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Artigo

Empolados, prolixos e injustos

Publicado: 05 Fevereiro, 2018 - 00h00 | Última modificação: 05 Fevereiro, 2018 - 11h20

Certa vez, estava presente em um evento que reunia expressiva parcela da esquerda latino-americana e no qual uma das suas mais importantes lideranças já discursava por mais de uma hora e meia. Como tenho dificuldade em ouvir discursos longos – seja de políticos de esquerda, direita, profetas ou os meus próprios – decidi sair do local da plenária e voltar apenas quando o orador anunciasse que estava encerando a sua fala. E não é que ele ainda demorou mais meia hora para concluir sua intervenção – considerando o tempo em que estive fora do plenário, foram mais de três horas de discurso.

Em outro congresso, presenciei o secretário geral de uma central sindical discursar por mais de duas horas e, imediatamente após esse primeiro discurso, outra intervenção, mas agora de um dirigente partidário, com as mesmas inacreditáveis duas horas de duração. Como já tinha afirmado, acho insuportável ouvir discursos extremante longos. Aliás, acredito que não sou o único a pensar dessa maneira. Tenho certeza que é possível agradar a todos os ouvintes com discursos curtos e objetivos. Em minhas falas nunca ultrapasso uma hora, geralmente utilizo bem menos tempo do que isso, deixando, dessa forma, o maior tempo possível para o debate.

Sei que são situações muito diferentes, mas também foi um torturante martírio ouvir as quase seis horas de discursos dos três desembargadores que condenaram, sem qualquer prova, o presidente Lula no caso do triplex do Guarujá. Ouvi praticamente toda a duração dos discursos e posso afirmar: três discursos empolados e prolixos. O advogado do presidente Lula teve tão somente quinze minutos para demonstrar a inocência do presidente – o que demonstra, mais uma vez, o cerceamento ao direito de defesa.  Apenas quinze minutos para expor a total ausência de provas contra Lula e seis horas para expor a fantasiosa e injusta tese da sua culpabilidade. Seis horas de discursos pretensamente pomposos e desnecessariamente dilatados – borboleteando dentro de um círculo e com dificuldades em encontrar o centro – para tentar justificar o injustificável: uma condenação decidida previamente e totalmente alheia aos autos do processo e as provas produzidas pela defesa.

A justiça brasileira é injusta, classista e preconceituosa – mudando até mesmo a jurisprudência pacificada no Supremo Tribunal Federal dependendo apenas de quem está sendo julgado. Uma justiça que cultiva privilégios inaceitáveis, tais como o indecente auxílio-moradia de R$ 4.377,00 para juízes que já recebem altíssimos salários – na maioria das vezes acima, inclusive, do teto constitucional. Apenas o valor do auxílio-moradia é maior que os rendimentos de 92% dos brasileiros, assim como também é maior que os salários da imensa maioria das professoras e dos professores do nosso país. Aliás, o valor desse auxílio-moradia podia ser o piso salarial profissional da categoria – o magistério ficaria muito satisfeito. O que já seria um escândalo em qualquer circunstância é ainda mais grave em um cenário de crise econômica e que o reajuste do salário mínimo ficou abaixo da inflação – para “economizar” sete bilhões de reais.

Mais uma vez denunciamos esse julgamento como o mais truculento e infeliz da história do Brasil:

  1. Um julgamento totalmente sem provas e injusto com o claro objetivo de esfacelar a vida de um dos grandes brasileiros da nossa história. A figura de Lula representa, para a ampla maioria da população brasileira, um dos poucos políticos que, quando teve oportunidade, colocou o Estado a serviço dos mais pobres. Construindo, dessa forma, um país mais justo e soberano.
  2. Está ficando cada vez mais evidente e incontestável que o julgamento e os processos contra o presidente Lula são meramente políticos e não jurídicos e muito menos imparciais – enquanto outros políticos com fartas provas documentais, auditivas e até mesmo visuais não são nem mesmo efetivamente investigados, Lula é perseguido e condenado em processos e acusações que ultrapassam o nível do ridículo. Alguém acredita que os presidenciáveis Aécio Neves, Michel Temer, Geraldo Alckmin e José Serra serão investigados, julgados e presos?
  3. O que está em jogo é se o Brasil pertence aos brasileiros ou ao grande capital internacional. O imperialismo nunca aceitou que o Brasil detivesse o controle total sobre suas reservas de petróleo, além de voz ativa no cenário político e econômico global. Interditar Lula significaria mais um passo decisivo do grande capital e do imperialismo em impedir a nossa plena soberania nacional.
  4. Esta aliança entre o capital nacional e internacional, a imprensa, o judiciário e um parlamento corrompido e sem legitimidade popular veio para ficar. As classes dominantes não precisam mais dos militares para promoverem golpes e confiscar o direito do povo de decidir democraticamente o seu destino. Uma aliança que capturou a democracia, o Estado e os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores brasileiros.
  5. Um eventual governo Lula – líder em todas as pesquisas de intenção de votos – seria um obstáculo intransponível às reformas neoliberais – congelamento dos gastos públicos, reforma trabalhista e da previdência – implementadas pelo governo Temer e defendidas pelo mercado financeiro.  As elites, portanto, não medem esforços para impedir a volta de Lula, mesmo que para isso tenham que trucidar a democracia brasileira. Desprezam a opinião da maioria da população brasileira que, como atestam as pesquisas e as mobilizações em torno do presidente Lula, estão dispostas e convencidas da necessidade de defender e votar, mais uma vez, em um projeto encabeçado pelo ex-presidente.

O Brasil e a democracia vivem um dos momentos mais tristes da nossa história. Hoje, a discussão não é se existe ou não um Plano B ou se vamos ou não ter outro candidato. O centro do debate, materializada na defesa sem quartel do presidente Lula, é a defesa da democracia, da maioria pobre da população brasileira, de um projeto de esquerda e dos movimentos sociais. A defesa, portanto, da própria idéia de soberania nacional. E o candidato que melhor representa esse processo é a do presidente Lula. Querido pelo povo e com expressão nacional e internacional. 

Acredito na inocência do Lula – a quem conheço desde a década de 70 – e tenho total e absoluta confiança no ser humano e no político. Apto e preparado para ocupar qualquer posto da política nacional. Enquanto Lula é perseguido, os verdadeiros corruptos estão soltos e governando o país.