Bolívia: o levante popular e a luta contra o imperialismo
Publicado: 22 Julho, 2026 - 00h00 | Última modificação: 21 Agosto, 2026 - 12h41
Por Renê Munaro
Membro da executiva nacional da CUT e da direção do Sintrasem
Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia em novembro de 2025. O candidato de centro-direita do Partido Democrata Cristão foi eleito derrotando Jorge “Tuto” Quiroga, uma candidatura de extrema-direita. A eleição de Paz encerrou o ciclo de governos do Movimento ao Socialismo (MAS).
As candidaturas associadas ao MAS atingiram pouco mais de 7% dos votos, e a cisão interna do partido e a crise econômica pesaram na disputa. Evo Morales, impedido de concorrer, lançou uma campanha pelo voto nulo.
No início de seu governo, Paz retoma relações com os EUA, com a volta das ações da DEA (Drug Enforcement Administration), que havia sido expulsa do país em 2008 por Morales. Ele reestabelece relações com o Estado de Israel e participa da cerimônia de assinatura do “Escudo das Américas” ao lado de Trump.
A publicação do Decreto Supremo nº 5503 em dezembro de 2025 – apresentado como um pacote de emergência para enfrentar a crise econômica, financeira e energética – gerou forte reação de sindicatos, movimentos populares e setores da oposição. A COB (Central Obrera Boliviana) deflagrou no 1º de maio o início das manifestações que levaram aos bloqueios em todas as regiões da Bolívia.
O Decreto 5503 concedeu ao Poder Executivo poderes extraordinários para adotar medidas econômicas e administrativas como desregulamentação e privatizações em áreas consideradas estratégicas, permitindo concessões e contratos com empresas nacionais e estrangeiras em setores como hidrocarbonetos, mineração, energia e infraestrutura, com o modelo chamado de “fast track”, que permitia a autorização dos contratos para iniciar operações em no máximo 30 dias.
Outro ponto importante foi a alteração da política energética, modificando normas relacionadas ao mercado interno de gás natural e retirou subsídios na política de combustíveis, que foi o responsável pelo aumento que chegou a 130% nos valores finais da gasolina e do diesel.
O decreto também garantia incentivos ao setor empresarial, incluindo benefícios tributários, mecanismos de regularização de dívidas e o congelamento de salários de servidores públicos.
Estabelecia ainda que diversas decisões fossem tomadas por decreto, sem necessidade de aprovação prévia da Assembleia Legislativa, extrapolando os poderes do Executivo e atacando a Constituinte do país.
Em abril, o governo aprovou a Lei 1.720, a “Lei de Reconversão de Terras”, estabelecendo que pequenas propriedades fossem reclassificadas como propriedades de porte médio, sob o pretexto de facilitar acesso a financiamentos bancários. O movimento campesino entendeu que seria uma tentativa de tomada dessas terras em caso de inadimplência para favorecer grandes proprietários rurais, destruindo uma conquista da Reforma Agrária realizada em 1952.
Foram mais de 50 dias de bloqueios, que chegaram a ultrapassar 100 pontos em todo o país. Centenas de manifestantes foram presos, incluindo lideranças populares e sindicais. 22 pessoas morreram nas manifestações.
A COB e o governo firmam um acordo para encerrar os bloqueios. O movimento campesino Túpac Katari (a principal organização à frente dos bloqueios), entretanto, não assina, mas entende que não teria condições de continuar mantendo os bloqueios.
Logo após o acordo, é publicado o decreto do estado de emergência ou estado de sítio por 90 dias no país.
No acordo, o governo mantém a revogação da Lei 1.720 e a substituição do Decreto 5.503 pelo Decreto 5.516, retirando medidas como o “fast track”, mas mantendo parte das medidas econômicas e de abertura da exploração ao capital privado dos recursos naturais.
O acordo abandona a posição do movimento instalado no país ao negociar uma pauta e abandonar a exigência da saída de Rodrigo Paz do governo.
Além disso, o acordo não garantiu o fim das prisões dos manifestantes, a anulação de nenhum processo e nem libertou todos os presos, que eram pré-requisitos para o movimento antes de iniciar qualquer discussão com o governo.
O Tribunal Supremo de Justiça e o presidente da Câmara de Deputados, Roberto Salazar, afirmam que o acordo entre Paz e a COB não irão parar as prisões e processos de acusação de golpe de estado, terrorismo, organização criminosa, entre outras, contra os que participaram dos bloqueios.
A extrema-direita afirma que o estado de sítio só terá atingido seu objetivo se Evo Morales, Vicente Salazar (liderança Túpak Katari) e Mario Argollo (presidente da COB que fez o acordo) sejam presos.
No dia 5 de julho, Salazar foi preso, e a imprensa repercute que os processos estão prontos para Argollo. Mas a cereja do bolo é Evo, acusado de dirigir as manifestações desde a região do Chapare, em Cochabamba, onde se encontra escondido para evitar sua prisão há mais de um ano.
A situação econômica segue deteriorando as condições de vida. Mesmo com o fim dos bloqueios, até hoje não foi restabelecido plenamente o abastecimento de combustíveis, pois o governo tem uma dívida milionária com fornecedores. Tampouco a qualidade desses combustíveis que chegam está assegurada. As filas para abastecimento continuam quilométricas mesmo após semanas do fim dos bloqueios.
Os produtos da cesta básica tiveram um aumento que chegou a 300% em vários itens, enquanto os trabalhadores já amargavam a perda de 30% do poder de compra dos salários. A mudança do regime cambial, passando de fixo para flutuante após o fim dos bloqueios, gerou uma disparada dos preços desde 27 de junho com a desvalorização da moeda local, quase dobrando as contas de luz e itens de alimentação.
As demissões e ameaças de privatização seguem na pauta, que agora são chamadas de “medidas para reconstruir o país após os bloqueios”, incluindo o debate de uma reforma trabalhista para flexibilizar e desregulamentar as relações de trabalho.
A situação que gerou a revolta popular não foi resolvida. Pelo contrário: a tendência é o agravamento da atual situação. O governo Paz, apoiado pelo imperialismo, lança mão do estado de sítio para aprovar as medidas que preparou para atacar o povo e a soberania do país.
Resta saber se o estado de sítio será capaz de conter uma eventual nova revolta, se as organizações políticas, sindicais e populares conseguirem coordenar-se em um comando. A luta de classes definirá as cenas dos próximos capítulos.