2015 será tão longo quanto 2014
Publicado: 18 Setembro, 2015 - 00h00 | Última modificação: 18 Setembro, 2015 - 12h35
Quando o ano de 2014 se iniciava tornou-se jargão nos circuitos sindicais a expressão “bem-vindo 2015”. Isto se deveu às expectativas em torno da Copa do Mundo FIFA no Brasil e ao processo eleitoral de outubro. Ambos gerariam bastante dinamismo no país tornando a passagem do tempo imperceptível. Previa-se maus tempos na conjuntura política uma vez que o jargão “não vai ter Copa” era dito aos quatro ventos, supondo-se uma reedição das manifestações de junho 2013.
Houve a Copa. Apesar do vexame que a seleção brasileira deu ao ser derrotada pela alemã por 7 a 1, e apesar do gesto deselegante de uma torcida elitizada de vaiar a presidenta Dilma na abertura do mundial. Quanto às eleições as turbulências foram maiores.
O fato marcante da eleição foi sem dúvida o trágico acidente aéreo envolvendo o então candidato pelo PSB à presidência da República, Eduardo Campos. Sucedeu-se uma comoção nacional. Logo após, Marina Silva, indicada para substituir Campos, disparou nas pesquisas. E o que se viu até o fim das eleições foi uma verdadeira gangorra nas intenções de voto.
O candidato pelo PSDB, Aécio Neves, foi para o segundo turno com a presidenta Dilma, do PT. Nesta etapa eleitoral os dois projetos mais uma vez se antagonizaram acirradamente. Porém, desta vez ficou muito mais evidente as forças políticas de cada lado. Boa parte da esquerda, mesmo as mais críticas ao PT, optou pela candidatura Dilma. Entidades sindicais de maior expressão também mantiveram a coerência optando novamente pelo projeto que mais se aproximava de uma visão de esquerda.
A presidenta Dilma se reelegeu apresentando uma plataforma eleitoral mais sensível à classe trabalhadora. A vitória gerou euforia. Porém, o dinamismo previsto vai até aqui. Por um lado o Congresso Nacional, notadamente a Câmara dos Deputados, passa a ter uma nova configuração com um viés mais conservador e reacionário. Por outro, o governo reeleito ainda sem tomar posse do novo mandato nomeia para o Ministério da Fazenda o economista Joaquim Levy, nome acalentado pelo mercado. O novo ministro tira da cartola as nocivas MPs 664 e 665, que restringem o acesso a direitos trabalhistas.
Em resumo, 2014 foi um misto de euforia e lamento. Euforia por sediar a Copa, lamento pelos altos custos com as obras. Euforia pela vitória do campo popular, lamento pelas decisões tomadas pelo governo e pela desfiguração do Congresso, imposto pelo poder econômico. Ou seja, 2014 poderia ser mais curto!
Com a sensação de que 2014 demorou mais do que devia, chegamos em 2015 com fadiga. O que se segue é uma aflição que parece não ter fim, e o tempo é sentido como chumbo, parece ter parado. Os prognósticos de maus agouros para a classe trabalhadora começam a se confirmar.
Já entramos em 2015 com o saldo negativo com as medidas do governo. De outro lado o Congresso faria jus a sua nova faceta reacionária, tendo à frente a senil raposa Eduardo Cunha. Vieram: o PL 4330, da terceirização; a redução da maioridade penal; a lei anti-terror etc. E mais recente o presidente do Senado, Renan Calheiros, apresenta a famigerada Agenda Brasil para “salvar a pátria”. Com a popularidade em baixa, o governo propõe uma plataforma de enfrentamento da crise diferente da apresentada na campanha, a mesma que não deu resultado nos países europeus.
Uma vez mais a conjuntura enseja o protagonismo dos trabalhadores e trabalhadoras deste país. Se no campo político somos chamados para resistir pela democracia, ainda nova no Brasil. No campo econômico entendemos que a crise fiscal por que passamos deve ser cobrado de quem a gerou. As grandes fortunas de poucos nesse país não podem se manter intocadas. Muito menos os setores rentistas, parasitas do Estado, devem ficar a salvos. Por isso os trabalhadores já estão nas ruas pedindo que as verdadeiras reformas ocorram e que a fatura da crise vá para seus verdadeiros responsáveis.
Se 2014 não foi curto, 2015 parou o relógio de Acaz. A certeza que temos é que a classe trabalhadora uma vez mais será decisiva no processo e o ponteiro voltará a girar.