Água, mulheres e o futuro: o direito que não pode ser mercadoria
Publicado: 19 Março, 2026 - 00h00
O Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, traz em 2026 um chamado urgente: refletir sobre a relação entre água e igualdade de gênero. A campanha das Nações Unidas afirma que onde a água chega, a igualdade floresce. Mas essa afirmação só se sustenta plenamente quando a água é tratada como o que ela realmente é: um direito humano — e não uma mercadoria.
No Brasil, apesar dos avanços construídos ao longo de décadas — fruto, em grande parte, da atuação das empresas públicas e do trabalho dos urbanitários —, ainda persistem desigualdades no acesso à água e ao saneamento, especialmente nas periferias, nas áreas rurais e nas regiões mais vulneráveis.
Dados recentes mostram que o país avançou, mas ainda há muitos brasileiros e brasileiras sem acesso adequado à água e ao esgotamento sanitário. O desafio, portanto, não é substituir esse modelo, mas ampliar e fortalecer políticas públicas que garantam o acesso universal, sem submeter um direito essencial à lógica do mercado.
Nesse contexto, preocupa o avanço de processos de privatização no setor, que tendem a priorizar o retorno financeiro em detrimento da universalização do serviço.
E isso não é apenas um problema de infraestrutura. É um problema de dignidade.
Quando falta água, não é uma estatística.
É a panela que não vai ao fogo.
É a roupa que se acumula.
É o banho (inclusive das crianças) que não acontece.
É a rotina que desorganiza a vida inteira.
E, quase sempre, é a mulher que precisa dar conta disso.
Em muitas casas brasileiras, são as mulheres que seguem responsáveis pelo cuidado com a família e com o lar. São elas que organizam a comida, a limpeza, a higiene dos filhos, o cuidado com idosos e doentes. Quando a água não chega, ou chega de forma precária, essa carga aumenta — e pesa.
Não por acaso, organismos internacionais como a ONU e a UNICEF têm alertado: a falta de água e saneamento afeta de forma desproporcional mulheres e meninas, impactando a saúde, a educação e a autonomia.
Falar de água, portanto, é falar de igualdade. E falar de igualdade é falar de escolha política.
Nos últimos anos, o Brasil tem assistido ao avanço de um modelo que coloca o saneamento sob a lógica do mercado. Privatizações já realizadas — como as da Cedae (RJ), Corsan (RS), Sabesp (SP), Deso (SE), Casal (AL), Cosanpa (PA) e Agespisa (PI) — vêm sendo acompanhadas por críticas recorrentes da população e de entidades do setor em relação ao aumento de tarifas e às dificuldades de acesso para as parcelas mais vulneráveis da sociedade.
Ao mesmo tempo, novos processos seguem em debate, como os da Copasa, em Minas Gerais, e da Saneago, em Goiás. Esse cenário reforça a necessidade de um debate profundo sobre qual modelo de saneamento o país quer construir.
A pergunta que precisa ser feita é simples: água é direito ou é negócio?
Porque, quando o saneamento passa a ser tratado como mercadoria, o acesso deixa de ser universal. Passa a depender da capacidade de pagamento. E isso, na prática, significa aprofundar desigualdades.
E é justamente nas periferias, nas áreas rurais e nas regiões mais vulneráveis que vivem as mulheres que mais sofrem com a falta de água.
A Federação Nacional dos Urbanitários (FNU) defende, neste Dia Mundial da Água, que não há igualdade possível sem acesso universal à água e ao saneamento de qualidade. E isso só será garantido com o fortalecimento das empresas públicas, com políticas que coloquem a vida acima do lucro e com a participação da sociedade nas decisões sobre o setor.
A água não pode ser tratada como ativo financeiro. Não pode ser reduzida a uma oportunidade de negócio.
Água é vida. É saúde. É dignidade.
Defender o saneamento público é, também, defender as mulheres — o seu tempo, o seu trabalho, a sua autonomia e o seu direito de viver com dignidade.
Porque, no fim das contas, não há igualdade possível onde a água não chega.
E onde a água é tratada como direito, aí sim — a igualdade pode florescer.