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Artigo

Condição de trabalho dos jornalistas de Rádio e TV e sua responsabilidade social

Publicado: 14 Dezembro, 2007 - 00h00 | Última modificação: 02 Setembro, 2014 - 18h03

Realizar uma boa campanha salarial conquistando avanços significativos para a categoria é, por excelência, a atividade mais característica de um sindicato. Também sabemos que uma negociação entre trabalhadores e patrões não se resume às mesas de negociação, que, em última instância, refletem a mobilização da categoria. De nada adianta negociadores hábeis se as condições reais de negociação não forem favoráveis.

 

Todos os trabalhadores sabem disso e os jornalistas também pensam assim. Mas acontece que na prática os jornalistas que atuam no setor de Rádio e TV vêm encontrando sérias dificuldades no processo negocial com o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo – Sertesp. As dificuldades começam pela própria data de negociação; o mês de dezembro. Dezembro se caracteriza por ser um mês atípico, com festas de fim de ano, reduzem em muito o número de dias úteis para mobilização e negociação e o resultado disso é que nos últimos 21 anos, 15 convenções só foram assinadas no ano seguinte.

 

Esse limitador tem causado prejuízo aos trabalhadores e resultou no fato de que a convenção do setor é a menos avançada entre as quatro assinadas pelo Sindicato dos Jornalistas, sendo, inclusive, a única que apresenta, em 13 anos, uma perda salarial acumulada em relação ao INPC, aproximadamente 11%. Todos os outros jornalistas somam ganhos que variam de 5% a 20%. Não foi por acaso, que o Sindicato dos jornalistas alterou a data-base dos demais segmentos (aqueles que trabalham em jornais, revistas e assessorias de imprensa) para junho, mudança que, apesar de estar sempre em pauta, os patrões de Rádio e TV não aceitam de modo algum,

 

A esta questão de prazo une-se uma série de contratempos de ordem particular e profissional. Muitos organizaram suas férias nesse período e a própria dinâmica dos trabalhos é alterada. O resultado dessa conjuntura é de que a participação dos trabalhadores em assembléias e reuniões é menor que a ocorrida nas campanhas salariais dos outros segmentos jornalísticos.

 

Analisando todas essas questões e procurando achar uma solução, o caminho encontrado para contornar esses contratempos foi a instalação de um plebiscito entre os jornalistas do segmento nos dias 17 e 18 de dezembro com, a seguinte pergunta: Você aceita a contraproposta patronal e autoriza o Sindicato dos Jornalistas a assinar imediatamente a Convenção Coletiva? SIM ou NÃO.

 

Essa medida - que se não é inédita em uma campanha salarial, certamente é pouco comum - vai permitir uma maior participação dos jornalistas, pois, além das urnas volantes nas 32 principais redações de rádios e TVs do Estado, conta, também, com uma fixa na sede. Assim, a manifestação da vontade do trabalhador será auferida não apenas no espaço de tempo de uma assembléia, mas, sim, pelo período de dois dias.

 

Agindo dessa maneira, de forma limpa e transparente, garantimos a participação democrática de todos os interessados, mobilizamos e organizamos os jornalistas nos seus locais de trabalho, além de legitimar o processo negocial.

 

Seja qual for o resultado, a posição dos jornalistas sai fortalecida do processo e dá partida a uma nova etapa de mobilização para as campanhas futuras, pois, temos certeza, o embate com os patrões de Rádio e TV continuará, haja vista os problemas que são muitos e o atraso dos dirigentes dos veículos de comunicação são conhecidos de todos.

 

Neste ponto, uma última reflexão se faz necessária à população, principalmente os trabalhadores, que têm feito muitas críticas ao papel conservador desempenhado, atualmente, pela imprensa, no qual exercem o legítimo direito de crítica, porque estão com razão na maioria das vezes. O que a população não tem conhecimento é das reais condições de trabalho dos jornalistas, particularmente dos que atuam em Rádios e TVs.

 

Apenas para exemplificar, apresento a questão salarial; o piso da categoria é de RS 1.134,00 na capital e R$ 723,00 no interior (menos de dois salários mínimos), para um faturamento do setor previsto para o ano/2007 de R$ 11 bilhões (onze bilhões).

 

Também é bom lembrar que profissionais mal pagos, com más condições de trabalho e péssima qualidade de vida não podem desempenhar suas funções de modo satisfatório.

 

A população, no seu dia a dia, é informada e forma sua opinião a partir da imprensa, assim, a precarização do trabalho do jornalista é a desinformação do cidadão. Não é de se admirar, portanto, que, nessas condições de trabalho, haja uma avalanche de críticas à atuação da imprensa.

 

Portanto, nada mais falso que essa imagem glamurosa que muitos têm do jornalismo. Deixando de lado as grandes estrelas, que são poucas, a esmagadora maioria dos jornalistas de Rádio e TV sofrem um arrocho salarial escandaloso, especialmente tendo em vista o faturamento de empresas como a Globo e a Record.

 

Se o papel do Sindicato é lutar para reverter este quadro, missão da qual o plebiscito é parte integrante e fará avançar a organização dos trabalhadores, os seus dirigentes também devem tornar públicas as mazelas da profissão, apelando para a solidariedade e apoio de todos os trabalhadores, pois nossa luta por melhores condições de trabalho é também a luta pelo estabelecimento de uma imprensa democrática e popular.