Deputada Federal Luiza Erundina participou de homenagem na Câmara destacando a evolução da profissão desde os anos 1930 e seu papel na formulação e defesa das políticas sociais brasileiras
Em uma cerimônia marcada pela emoção e pelo resgate histórico, a Câmara dos Deputados realizou, no dia 11 de junho de 2026, uma sessão solene em homenagem aos 90 anos do Serviço Social no Brasil. Proposta pela deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP), a celebração reuniu lideranças da categoria, acadêmicos e representantes do governo para refletir sobre o papel da profissão na defesa dos direitos sociais e no fortalecimento da democracia
Ao propor a sessão, a deputada transformou a data em um convite à reflexão sobre passado, presente e futuro de uma profissão que ajudou a construir direitos, fortaleceu a democracia e esteve presente em algumas das mais importantes lutas sociais do país.
Inspirada no conceito de "esperançar", formulado por Paulo Freire, Erundina defendeu que a celebração dos 90 anos deve servir não apenas para recordar conquistas, mas para renovar o compromisso com a transformação da realidade brasileira.
"O tempo de espera acabou. Do nosso grito emerge a semente da esperança revolucionária", afirmou.
Nove décadas de construção profissional
A trajetória do Serviço Social brasileiro começou na década de 1930, período marcado pela industrialização, pela urbanização acelerada e pelo agravamento das desigualdades sociais. Nesse contexto surgiram os primeiros cursos de formação profissional, entre eles a Escola de Serviço Social de São Paulo, atualmente integrada à PUC-SP.
"O primeiro deles, a Escola de Serviço Social de São Paulo, hoje integrada à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, adotava uma formação inicialmente vinculada à prática filantrópica e à doutrina social cristã", lembrou Erundina.
Desde então, a profissão passou por profundas transformações. A regulamentação estabelecida pelas leis de 1957 e de 1993 consolidou competências e atribuições da categoria, ao mesmo tempo em que ampliou sua presença em áreas fundamentais das políticas públicas.
Atualmente, assistentes sociais atuam na assistência social, saúde, educação, previdência, habitação, sistema sociojurídico e em diversas políticas voltadas à promoção e garantia de direitos.
Uma profissão ao lado das lutas sociais
Ao revisitar a história da categoria, a sessão solene destacou a participação dos assistentes sociais nos movimentos populares que marcaram a luta por direitos e pela redemocratização do país.
Durante a ditadura militar, muitos profissionais atuaram junto a comunidades, sindicatos e organizações populares, contribuindo para mobilizações por moradia, creches, saúde, transporte e melhores condições de vida.
"Nós assistentes sociais tivemos participação destacada na construção desses movimentos e no encaminhamento de suas lutas como profissionais comprometidos com os interesses dos setores populares", afirmou Erundina.
A parlamentar recordou que a atuação da categoria frequentemente despertava a vigilância dos órgãos de repressão. "Fomos vítimas de perseguição dos agentes da ditadura que nos vigiavam nos locais de trabalho e vários de nós fomos punidos com demissão", disse a deputada reforçando que o trabalho de conscientização realizado junto à população transformou muitos assistentes sociais em alvos do regime militar
O Congresso da Virada
Entre os momentos mais importantes da trajetória da profissão está o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, realizado em São Paulo em setembro de 1979.
Conhecido como Congresso da Virada, o encontro é considerado um marco histórico por representar a ruptura com concepções conservadoras e a afirmação de um projeto profissional comprometido com a democracia, os direitos humanos e os interesses da classe trabalhadora.
"A ruptura se deu com o III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, o memorável Congresso da Virada", destacou Erundina.
O evento consolidou mudanças que já vinham sendo construídas desde os anos anteriores, quando assistentes sociais participavam ativamente das mobilizações pela abertura democrática.
"Esse congresso foi um marco na história do Serviço Social no Brasil", afirmou a deputada. Passados 46 anos, o Congresso da Virada continua sendo uma referência para a profissão e para seu projeto ético-político.
Desafios diante de uma nova realidade
Ao olhar para o presente, Erundina defendeu que o Serviço Social continue atualizando seus instrumentos de análise e intervenção diante das transformações da sociedade.
"Cumpre ao Serviço Social como área de conhecimento e de ação profissional atualizar seu referencial teórico e reciclar seus instrumentos de análise e de intervenção", disse.
Para a parlamentar, os desafios atuais exigem que a categoria continue contribuindo para a ampliação da democracia e para a construção de uma sociedade menos desigual. "É necessário que repensemos nossa prática com vistas a contribuir na construção de um projeto de sociedade capaz de consolidar e ampliar as conquistas democráticas", disse.
O verbo esperançar
Foi ao tratar do futuro que Erundina retomou a ideia que atravessou todo o seu pronunciamento: a necessidade de transformar esperança em ação. Inspirada em Paulo Freire, ela convocou a categoria a manter vivo o compromisso histórico que marcou os 90 anos do Serviço Social brasileiro.
"Juntas e juntos conjugaremos o verbo esperançar, como nos ensinou o saudoso mestre Paulo Freire, rumo à concretização do nosso sonho: construirmos uma nação justa e soberana."
Ao encerrar a homenagem, a deputada prestou tributo às gerações que ajudaram a construir a profissão ao longo de nove décadas. "Com profunda emoção homenageamos as e os colegas assistentes sociais brasileiros, em especial os que já partiram e que deixaram um legado construído por todas e todos ao longo dos 90 anos do Serviço Social do Brasil", pontuou.
Veja a íntegra do pronunciamento de Luzia Erundina