Em 40 anos, mulheres trabalhadoras levaram para a CUT os debates sobre o cuidado, os direitos reprodutivos, a disputa pelo tempo e o enfrentamento permanente à violência e ao feminicídio
Ao longo de 40 anos, as mulheres da CUT construíram um caminho de lutas pelo direito de ocupar seu justo lugar na sociedade. Trata-se de uma trajetória pela liberdade de escolha, pela igualdade no trabalho, nos espaços sociais e nas instâncias de poder. Também pela autonomia sobre o próprio corpo e pelo direito de viver sem exploração, discriminação ou violência.
Nos últimos anos, uma dessas lutas ultrapassou as fronteiras do movimento sindical e ganhou ainda mais urgência na sociedade: o enfrentamento ao feminicídio.
O aumento dos casos e a banalização da violência contra as mulheres exigiram respostas do poder público, das organizações sociais, das empresas e dos sindicatos. Por isso, a CUT aderiu ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio e lançou a campanha permanente “Pela vida das mulheres, a luta é de todos”.
A iniciativa é resultado de uma construção feita pelas mulheres cutistas ao longo de quatro décadas. Muitas das pautas de luta nesse período também representam formas de violência como a falta de autonomia econômica, a sobrecarga do cuidado, o assédio, a discriminação e a exclusão dos espaços de decisão.
Resgate histórico
Para compreender como essa agenda foi construída, é preciso voltar ao fim dos anos 1980.
Quando as mulheres da CUT lançaram a campanha “Creche para todos”, fizeram uma pergunta que o movimento sindical ainda não estava acostumado a responder: quem cuida das crianças enquanto as mães trabalham, participam de assembleias ou assumem funções sindicais?
A pergunta mexia com uma desigualdade profunda. Sem creches públicas, muitas mulheres não conseguiam entrar no mercado de trabalho ou permanecer no emprego. Outras dependiam da família, levavam os filhos às atividades sindicais ou deixavam de participar das decisões porque não tinham com quem dividir o cuidado.
Ao transformar a creche em reivindicação sindical, as trabalhadoras mostraram que a desigualdade não começava nem terminava na porta da empresa. Ela continuava dentro de casa, na divisão das tarefas, na falta de tempo e na responsabilidade quase exclusiva pelas crianças e por outros familiares.
Quatro décadas depois, essa discussão se ampliou.
A luta por creches chegou à economia do cuidado. A reivindicação por jornadas menores ganhou força com o combate à escala 6x1. A defesa da autonomia passou a incluir os direitos sexuais e reprodutivos. O enfrentamento ao assédio avançou para a construção de um protocolo interno e de uma campanha permanente contra o feminicídio.
São lutas de épocas diferentes, mas ligadas pela mesma questão: as mulheres têm direito ao trabalho, ao tempo, à autonomia, à participação política e a uma vida livre de violência.
Quando o cuidado entrou na pauta sindical
A campanha “Creche para todos” foi uma das primeiras mobilizações nacionais organizadas pelas mulheres da CUT.
Em 1988, o 1º Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora aprovou o dia 12 de outubro como Dia Nacional de Luta por Creche. A iniciativa buscava envolver sindicatos, categorias e direções estaduais em uma reivindicação que atravessava a vida das trabalhadoras.
A defesa da creche não se limitava à abertura de vagas.
As mulheres reivindicavam equipamentos públicos, gratuitos, de qualidade e em período integral. Também questionavam a ideia de que cuidar dos filhos era uma responsabilidade natural e exclusiva das mães.
Essa divisão afetava o emprego, a renda e a participação sindical.
Uma mulher sem acesso à creche tinha mais para se inserir no mercado de trabalho , inclusive participar de cursos de formação. A campanha ajudou a CUT a compreender que a igualdade no mercado de trabalho exige políticas públicas para além dos locais de trabalho.
Décadas depois a Hoje, a pauta foi ampliada para a "economia do cuidado" que reúne as atividades necessárias para sustentar a vida. Envolve o cuidado com crianças, pessoas idosas, pessoas com deficiência, doentes ou qualquer pessoa que necessite de apoio. Inclui ainda os afazeres domésticos, como preparar alimentos, limpar a casa e organizar a rotina familiar.
Grande parte desse trabalho continua sendo realizada gratuitamente pelas mulheres.
Em 2022, elas dedicaram, em média, 21 horas e 36 minutos por semana ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado. Entre os homens, foram 11 horas e 48 minutos. Na prática, as mulheres trabalhavam aproximadamente dez horas a mais por semana nessas atividades, segundo levantamento do Ipea.
A desigualdade é ainda maior quando raça e renda entram na análise. Mulheres negras e pobres têm menos acesso aos serviços públicos e, muitas vezes, realizam o trabalho de cuidado para outras famílias em condições precárias.
A aprovação da Política Nacional de Cuidados, em dezembro de 2024, representou um novo passo. A lei reconheceu o cuidado como direito e estabeleceu a responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor privado.
A política dialoga diretamente com uma reivindicação apresentada pelas mulheres da CUT desde os primeiros anos de sua organização: cuidar não pode ser obrigação apenas das trabalhadoras.
Três convenções e uma mesma luta por igualdade
As Convenções 156, 189 e 190 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT, acompanham diferentes momentos dessa trajetória.
A Convenção 156 trata da igualdade de oportunidades e de tratamento para trabalhadores e trabalhadoras com responsabilidades familiares. Seu ponto de partida é que cuidar de crianças ou de outros familiares não pode impedir uma pessoa de conseguir emprego, permanecer no trabalho ou crescer profissionalmente. Essas responsabilidades também não podem ser usadas como justificativa para discriminação.
Para as mulheres da CUT, a Convenção 156 sempre esteve ligada à defesa de creches em período integral, licenças, serviços públicos e divisão equilibrada das responsabilidades familiares.
O Brasil ratificou a Convenção 156 em dezembro de 2024. A decisão fortaleceu a luta pela criação de condições para que trabalho e responsabilidades familiares possam ser conciliados sem excluir ou sobrecarregar as mulheres.
A Convenção 189, por sua vez, trata do trabalho decente para trabalhadoras e trabalhadores domésticos. A norma reconhece que quem trabalha em residências deve ter direitos e proteção como qualquer outra categoria. A discussão tem peso especial no Brasil, onde o trabalho doméstico é exercido principalmente por mulheres, com forte presença de trabalhadoras negras.
A convenção foi ratificada pelo Brasil em 2018 e promulgada em 2024.
Já a Convenção 190 enfrenta outra dimensão - a da violência e o assédio no mundo do trabalho.
Aprovada pela OIT em 2019, ela reconhece o direito de todas as pessoas a trabalhar em ambientes livres de violência. Seu alcance inclui assédio moral, assédio sexual e outras condutas que provoquem danos físicos, psicológicos, sexuais ou econômicos.
A convenção considera que a violência pode ocorrer no local de trabalho, nos deslocamentos, nas atividades profissionais, nas comunicações digitais e em outras situações relacionadas ao emprego.
O Brasil ainda não ratificou a Convenção 190. A CUT e outras entidades sindicais continuam cobrando sua aprovação.
"Não existe igualdade quando as responsabilidades familiares impedem o acesso ao emprego. Quando o trabalho doméstico é desvalorizado. Ou quando a violência expulsa mulheres dos locais de trabalho e dos espaços de representação" explica Amanda Corcino, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT.
Autonomia também entrou nas resoluções
As mulheres levaram os direitos sexuais e reprodutivos para os congressos da CUT.
Em 1991, o 4º CONCUT aprovou a defesa da descriminalização e da legalização do aborto. A decisão colocou a autonomia das mulheres e o direito de decidir entre as pautas formais da Central.
O debate encontrou resistências dentro e fora do movimento sindical.
Durante muito tempo, questões relacionadas ao corpo, à maternidade e à reprodução foram tratadas como assuntos privados. Ao levar o tema para um congresso sindical, as trabalhadoras mostraram que essas escolhas também afetam a saúde, o trabalho, a renda e a autonomia econômica.
Os congressos posteriores mantiveram os direitos reprodutivos entre as reivindicações.
A CUT passou a defender o atendimento público e seguro nas hipóteses de interrupção da gravidez permitidas pela legislação. Também se posicionou contra propostas que poderiam restringir esses direitos, como ocorreu durante as mobilizações contra a PEC 181.
Defender os direitos reprodutivos não significa tratar a maternidade como um problema. Significa garantir que nenhuma mulher seja obrigada a ser mãe, que as gestantes tenham atendimento digno e que a maternidade não resulte em punição profissional, perda de renda ou abandono pelo Estado.
Essa agenda está ligada às lutas por licença-maternidade, estabilidade, creches, saúde integral e combate à violência obstétrica.
A organização das mulheres levou a CUT a compreender que autonomia econômica e autonomia sobre o próprio corpo não podem ser separadas.
A disputa pelo direito ao tempo
A luta pela redução da jornada de trabalho faz parte da história do movimento sindical. Para as mulheres, porém, ela tem uma dimensão específica.
O fim do expediente remunerado quase nunca representa o fim do trabalho.
Ao voltar para casa, muitas trabalhadoras começam outra jornada. Preparam refeições, limpam, organizam a casa, acompanham as tarefas escolares e cuidam de crianças, pessoas idosas ou familiares doentes.
Na escala 6x1, essa sobrecarga se torna ainda mais pesada. Com apenas um dia de descanso, o pouco tempo livre costuma ser consumido pelas tarefas acumuladas.
Por isso, o fim da escala 6x1 e a redução da jornada, sem diminuição salarial, tornaram-se reivindicações importantes para as mulheres da CUT.
“A jornada de trabalho total, ou seja, a jornada remunerada somada à jornada não remunerada, é muito maior para as mulheres. Por isso a redução é fundamental, especialmente para quem vive dupla ou até tripla jornada”, afirmou a secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, em entrevista publicada pela Central.
A redução da jornada não resolve sozinha a desigualdade dentro de casa. Os homens, as empresas e o Estado também precisam assumir suas responsabilidades.
Mas diminuir o tempo dedicado ao emprego permite ampliar o descanso, a convivência familiar, o estudo, o lazer, a participação sindical e a presença das mulheres na vida política.
Em maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 221/2019, que acaba com a escala 6x1 e reduz gradualmente a jornada máxima para 40 horas semanais. O texto garante dois dias de repouso remunerado e proíbe a redução salarial.
A proposta seguiu para o Senado. Em 25 de agosto, continuava na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, sob relatoria do senador Omar Aziz. Cinco emendas haviam sido apresentadas e encaminhadas ao relator. A tramitação ainda não terminou.
Para a CUT, a mobilização precisa continuar até a aprovação definitiva. A Central também defende que a mudança não abra espaço para precarização, terceirizações ou formas de contratação que retirem direitos.
Sob a perspectiva das mulheres, a disputa não é apenas por uma nova escala. É pelo direito de ter tempo para viver.
Enfrentar a violência dentro e fora da CUT
A violência contra as mulheres também atravessa essas quatro décadas.
A pauta passou pelo combate ao assédio moral e sexual, pela defesa da Lei Maria da Penha e pelo enfrentamento à violência doméstica, política, obstétrica e digital.
Nos últimos anos, o feminicídio tornou ainda mais urgente a construção de ações permanentes.
Em maio de 2026, a CUT lançou a Campanha Permanente da CUT de Combate ao Feminicídio “Pela vida das mulheres, a luta é de todos”. A iniciativa busca transformar o combate ao feminicídio em parte da atuação cotidiana dos sindicatos, não apenas em uma mobilização realizada em datas específicas.
A campanha parte do entendimento de que a violência doméstica também chega ao trabalho. Colegas e dirigentes sindicais preparados podem identificar sinais, oferecer acolhimento e orientar o acesso aos serviços públicos.
Ao mesmo tempo, a CUT reconheceu que precisa enfrentar a violência dentro de suas próprias estruturas. O Protocolo de Prevenção e Ação em Casos de Discriminação, Assédio e Violência por Razões de Gênero foi aprovado no 14º CONCUT. Seu texto final foi consolidado na 17ª Plenária Nacional, em 2025.
O documento estabelece formas de prevenção, acolhimento, denúncia e apuração. Prevê sigilo, proteção contra retaliações e responsabilização diante de práticas discriminatórias, intimidatórias ou de assédio.
Também serve de referência para que sindicatos, federações e entidades filiadas construam seus próprios mecanismos.
“Não há projeto sindical transformador se as mulheres não estiverem protegidas dentro da própria organização”, afirmou Amanda Corcino durante a apresentação da política interna.
O protocolo expressa uma cobrança feita pelas trabalhadoras durante toda essa trajetória: a CUT precisa praticar internamente os valores que defende na sociedade.
Lutas que atravessam épocas
Da campanha “Creche para todos” ao combate à escala 6x1, as mulheres ampliaram o significado da luta sindical. Mostraram que salário é fundamental, mas não basta. Uma trabalhadora precisa estar protegida nos sindicatos e nos movimentos dos quais participa.
Ao transformar experiências em ação coletiva, as mulheres mudaram a CUT e contribuíram para ampliar direitos e proteção para milhões de trabalhadoras em todo o Brasil. Também ajudaram o sindicalismo a compreender que defender a classe trabalhadora é defender o direito de trabalhar, cuidar, decidir, descansar, participar e viver sem violência.