Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

Mulheres são maioria nas urnas, mas ainda têm pouco espaço no poder

Elas são 52,84% do eleitorado, mas apenas 34,8% das candidaturas. Para a CUT, ampliar a representação feminina é parte da luta por democracia e direitos

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Joedson Alves | Agência Brasil

Quase 84 milhões de mulheres poderão votar nas eleições de outubro. Elas são 52,84% do eleitorado brasileiro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na lista de candidaturas, porém, a realidade é inversa. As mulheres representam apenas 34,8% dos registros apresentados para as eleições de 2026.

Ao todo, são 7.138 candidatas entre 20.501 nomes, de acordo com os dado do TSE. É o maior percentual já registrado no país, mas o avanço foi pequeno. Em relação às eleições de 2022, o aumento foi de apenas um ponto percentual.

A distância aumenta quando se olha para quem já ocupa o poder. Hoje, as mulheres são 91 entre os 513 integrantes da Câmara dos Deputados, o equivalente a 17,7%. No Senado, elas ocupam 15 das 81 cadeiras.

Quem forma a maioria nas urnas continua longe de participar, na mesma proporção, das decisões do país. A afirmação é da secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino. Ela reforça ainda que é preciso a sociedade ter outro olhar sobre o que é, de fato, representatividade.

“A sociedade brasileira precisa olhar com mais atenção para quem elege para a Câmara e o Senado. Nas últimas legislaturas, o país escolheu representantes que estão longe de refletir a realidade do povo brasileiro e de defender suas verdadeiras demandas. A baixa presença de mulheres nesses espaços é parte desse problema e continua muito aquém do que seria justo” afirma Amanda.

Candidaturas avançam, mas devagar

O crescimento das candidaturas femininas não ocorre da mesma forma em todas as disputas. As mulheres são 36,6% dos nomes para a Câmara dos Deputados, 35,5% para a Câmara Legislativa do Distrito Federal e 34,4% para as assembleias estaduais. Para o Senado, a participação cai para 21,9%.

A presença é ainda menor nas eleições para o Executivo, nas quais a cota de gênero não se aplica. As mulheres representam 16,4% das candidaturas aos governos estaduais e somente 15,4% das que concorrem à Presidência da República.

O recorte racial mostra outra parte do problema. As mulheres pretas e pardas são 52,3% das candidaturas femininas, mas apenas 18,2% do total de concorrentes. São 3.731 candidatas negras. Para as eleições de 2026 houve também o registro de 107 candidaturas de pessoas trans, um novo recorde. Pela primeira vez, o TSE incluiu a identidade de gênero em suas estatísticas oficiais.

A disputa começa dentro dos partidos

A lei determina que partidos e federações reservem entre 30% e 70% das candidaturas proporcionais para pessoas de cada sexo. A regra abriu caminho para mais mulheres nas urnas. Mesmo assim, o recorde de 2026 continua pouco acima do mínimo exigido.

Registrar uma candidatura também não basta. Para disputar de verdade, é preciso ter dinheiro, equipe, visibilidade e tempo de campanha. A Emenda Constitucional 117/2022 determina que pelo menos 30% dos recursos dos fundos partidário e eleitoral sejam destinados às candidaturas femininas. Quando o número de candidatas passa desse percentual, o repasse deve crescer na mesma proporção.

Ainda há outro obstáculo: a violência política de gênero. Ameaças, assédio, ataques e mentiras espalhadas nas redes tentam afastar mulheres da disputa e enfraquecer aquelas que já exercem mandato. Mulheres negras, indígenas, periféricas e LGBTQIA+ são atingidas de forma ainda mais dura.

“O voto é livre, e cada pessoa tem o direito de escolher quem considera melhor. Mas essa decisão precisa ser consciente. Antes de votar, é fundamental conhecer as propostas, os compromissos e os propósitos de cada candidatura. Precisamos eleger quem realmente representa nossas pautas e defende a classe trabalhadora” afirma Amanda.

Quem decide também define prioridades

Essa escolha tem efeitos concretos na vida das mulheres. É no Congresso e nos governos que que se dá o caminho das políticas públicas voltadas às mulheres. São os espaços onde se decide quanto será investido em creches, saúde e políticas de cuidado. Também é nesses espaços que avançam - ou ficam paradas - medidas sobre jornada de trabalho, igualdade salarial e combate à violência.

A desigualdade de gêneros é latente na sociedade e por isso, essas decisões têm peso fundamental. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2022, as mulheres dedicavam 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas. Na prática, elas trabalhavam quase dez horas a mais por semana sem receber por isso.

É por essa razão que a CUT também trata o fim da escala 6x1 como uma pauta das mulheres. Com apenas um dia de folga, muitas usam o pouco tempo livre para dar conta das tarefas acumuladas em casa.

“A jornada de trabalho total, ou seja, a jornada remunerada somada à jornada não remunerada, é muito maior para as mulheres. Por isso a redução é fundamental, especialmente para quem vive dupla ou até tripla jornada” diz Amanda.

A desigualdade também chega ao salário. O 5º Relatório de Transparência Salarial, divulgado em abril de 2026, mostrou que as mulheres recebiam, em média, 21,3% menos que os homens. O levantamento reuniu informações de cerca de 53,5 mil empresas privadas com cem ou mais empregados.

O dado compara a remuneração média de mulheres e homens nessas empresas. Não quer dizer que todas as pessoas analisadas exerçam a mesma função. Já a Lei nº 14.611/2023 garante salário igual para trabalho de igual valor ou para o exercício da mesma função. A norma também prevê transparência, fiscalização, canais de denúncia e medidas para reduzir as diferenças.

Mais presença e compromisso com direitos

Para a CUT, aumentar o número de mulheres na política é necessário, mas a representação não pode ser apenas numérica. A entidade defende candidaturas comprometidas com a democracia, a liberdade, a autonomia das mulheres e os direitos da classe trabalhadora.

“Precisamos de mais mulheres no Parlamento para que haja equidade real na distribuição de poder. Quando ampliamos a presença feminina comprometida com a democracia e com uma visão progressista, as políticas públicas deixam de ser promessa e passam a transformar a vida das pessoas. Mas é fundamental escolher representantes alinhadas à defesa da liberdade, da autonomia sobre nossos corpos e nossas trajetórias. Há mulheres que atuam em defesa de projetos conservadores que contrariam direitos históricos e restringem avanços fundamentais” afirma Amanda.

Para a dirigente, a mudança não termina nas eleições. Ela também passa pelo combate à misoginia, pela educação de meninos para relações baseadas no respeito e pela cobrança de medidas contra ataques às mulheres nas redes sociais.

“Não é aceitável que mulheres sejam maioria no país e nas urnas, mas continuem com menos de um quinto das cadeiras no Congresso. Essa realidade torna evidente uma desigualdade histórica que ainda estrutura a política brasileira” afirma Amanda.

Por isso, ela pontua, as eleições de 2026 podem ajudar a reduzir essa distância. “Partidos precisam abrir espaço, financiar candidaturas competitivas e cumprir as regras sem fraude. Ao eleitorado, cabe olhar para os nomes, conhecer as propostas e escolher quem está disposto a transformar em decisão política as necessidades da maioria da população”, diz.