A mídia e os serviços públicos
Publicado: 29 Outubro, 2007 - 00h00
O Deputado Estadual Roberto FelÃÂcio (PT/SP) e o vereador Carlos Neder, também do PT, organizaram um seminário, dia 23 de outubro, na Câmara Municipal de São Paulo, sobre "Os serviços públicos e a mÃÂdia". Não é comum a utilização do Salão Nobre da Câmara para este tipo de assunto, como ressaltou o vereador Carlos Neder, mas, exatamente por isso, que o evento revestiu-se de grande importância. Pelo momento em que vivemos e pelos sérios questionamentos que a população faz àconduta da imprensa nos últimos anos, debater a relação que a mÃÂdia vem estabelecendo com o poder público e com a iniciativa privada, deixando o cidadão, em particular, os trabalhadores, na linha de tiro, mais dos que pertinente, é extremamente, necessário.
Nós, servidores públicos da maior cidade do paÃÂs e uma das maiores do mundo, estamos, nesse exato instante, em negociações com a Câmara e com o Executivo Municipal. Há 90 dias, encerramos as discussões diretas com a Prefeitura sobre nossas reivindicações salariais. Dessas negociações, resultaram acordos que foram transformados em Projetos de Lei e enviados àCasa. Iniciamos, a partir de então, novas negociações com os lÃÂderes partidários e, em particular com o lÃÂder do governo, vereador Netinho (PSDB) no intuito de melhorar o conteúdo dos PLs. Todos nós estamos nos esforçando ao máximo para que nossas reivindicações cheguem a bom termo. Paralelamente, decidimos acompanhar todas as votações em plenário para garantir o voto favorável de cada parlamentar às reivindicações de centenas de milhares de servidores públicos da ativa e aposentados que esperam, pacientemente, há muitos anos, condições melhores de trabalho, de remuneração e, principalmente, de respeito àintegridade profissional, intelectual e moral.
Ocupamos as galerias portando faixas e bandeiras e reivindicando aquilo que nos é de direito. Se sairemos vitoriosos desse embate? Dependerá, evidentemente, da correlação de forças e da capacidade de persuasão. Esperamos lograr êxito.
Mas, ao mesmo tempo, sinto que essa batalha não se restringe simplesmente a um embate entre empregador e empregado. Se fosse assim, seria até mais fácil, porque as regras do jogo estariam dadas antecipadamente. Mas, não. Além dos servidores públicos, sejam eles federais, estaduais ou municipais, enfrentar a voracidade com que os sucessivos governos tratam a questão pública e, principalmente, a forma com que desprezam nossa opinião e capacidade de propormos alternativas aos problemas de gestão e de eventuais crises, nos deparamos, todos os dias, durante décadas, com um verdadeiro massacre da mÃÂdia.
O Executivo encontrou, enfim, um fiel escudeiro. A chamada grande imprensa que nos anos 60 e 70 enfrentou a censura, resistiu àadversidade polÃÂtica e defendeu a democracia, aos poucos, rendeu-se aos mimos do capital. Com o passar dos anos, adotou novas posturas, reciclou suas redações e reescreveu tudo aquilo que defendeu no passado. Hoje, julga-se acima do bem e do mal e comporta-se como ser onipotente e onisciente.
A mÃÂdia rasgou, sem pudores, seus próprios manuais, desprezou a ética e subjugou o consciente coletivo. De um lado, alia-se às concepções conservadoras sobre o Estado contra as organizações populares e partidos polÃÂticos não alinhados com seus interesses e, de outro, rende-se ao interesses do capital privado.
E nós, servidores públicos? Aparentemente, somos tratados como o elo mais fraco da corda. Ao menosprezar e diminuir a importância da participação do Estado na economia e do evidente crescimento das organizações sociais, a imprensa corrobora com o conservadorismo de importantes setores da sociedade que insistem em apontar o funcionalismo como o grande culpado pelas mazelas com que se encontram os serviços públicos. Ajudam a cristalizar na opinião pública a idéia de que os serviços públicos não prestam e nós, os servidores, somos os responsáveis.
Tanto os conservadores, quanto a sua grande mÃÂdia fazem coro, de braços dados, nas páginas dos jornais e das revistas, nos programas de televisão ou de rádio, ou nos pronunciamentos das tribunas ao apontarem as soluções dos problemas, sem tangiversarem ou esconderem o que pensam. O foco das atenções da mÃÂdia e dos conservadores, seja por concepção ideológica, seja por interesse econômico, não está, evidentemente, em destratar os servidores públicos, pura e simples, mas para justificar as terceirizações e as privatizações em curso. E todos nós sabemos que é isso que importa nessas relações.
Em São Paulo, a "ordem do dia" está na contenção dos gastos com o funcionalismo, na diminuição dos quadros, na recusa em ofertar concursos públicos àcidade, na defesa das chamadas Organizações Sociais e na atuação de grandes empresas privadas no planejamento, execução e gerência de obras públicas. E o que é pior, livres para fazerem o que bem entenderem sem a necessidade de prestar contas ao Estado ou ao MunicÃÂpio, mesmo que esta irresponsabilidade provoque tragédias. Uma polÃÂtica deliberada que tem até nome: choque de gestão.
Mas não só. A mÃÂdia, além de fazer suas escolhas polÃÂtico-ideológicas, também sabe atacar com frieza e crueldade. Em 2005, independentemente das opiniões que temos sobre os fatos, desferiu uma espetacular campanha contra o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores ao jogar luz a cada denúncia, mesmo que absolutamente sem provas, vindas de certos setores partidários. Na mesma balada, a mÃÂdia eletrônica deu um espetáculo de parcialidade e um show de distorção da informação durante a cobertura do acidente com o avião da TAM, quando se chocou com um prédio da própria companhia, vitimando cerca de 200 pessoas. Trinta minutos após, o noticiário já estava culpando o governo federal, cobrando explicações e apontando causas. No entanto, passados meses de um trágico acidente na construção da Linha 4 do Metrô de São Paulo, quando também morreram pessoas, nenhum jornal, site, rádio ou televisão, salvo rarÃÂssimas e honrosas exceções, cobraram do governador ou das empresas envolvidas uma explicação. O governador, até hoje, não se manifestou.
Estamos nas mãos da mÃÂdia? Talvez um dos grandes erros do governo federal tenha sido minimizar o debate sobre a democratização dos meios de comunicação, como que aceitando que quatro famÃÂlias detentoras dos meios privados, queiram deter o monopólio da formação da opinião pública.
Há que se contrapor a isso. Mas, não tenho ilusões: a mÃÂdia não se democratizará e nós, trabalhadores, haveremos de deixar a retórica de lado para partir para a prática. No entanto, tratar destas questões com tanta contradição interna é, novamente, apostarmos em experiências que certamente fracassarão. As esquerdas têm experiências acumuladas suficiente para negociar entre si a constituição de um grande jornal de esquerda no Brasil, ao mesmo tempo em que devemos partir, unificados, em defesa da universalização do direito àantena e da constituição de um conselho da sociedade civil que estabeleça formas de controle público dos processos de concessão de rádios e TVs. Isso só para começar. Sugestões não faltam.