em troca de um lote de computadores e recursos para melhorias da estrutura, disponibilizados pelo banco. Assim, estas escolas passaram a ser chamadas pelo nome de uma das ex-colônias espanholas, e a despeito das diversas indicações dos alunos, das pesquisas que fizeram, dos debates em sala de aula, da votação, do abaixo-assinado e do extraordinário envolvimento daquela garotada, a escola ItajuÃÂbe II passou a se chamar Escola Estadual República da Guatemala.
A aparentemente singela iniciativa do banco Santander e do governo do Estado de São Paulo de homenagear paÃÂses latino-americanos, na verdade, é uma tentativa de homenagear o colonialismo, minimizar os crimes perpetrados pelos europeus na América Latina, ÃÂfrica e ÃÂsia e seduzir os nossos alunos com uma versão positiva da histórica da conquista da América. Versão esta que, ao considerar aquele perÃÂodo, como um necessário "processo civilizatório", originando paÃÂses "modernos", certamente têm por objetivo tornar nossos jovens dóceis ao imperialismo, com suas diversas nuances, entre elas a "segunda conquista" protagonizada pelos espanhóis, que têm no banco em questão um dos seus principais instrumentos.
O atropelo de uma prática cÃÂvico-pedagógica e imposição autoritária de um nome que não representa nada para aquela comunidade é parte de algo maior e mais perigoso, que têm como conseqüência a piora da qualidade de ensino, a alienação cultural e se apresenta com duas vertentes. Uma delas é o reforço do projeto de privatização do ensino público no Estado com o governo não cumprindo suas obrigações educacionais e repassando essa responsabilidade a um ente privado que trata a educação como caridade, fazendo doações e recebendo sabe-se lá o que em troca. A outra é a desnacionalização da nossa cultura, o ressurgimento do eurocentrismo e a reincidência da prática de tentar subordinar o povo brasileiro (no caso o povo de São Paulo) aos interesses do capital internacional, que têm na divulgação da história sob o ponto de vista alienÃÂgena um dos seus instrumentos.