Escrito por: Walber Pinto

Bahia lidera pesquisa mineral no Nordeste e amplia papel na transição energética

Encontro em Salvador discutiu mineração estratégica, geração de empregos e relembrou a contribuição de Daniel Gaio para a pauta da transição energética justa

Walber Pinto

A mineração no estado da Bahia, vive um novo ciclo de expansão impulsionado pela corrida global por minerais estratégicos utilizados na transição energética, como vanádio (encontrado em minérios de chumbo ou ferro), níquel (elemento químico de número atômico 28, classificado como metal de transição), grafita (elemento nativo composto de carbono), cobre e terras raras. O estado já ocupa a terceira posição na produção mineral brasileira, atrás apenas de Minas Gerais e Pará, e lidera os investimentos em pesquisa mineral no Nordeste.

Em meio a esse avanço, especialistas, pesquisadores, sindicalistas e representantes do setor público defenderam, durante debate realizado na segunda mesa da tarde do encontro sobre mineração e transição energética, a necessidade de transformar o potencial mineral em desenvolvimento regional, geração de empregos qualificados e soberania nacional.

O debate apresentou um diagnóstico atualizado da mineração no Nordeste, com destaque para a Bahia, abordando as principais cadeias produtivas, os impactos econômicos, sociais e ambientais da atividade, além de questões como arrecadação, conflitos territoriais, condições de trabalho e verticalização da produção mineral.

As discussões também dialogaram com a proposta defendida pela CUT de uma transição energética justa, baseada na participação dos trabalhadores e na distribuição social dos benefícios gerados pela exploração mineral.

O seminário “Mineração no Brasil: Soberania, Desenvolvimento e Salvaguardas Trabalhistas e de Negociação Coletiva”, que acontece em Salvador nesta segunda-feira (11) e terça-feira (12), é organizada pela CUT, por meio da Secretaria Nacional de Políticas Sociais e Direitos Humanos.

O evento conta com a parceria do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Extração, Pesquisa e Benefício de Ferro, Metais Básicos e Preciosos de Serrinha e Região (Sindimina), além do apoio do Fundo Labora de Trabalho Digno, da CUT Bahia e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Saiba Mais

Bahia, terras de todos os minérios

Geólogo da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), Willame Cocentino destacou que a Bahia possui uma diversidade mineral única no país e reúne condições estratégicas para assumir protagonismo na nova economia global ligada à transição energética.

“Hoje a gente é o terceiro lugar na produção mineral do Brasil. A Bahia lidera no Nordeste os investimentos em pesquisa mineral e mais de 200 municípios produzem algum tipo de commodity mineral”, afirmou.

Segundo ele, o estado possui características geológicas que o colocam em posição privilegiada no cenário internacional. Entre os destaques estão a única mina de vanádio das Américas, localizada em Maracás, e a mina de níquel sulfetado de Santa Rita, em Itagibá, considerada estratégica para a produção de baterias.

“A Bahia tem essa particularidade de uma diversidade muito grande. Temos urânio, cobre, ouro, grafita, fosfato, vanádio, níquel e minerais críticos fundamentais para a transição energética”, explicou.

Cocentino ressaltou ainda que regiões entre Bahia e Piauí concentram minerais considerados essenciais para a nova indústria energética global.

“Você vê níquel, cobre, cobalto, fosfato, ferro, titânio, vanádio, grafita e terras raras. Isso tem potencial para tornar a Bahia ainda mais protagonista em minerais críticos e estratégicos”, disse.

Durante a apresentação, o geólogo defendeu a verticalização da cadeia produtiva mineral como forma de ampliar empregos qualificados e evitar que o estado permaneça apenas como exportador de commodities.

“Quando o projeto chegou, a ideia era mandar a areia para os Estados Unidos e produzir lá o vidro solar. A CBPM negociou para que a planta industrial fosse instalada aqui na Bahia. Vai ser a primeira planta de vidro solar fora da China”, afirmou.

Para ele, o fortalecimento da industrialização mineral pode transformar economicamente regiões do interior baiano. “A mineração consegue trazer desenvolvimento regional, empregos qualificados e dinamizar municípios inteiros. Itagibá sentiu fortemente quando a mina de Santa Rita suspendeu atividades. Isso mostra o impacto econômico que o setor possui”, pontuou.

Bahia possui a segunda maior reserva de terras raras

As chamadas terras raras ganharam centralidade no debate sobre soberania mineral e transição energética. Utilizados em equipamentos eletrônicos, turbinas eólicas, carros elétricos, baterias e tecnologias de defesa, esses minerais se tornaram estratégicos na disputa econômica internacional.

Segundo Willame Cocentino, a Bahia concentra parte significativa das áreas em pesquisa no país.

“A Bahia tem uma importante concentração de depósitos de terras raras. Cerca de 40% das áreas em pesquisa de terras raras no Brasil estão aqui”, destacou.

As áreas estão concentradas principalmente no sudoeste e sudeste do estado, em uma faixa geológica considerada altamente promissora.

Além das terras raras, a CBPM também desenvolve pesquisas em grafita, ouro, zinco, chumbo, prata e fosfato. Em Irecê, por exemplo, a retomada da mineração de fosfato pela Galvani poderá abastecer até 30% da demanda nacional de fertilizantes fosfatados.

A CBPM informou que já executou mais de 500 projetos técnicos ao longo de seus 53 anos de existência. Segundo o geólogo, cerca de 22% da produção mineral baiana ocorre em áreas originalmente pesquisadas pela companhia.

“Foi investido pela CBPM cerca de 175 milhões de dólares em pesquisa mineral, o que atraiu mais de 6 bilhões de dólares em investimentos privados ao longo dessas décadas”, afirmou.

A empresa também atua como principal banco de dados geológicos do estado. Segundo Cocentino, a Bahia foi o primeiro estado brasileiro a atingir 100% de cobertura aerogeofísica em escala regional.

“Hoje, todos os dados geofísicos produzidos pela CBPM estão sendo disponibilizados publicamente. A ideia é fomentar inovação, pesquisa e desenvolvimento econômico”, explicou.

Oportunidades no campo da mineração

Técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Nadia Vieira apresentou um panorama do setor mineral sob a ótica do mercado de trabalho, da dinâmica industrial e da disputa econômica em torno da renda mineral.

Segundo ela, as indústrias extrativas seguem apresentando desempenho acima da média nacional, mesmo diante do cenário de desindustrialização enfrentado pelo país.

“A dinâmica das indústrias extrativas é maior do que a dinâmica da indústria em geral. Isso significa mais investimentos, mais contratação e mais atividade econômica”, afirmou.

Nadia explicou que, embora a mineração tenha participação relativamente pequena no Produto Interno Bruto (PIB), o setor ganha enorme relevância quando analisado o peso das exportações e da geração de renda.

“Quando olhamos para exportações, investimentos e arrecadação, a mineração assume uma proeminência muito maior. É daí que vêm empregos, renda e a disputa sobre quem se apropria da riqueza mineral”, disse.

Ela destacou ainda o crescimento acelerado das concessões minerais ligadas aos chamados minerais críticos e estratégicos.“Em apenas duas décadas do século XXI houve uma explosão de concessões de lavra para minerais como lítio, grafita, cobre, vanádio e terras raras. O ritmo é muito superior ao observado ao longo do século passado”, explicou.

Para a economista, o debate sobre soberania mineral passa necessariamente pelo papel do Estado na condução da política econômica.“Soberania é a capacidade de um país conduzir o próprio destino. Quando falamos em soberania popular, estamos falando da capacidade do povo decidir como utilizar suas riquezas minerais”, afirmou.

Nadia também criticou mecanismos de renúncia fiscal e questionou o baixo retorno social da exploração mineral em determinados municípios.

“A mineração recebe muito apoio estatal. Quando se observa municípios mineradores extremamente pobres, fica evidente a necessidade de discutir como essa riqueza está sendo distribuída”, pontuou.

Números de vínculos formais na extração mineral Nordeste e Bahia, 2022 a 2024

Os dados apresentados pelo Dieese mostram que o setor mineral segue ampliando empregos formais no Nordeste e na Bahia, ainda que os números oficiais não incluam trabalhadores terceirizados.

Em 2024, o Nordeste registrou 35,3 mil vínculos formais na extração mineral. Desse total, 15,5 mil estavam concentrados na Bahia.

“Os dados não incluem terceirizados porque muitos trabalhadores aparecem em outras classificações econômicas, como construção civil, engenharia e pesquisa. O total de trabalhadores da mineração é maior do que o registrado oficialmente”, explicou.

Mesmo assim, o crescimento do emprego no setor supera a média dos empregos formais da economia.“O crescimento dos empregos formais na mineração está acima do crescimento dos empregos formais no Brasil, no Nordeste e na Bahia”, afirmou.

Os dados também mostram forte desigualdade salarial. Enquanto a remuneração média na extração de minerais metálicos ultrapassa R$ 7 mil, grande parte dos trabalhadores recebe valores bem inferiores.

“A média salarial é alta, mas extremamente desigual. Uma parcela muito pequena ganha muito e uma parcela muito grande ganha pouco”, observou Nadia.

Segundo o Dieese, o Nordeste possui cerca de 3,8 mil estabelecimentos ligados à mineração, principalmente em atividades não metálicas, como pedreiras e extração de cascalho destinados à construção civil.

Homenagem e Legado: Daniel Gaio fortaleceu proposta da CUT por transição energética justa

Em homenagem a Daniel Gaio, ex-dirigente da CUT falecido no dia 30 de abril de 2026, a secretária de Políticas Sociais e Direitos Humanos da CUT, Jandyra Uehara, relembrou a contribuição do sindicalista para a construção da proposta da Central sobre transição energética justa. Segundo ela, Daniel teve papel decisivo para que a CUT formulasse uma visão própria sobre o tema, baseada na participação dos trabalhadores e na defesa de uma transição que não deixasse ninguém para trás.

Jandyra recordou a participação ao lado de Daniel na COP de Paris, em 2015, apontada como um marco no início do debate sobre transição energética justa no movimento sindical. De acordo com a dirigente, quando o tema ainda era pouco discutido entre as organizações de trabalhadores, Daniel já atuava para aprofundar a compreensão de que as mudanças no modelo energético precisavam garantir proteção aos empregos, direitos e presença da classe trabalhadora nas formulações.

“Quem contribuiu efetivamente para que a gente pudesse ter uma proposta dos trabalhadores da CUT no campo da transição energética foi o companheiro Daniel Gaio”, afirmou Jandyra ao destacar o papel do ex-dirigente no aprofundamento do debate dentro da Central.

A dirigente também ressaltou que a homenagem a Daniel não se limita à lembrança de sua trajetória sindical e humana, mas envolve a continuidade de um legado político construído ao longo dos anos. Segundo ela, um tema que em 2015 ainda era novo para o campo sindical hoje ganhou relevância estratégica para a classe trabalhadora, mantendo viva a contribuição deixada por Daniel na atuação da CUT.