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Artigo

A informação e a novela da mídia

Publicado: 30 Abril, 2008 - 00h00 | Última modificação: 29 Agosto, 2014 - 15h55

O caso da menina Isabela é mais uma prova da verdadeira aberração em que se transformaram os monopólios de mídia em nosso país, transformando a comunicação em espetáculo, uma simples mercadoria, reduzindo a liberdade de imprensa à liberdade de empresa.

 

Assim, pouco importa que o indivíduo do outro lado do balcão de seu negócio seja uma criança, inocente e indefesa frente ao verdadeiro ritual dos horrores divulgados, numa corrida incessante por detalhes cada vez mais sórdidos e sangrentos. Assim, divulgam sem o menor pudor a qualquer horário, ininterruptamente, o que consideram ser vendável, o que julgam que irá alavancarr a sua audiência.

 

Na semana do assassinato, a novela Duas Caras, da Rede Globo, tentou fazer um paralelo com o crime, colocando uma de suas personagens no papel da algoz. Por meio de tentativa de afogamento virtual de uma criança, a emissora deu uma sobrevida à macabra trama.

 

É inadmissível que neste país de dimensões continentais, apenas e tão somente seis grupos empresariais comandem 80% dos veículos, 90% do faturamento e 95% da audiência da comunicação eletrônica de massa (dados do Intervozes). Estes números por si só já demonstram a necessidade da atualização do marco regulatório da comunicação social no país, que se faz mais do que urgente, inadiável. Ainda mais num momento de digitalização e convergência tecnológica dos serviços e plataformas de comunicação, que tanto podem contribuir para uma maior socialização da produção e da distribuição de conteúdos, como para agravar ainda mais a já descabida concentração.

 

Proposta pela CUT e pelos movimentos sociais, a Conferência Nacional de Comunicação deve vir justamente para colocar em xeque a existência de monopólios de mídia que tratam o espectador como um mero consumidor, despido de censo crítico, a quem podem agredir impunemente. Violência que abrange todos os campos, e é política, ideológica, estética, cultural...

 

Por isso temos nos empenhado na construção de instrumentos que contribuam para a democratização da comunicação e auxiliem, ainda que modestamente, na disputa de hegemonia, com olhar e compromisso de classe. Nesta caminhada, acreditamos que temos de fazer todo o possível para garantir a realização de uma Conferência Nacional de Comunicação para debater estas questões.

Uma Conferência que tenha um caráter amplo e democrático, abrangendo representações do governo, da sociedade civil e dos empresários, que leve em conta as diferentes realidades regionais, potencializando as contribuições vindas desde os Estados e municípios, cuja participação e sensibilização será decisiva para o seu êxito. Assim como nas demais conferências promovidas em outras áreas como Saúde, Cidades, Segurança Alimentar e Cultura, o executivo, o legislativo e a sociedade civil devem somar esforços, dando voz aos que não têm voz.

 

A mídia em nosso país é atualmente um verdadeiro latifúndio que produz desinformação, alienação, consumismo, futilidades, egocentrismo, banalização do sexo e da violência, trabalhando 24 horas por dia para desconstruir a consciência crítica, a independência, a reflexão e o humanismo. Colocar abaixo estas cercas da ignorância é, pois, abrir os horizontes para o presente e o futuro, para o novo Brasil que estamos construindo.