Maio, mês das mães: o fim da escala 6x1 também é uma pauta de cuidado, dignidade e presença
Publicado: 08 Maio, 2026 - 00h00 | Última modificação: 08 Maio, 2026 - 15h09
Maio é lembrado como o mês das mães. É tempo de homenagens, flores, mensagens emocionadas e reconhecimento público da importância materna. Mas, para milhões de mulheres trabalhadoras, especialmente aquelas submetidas a jornadas longas e à escala 6x1, o mês das mães também escancara uma contradição profunda: a sociedade celebra a maternidade, mas ainda organiza o trabalho de forma que muitas mães não consigam participar plenamente da vida dos próprios filhos.
A escala 6x1 — seis dias de trabalho para apenas um dia de descanso — não é apenas uma forma de organização da jornada. Para muitas mulheres, ela representa a perda sistemática de tempo: tempo de descanso, tempo de convivência, tempo de cuidado consigo mesmas e tempo de presença na vida familiar. O debate sobre o fim da escala 6x1, portanto, precisa ser compreendido não apenas como uma reivindicação trabalhista, mas como uma agenda de saúde, igualdade de gênero, proteção à infância, justiça social e valorização da vida.
No Brasil, a desigualdade de tempo entre homens e mulheres é um dado concreto. Segundo o IBGE, em 2022 as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e/ou ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas. Isso significa que elas realizavam 9,6 horas a mais por semana em trabalho doméstico e de cuidado não remunerado.
Esse dado ajuda a explicar por que a escala 6x1 pesa mais sobre as mulheres. Quando uma trabalhadora cumpre uma jornada formal de 44 horas semanais e, ao chegar em casa, ainda precisa cozinhar, limpar, lavar, organizar a rotina da família, acompanhar tarefas escolares, cuidar de crianças, idosos ou pessoas doentes, sua jornada real ultrapassa em muito aquilo que aparece na carteira de trabalho. A mulher que trabalha seis dias fora de casa muitas vezes continua trabalhando no sétimo dia — só que sem salário, sem descanso e sem reconhecimento.
No mês das mães, essa realidade ganha ainda mais força simbólica. Muitas mães não conseguem levar os filhos à escola, participar de reuniões pedagógicas, acompanhar consultas médicas, assistir a uma apresentação escolar, celebrar pequenas conquistas ou simplesmente estar presentes no cotidiano. Os filhos crescem, mudam de fase, adoecem, aprendem, erram, vencem medos, fazem perguntas — e muitas mães estão ausentes não por escolha, mas porque a jornada de trabalho e a necessidade econômica lhes retiram esse direito.
A discussão sobre o fim da escala 6x1 toca exatamente nesse ponto: o direito ao tempo. Tempo não é luxo. Tempo é condição para criar vínculos, cuidar da saúde, estudar, descansar e viver. Quando uma mãe tem apenas uma folga semanal, esse único dia costuma ser consumido por tarefas acumuladas: lavar roupa, limpar a casa, fazer mercado, preparar comida, resolver pendências e tentar recuperar minimamente o corpo cansado. O descanso, quando existe, vem depois da exaustão.
O impacto é ainda mais grave entre mulheres negras, pobres e periféricas. O IBGE aponta que mulheres pretas ou pardas dedicam mais tempo ao trabalho doméstico e de cuidado do que mulheres brancas. Além disso, são mais afetadas pela informalidade e pela pobreza, o que reduz sua capacidade de negociar melhores condições de trabalho.
Levantamento da Base dos Dados também indica que a escala 6x1 se concentra em setores de baixa remuneração, especialmente comércio e serviços. Entre trabalhadores nessa jornada nesses setores, 82% recebem menos de dois salários mínimos; entre mulheres pretas e pardas, esse percentual chega a 90%. Isso mostra que a escala 6x1 atinge com mais força justamente quem tem menos renda, menos proteção e menos alternativas.
Reduzir a jornada, portanto, não significa apenas trabalhar menos. Significa redistribuir possibilidades de vida. Uma redução de 44 para 40 horas semanais devolveria quatro horas por semana ao trabalhador. Uma redução para 36 horas devolveria oito horas por semana. Para uma mãe trabalhadora, essas horas podem significar acompanhar um filho em uma consulta, participar de uma reunião escolar, estudar para melhorar de vida, cuidar da própria saúde ou simplesmente dormir.
Há também uma dimensão de saúde pública. Estudos da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho associam jornadas muito longas — de 55 horas ou mais por semana — a um risco 35% maior de acidente vascular cerebral e 17% maior de morte por doença cardíaca isquêmica, em comparação com jornadas de 35 a 40 horas. Embora a jornada formal de muitas trabalhadoras esteja abaixo desse patamar, a soma entre trabalho remunerado e trabalho doméstico não remunerado pode facilmente aproximar ou ultrapassar esse limite.
Por isso, quando se fala em fim da escala 6x1, não se trata apenas de uma conta empresarial. Trata-se de uma conta social. Quem paga pelo excesso de jornada? Muitas vezes, paga a mulher com o próprio corpo. Paga a criança com a ausência da mãe. Paga a família com menos convivência. Paga a sociedade com adoecimento, evasão escolar indireta, sobrecarga emocional, baixa qualidade de vida e reprodução das desigualdades.
É importante lembrar: defender o fim da escala 6x1 não é desvalorizar o trabalho. Ao contrário, é reconhecer que o trabalho precisa caber dentro da vida — e não destruir a vida. Uma sociedade que valoriza mães não pode aceitar que elas sejam obrigadas a escolher entre sustentar seus filhos e acompanhar seu crescimento.
Neste mês de maio, a homenagem às mães precisa ir além das palavras. Flores são bonitas, mas não substituem direitos. Mensagens emocionadas são importantes, mas não compensam a ausência forçada nos momentos essenciais da vida dos filhos. O verdadeiro reconhecimento às mães trabalhadoras passa por políticas públicas e relações de trabalho que garantam tempo, descanso, renda, saúde e presença.
Por isso é necessária a pressão popular para exigir que o congresso aprove com brevidade o fim da escala 6x1, a redução de jornada sem redução de salário. Entre em contato com a/o deputada/o, senador/a que você votou em 2022 e peça seu voto para acabar com a escala 6x1, esse é o maior presente para as mães em 2026, porque a jornada de trabalho não deve impedir as mães de ver seus filhos crescerem.
A construção de um país que respeite quem trabalha, que reconheça o cuidado como base da sociedade e que permita às mães não apenas sustentar seus filhos, mas também estar com eles é tarefa de toda a sociedade.
Feliz Dia das Mães, a você mãe trabalhadora.