Título foi concedido de forma póstuma a Pepe Mujica em cerimônia marcada por emoção, memória e defesa da integração latino-americana
A Universidade Federal do ABC (UFABC) realizou, nesta quinta-feira (19), no Teatro Cenforpe, em São Bernardo do Campo, uma cerimônia solene que reuniu lideranças acadêmicas e políticas para a entrega póstuma do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente uruguaio José Mujica. O ato, carregado de simbolismo político e emocional, transformou o espaço universitário em palco de celebração de uma trajetória marcada pela defesa da justiça social, da democracia e da integração latino-americana.
A honraria foi recebida por sua companheira de vida, Lucía Topolansky, diante de um público composto por autoridades, estudantes, docentes e representantes de movimentos sociais.
Entre os presentes, o ministro do Trabalho e Emprego Luiz Marinho, o minsitro da Fazenda, Fernando Haddad, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Moysés Selerges, o presidente nacional do PT, Edinho Silva e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho da homenagem e protagonista de um dos momentos mais marcantes da cerimônia.
Ao receber o título, Lucía Topolansky reforçou o caráter singular da formação de Mujica. Segundo ela, o ex-presidente “não era um acadêmico tradicional”, mas alguém formado na experiência concreta da vida.
“Ele tinha a universidade da vida, que às vezes ensina muito”, afirmou. Topolansky também destacou a importância da defesa popular da educação, ressaltando que há momentos históricos em que ela é atacada e que sua força depende do apoio da sociedade. Como gesto simbólico, presenteou a biblioteca da UFABC com o livro Semillas al viento, definindo Mujica como um “semeador” de ideias.
Lula: memória, política e integração latino-americana
Ponto alto da cerimônia, o discurso emocionado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva articulou memória pessoal, reflexão política e projeção de futuro para a América Latina.
“O ser humano não morre; o corpo se vai, mas as ideias permanecem”, afirmou o presidente, logo no início de sua fala.
Ao recordar a trajetória de Mujica, destacou sua capacidade de superar a violência do cárcere sem cultivar ressentimento. “Depois de 12 anos de prisão, esse homem saiu sem ódio e sem rancor. Ele queria viver os tempos novos que ajudaria a construir.”
Em um gesto inédito, Lula leu publicamente uma carta enviada por Mujica a uma reunião de presidentes sul-americanos. No texto, o uruguaio defende a integração regional como projeto político e histórico, alertando que:
“Não existem cúpulas sem montanhas onde se apoiar; essas montanhas são os nossos povos.” A carta faz um balanço crítico de “dois séculos de fracasso” nas tentativas de integração e propõe a construção de um “consenso progressivo”, baseado em cooperação concreta, circulação de cidadãos, intercâmbio estudantil e harmonização de políticas regionais.
Soberania, educação e futuro comum
Lula utilizou a homenagem para reafirmar a necessidade de autonomia política e econômica da América Latina. Em sua fala, criticou a dependência histórica de potências estrangeiras:
“O que vai salvar a gente é a gente adotar como princípio filosófico de vida de que nós, e somente nós, poderemos resolver os nossos problemas.”
O presidente também defendeu uma integração que vá além do comércio, incorporando dimensões políticas, culturais, científicas e tecnológicas. “Nossos jovens têm que transitar pelos nossos países, nossos diplomas devem valer nos nossos países.”
Ao citar iniciativas como a criação da Unilab e da UNILA, destacou o papel da educação na construção de uma “doutrina latino-americana” e no enfrentamento das desigualdades históricas.
Um legado que permanece
Encerrando sua fala, Lula definiu Mujica como um “grande irmão do povo da América Latina”, reforçando a dimensão humana e política da homenagem.
A cerimônia na UFABC não apenas reconheceu a trajetória de um líder político, mas reafirmou valores centrais para o presente e o futuro da região: justiça social, solidariedade entre os povos, defesa da educação pública e integração latino-americana.
Ao transformar a memória de Mujica em patrimônio acadêmico, a universidade projeta seu legado para as novas gerações, consolidando a ideia de que, como disse o próprio Lula, há vidas que permanecem vivas nas ideias que deixam.
A solenidade
Ao declarar aberta a sessão solene do Conselho Universitário, o reitor Dácio Roberto Mateus destacou que a homenagem reconhece uma vida pública orientada por princípios fundamentais. Segundo ele, a trajetória de Mujica foi marcada pela “prática de simplicidade, pela defesa da igualdade social e pela valorização da educação pública”.
O reitor ressaltou ainda que a presença simbólica de Mujica no corpo de doutores da universidade confere dignidade à instituição, ao definir o homenageado como um “cidadão planetário”, cuja sabedoria ultrapassa fronteiras nacionais e acadêmicas.
Na sequência, a secretária-geral Fabiane Alves realizou a leitura do ato decisório nº 264 de 2024, que fundamentou a concessão do título. O documento reconhece em Mujica uma das figuras contemporâneas que representam valores como democracia, diversidade, consciência ética e integração regional — princípios que dialogam diretamente com o papel da universidade pública.
Uma vida entre a política e a história
Durante o rito formal de outorga, foi relembrada a trajetória de Mujica, nascido em Montevidéu em 1935 e profundamente vinculado às lutas sociais e políticas do Uruguai. Preso durante o período autoritário, permaneceu mais de uma década encarcerado, parte dela em regime de isolamento.
Após a redemocratização, participou da reconstrução institucional do país e chegou à presidência entre 2010 e 2015, tornando-se uma referência internacional em debates sobre desenvolvimento, sustentabilidade e justiça social.
Vozes do Uruguai: memória, afeto e continuidade
A cerimônia contou com a participação em vídeo do atual presidente uruguaio, Yamandú Orsi, que destacou a ausência de Mujica no cenário político atual e agradeceu o reconhecimento brasileiro.
Orsi afirmou que a homenagem ajuda a “manter a bandeira acesa”, em referência ao legado político e ético deixado pelo ex-presidente.
UFMG
Nesta quarta-feira (18), outra homenagem foi feita a José Mujica com a concessão do título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em cerimônia realizada no auditório da reitoria e marcada pela entrega da honraria à sua companheira, Lucía Topolansky. A decisão, aprovada pelo Conselho Universitário em abril do ano passado, reconhece a trajetória do ex-presidente uruguaio como referência na defesa da educação pública, da integração latino-americana e da justiça social, valores que marcaram sua atuação política e seu legado no continente.
Nascido em 1935 em uma família de pequenos agricultores, Mujica perdeu o pai muito cedo e, desde então, trabalhou vendendo flores para ajudar a mãe, hábito que, assim como o amor pela terra, o acompanhariam por toda a vida, até seus últimos dias. A necessidade de trabalhar o impediu de concluir os estudos e, aos 14 anos, passou a acompanhar as mobilizações dos trabalhadores uruguaios por melhores salários.
Influenciado pela Revolução Cubana e por um contexto de lutas sociais em todo o continente, em meados dos anos 60, foi um dos fundadores do MLN-T. Após ser baleado e preso quatro vezes, em 1972, foi capturado e submetido à tortura por quase 13 anos. No entanto, nem o terror mais abominável foi capaz de fazê-lo desistir.
Mujica jamais abandonou seu compromisso político nem sua pregação por uma vida que valha a pena ser vivida, desprovida da ambição de acumular riquezas. Grande defensor da integração dos países latino-americanos e caribenhos, ele se tornou referência da esquerda do continente. Presidiu o Uruguai de 2010 a 2015, tendo ficado conhecido como “o presidente mais humilde do mundo”. Foi eleito novamente como senador em 2019. Mujica enfrentou um câncer de esôfago que acabou por tirar sua vida em 2025.
Texto da biografia: Brasil de Fato