CUT, 43 anos: formar para organizar, organizar para transformar
Publicado: 28 Agosto, 2026 - 00h00
Há 43 anos, em 28 de agosto de 1983, mais de cinco mil trabalhadoras e trabalhadores de todas as regiões do Brasil, da cidade e do campo, se reuniram no Pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo do Campo, para tomar uma decisão histórica: fundar a Central Única dos Trabalhadores, a CUT.
Não foi só o nascimento de uma nova central sindical. Nascia uma forma de fazer sindicalismo construída na luta contra a ditadura, contra o sindicalismo controlado pelo Estado e pela autonomia e liberdade de organização da classe trabalhadora.
A CUT não apareceu do nada. Sua construção foi resultado de muita mobilização, debate e organização popular. Em 1981, a 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora reuniu mais de cinco mil delegados e delegadas de 1.091 entidades e criou a Comissão Nacional Pró-CUT. Dois anos depois, em julho de 1983, uma histórica greve geral enfrentou a política econômica da ditadura. Em agosto daquele ano, o Congresso Nacional da Classe Trabalhadora transformou todo esse acúmulo político e organizativo em uma central sindical nacional.
As próprias resoluções de 1983 definiam a CUT como uma organização representativa, democrática e independente do Estado, dos patrões e dos partidos políticos. Entre suas primeiras bandeiras estavam o fim da Lei de Segurança Nacional, eleições diretas para a Presidência da República, liberdade e autonomia sindical, combate ao desemprego e reforma agrária.
Formação e organização caminham juntas
Essa origem ajuda a entender por que formação e organização caminham juntas na história da CUT.
Para o sindicalismo cutista, formação nunca foi só oferecer cursos. Nossos princípios formativos nos ajudam a construir uma visão crítica sobre o mundo do trabalho, entender as relações entre capital e trabalho, disputar projetos de sociedade e preparar pessoas capazes de intervir na realidade. Nossa formação é estratégica, para fortalecer nosso projeto político-organizativo.
Como agricultora familiar e filha da classe trabalhadora do campo, sei que essa formação também nasce dos territórios, das comunidades e da experiência de quem trabalha a terra, enfrenta as desigualdades e constrói sua vida por meio da organização coletiva. A origem social de quem atua na formação sindical importa: ela nos lembra que a CUT é feita por trabalhadoras e trabalhadores reais, do campo e da cidade, e que o conhecimento se constrói também a partir das experiências concretas de luta e resistência.
Foi assim na resistência à ditadura e na luta pela redemocratização. Foi assim nas grandes greves, na Constituinte, nas mobilizações por direitos sociais, na defesa da valorização do salário mínimo, dos serviços públicos, da igualdade entre mulheres e homens, do combate ao racismo e de tantas outras conquistas construídas pela classe trabalhadora.
E continua sendo assim diante das mudanças do capitalismo de hoje.
Os desafios presentes de nossa Central
A CUT chega aos 43 anos como a maior central sindical do Brasil e da América Latina. Somos mais de 3.800 entidades filiadas, quase 8 milhões de trabalhadoras e trabalhadores associados e uma base próxima de 24 milhões de pessoas.
Mas ser grande não basta. O grande desafio de uma organização sindical é continuar entendendo o seu tempo.
Hoje, a classe trabalhadora enfrenta a plataformização, a inteligência artificial, novas formas de precarização e contratação, jornadas extenuantes, desigualdades de gênero e raça e ataques constantes aos direitos sociais e trabalhistas. Ao mesmo tempo, enfrenta a extrema direita e seus ataques à democracia, à organização coletiva e à própria ideia de solidariedade de classe.
Por isso, a formação sindical continua tão importante quanto foi na criação e no fortalecimento do nosso projeto político-organizativo ao longo desses 43 anos.
Precisamos formar para entender as novas formas de exploração; formar para disputar valores e enfrentar o individualismo e o autoritarismo; formar novas lideranças; formar para organizar quem hoje está fora do sindicato; formar para defender a democracia, a soberania e um projeto de desenvolvimento que coloque a vida e o trabalho no centro.
Há 43 anos, milhares de trabalhadores e trabalhadoras entenderam que não bastava resistir sozinhos. Era preciso construir uma organização coletiva capaz de transformar indignação em consciência, consciência em organização e organização em luta.
Esse talvez seja um dos ensinamentos mais atuais da história da CUT.
Porque direitos não são presentes. A democracia não está garantida para sempre. E nenhuma transformação social acontece sem organização, consciência e luta da classe trabalhadora.
Aos 43 anos, celebrar a CUT é celebrar essa história — mas, principalmente, assumir a responsabilidade de continuar formando a classe trabalhadora para escrever os próximos capítulos dela.