Escrito por: Redação CUT

Fila do osso e resto de peixe: a classe trabalhadora não esquecerá as marcas da fome

Cenas de famílias em busca de ossos e partes descartadas de pescado marcaram 2021 e expuseram o avanço da fome durante o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro

Ahead/CUT

As imagens de famílias brasileiras em filas para receber ossos com pequenos pedaços de carne e de pessoas recorrendo a restos de peixe para colocar comida na mesa correram o Brasil e ganharam repercussão internacional em 2021. A chamada “fila do osso”, registrada em diferentes cidades, tornou-se uma das imagens mais marcantes do avanço da fome e da pobreza durante o governo de Jair Bolsonaro, marcado por uma desastrosa condução da economia que gerou desemprego, inflação dos alimentos e perda do poder de compra.

Naquele período, sem outra alternativa, famílias passaram a buscar alimentos que, em outras circunstâncias, seriam descartados ou destinados a animais. A situação se repetiu em diferentes regiões do país e expôs as dificuldades enfrentadas por milhões de brasileiros para garantir a alimentação diária.

Um açougue em Cuiabá (MT) distribuía gratuitamente ossos com retalhos de carne. Segundo o estabelecimento, a procura aumentou durante a crise: a distribuição, que antes ocorria uma vez por semana, passou a ser feita três vezes por semana. As filas ganharam repercussão nacional após serem mostradas em reportagens de televisão.

No Rio de Janeiro, estabelecimentos também distribuíam ossos que anteriormente eram destinados a animais. Em Florianópolis (SC), um açougue chegou a vender o produto. Após a repercussão nas redes sociais e a pressão do Procon, o estabelecimento recuou.

Em Belém (PA), outro episódio chamou atenção naquele mesmo período. Um supermercado comercializava por R$ 3,90 o quilo restos de peixe, como vísceras, espinhas e cabeças. O produto passou a ser procurado por famílias que enfrentavam dificuldades para comprar alimentos básicos.

Fome voltou a atingir milhões de brasileiros durante o governo Bolsonaro

A situação ocorria em meio à alta dos preços dos alimentos e ao agravamento da crise econômica provocada pela pandemia e pela falta de uma ação assertiva do Paulo Guedes, então ministro da Economia. O desemprego e a redução da renda das famílias ampliavam as dificuldades para garantir as refeições diárias.

Dados divulgados em 2021 apontavam mais de 19 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar grave, contra aproximadamente 10 milhões dois anos antes.

As imagens registradas naquele período ultrapassaram as fronteiras do país e se tornaram conhecidas internacionalmente. Filas de trabalhadores e famílias em busca de ossos com restos de carne e de partes descartadas de peixes revelaram a dimensão da insegurança alimentar vivida no Brasil.

As imagens registradas naquele momento em que famílias brasileiras precisaram recorrer a alimentos que antes eram destinados ao descarte para garantir uma refeição foi uma marca da fome que o Brasil não deve esquecer.

A dimensão daquela crise pode ser medida também pelos números. Entre dezembro de 2020 e abril de 2022, o total de pessoas passando fome no Brasil saltou de 19 milhões para 33,1 milhões, um aumento de 74%. Em apenas um ano, 14 milhões de brasileiros passaram a conviver com a fome dentro de casa.

O percentual da população nessa situação também cresceu rapidamente: era de 5,8% em 2018, passou para 9% em 2020 e chegou a 15,5% em 2022. Por trás desses números estavam a crise econômica, o desemprego, a informalidade e a disparada da inflação.

Foi nesse cenário que as imagens da “fila do osso” e de famílias recorrendo a restos de peixe ganharam o mundo. Mais do que registros de uma crise, elas ficaram na memória como retratos de um período em que milhões de brasileiros tiveram de enfrentar a fome para conseguir sobreviver. São imagens que a classe trabalhadora não esquecerá.