Escrito por: André Accarini

Redes sociais são campo central da disputa política, dizem comunicadores

Mesa do Encontro Nacional de Comunicação da CUT reuniu o comunicador e influencer Ivan Vieira e Nina Fideles para debater mobilização, formação política e combate à desinformação nas plataformas digitais

Roberto Parizotti (Sapão)

 

As plataformas digitais se tornaram um dos principais espaços de disputa política, de mobilização social e de formação de consciência. Esse foi um dos pontos centrais da mesa “Plataformas digitais na disputa de projetos: leitura crítica das ferramentas de comunicação”, realizada no segundo dia do 10º Encontro Nacional de Comunicação da CUT (Enacom), que ocorre de 12 a 14 de março, em São Paulo, na sede do Dieese.

A atividade reuniu o comunicador e influencer Ivan Vieira e a jornalista Nina Fideles, diretora executiva do Brasil de Fato, com mediação da secretária de Comunicação da CUT Nacional, Maria Faria. O debate abordou os desafios da comunicação progressista no ambiente digital, o papel das redes sociais na disputa de narrativas e a necessidade de ampliar a presença do campo democrático nas plataformas.

Abrindo a mesa, Ivan Vieira destacou que a comunicação política passa por uma transformação profunda e que as redes sociais deixaram de ser apenas um complemento das estratégias tradicionais.

“Muita gente fala que rede social é importante para disputar narrativa ou ganhar eleição. Não. A rede social não é importante — ela é essencial. Hoje não é mais um auxiliar. É onde a gente tem que estar, ouvir e disputar.”

Segundo ele, uma das principais mudanças necessárias é na forma de comunicar. Para Vieira, a linguagem excessivamente institucional ou publicitária muitas vezes impede que as mensagens políticas estabeleçam conexão com o público.

“As pessoas querem se sentir conectadas com quem está falando. A vida real se conecta com pessoas reais”, disse.

O comunicador relatou que a experiência nas redes sociais mostra o potencial de alcance das plataformas quando há constância e estratégia. Mesmo sendo uma pessoa reservada, disse ele, foi possível construir uma audiência significativa.

“Hoje tenho quase dois milhões de seguidores nas redes sociais, com cerca de 80 milhões de visualizações por mês. E eu sempre digo: se eu consegui fazer isso, todo mundo consegue, porque eu sou uma pessoa extremamente tímida e low profile.”

Para Vieira, a disputa política nas redes exige rapidez na resposta e presença constante. Ele afirmou que, muitas vezes, a extrema direita consegue estabelecer primeiro a narrativa sobre um fato, consolidando uma versão que depois se torna difícil de contestar. “Quando a gente reage, o estrago já foi feito. O que você constrói em 50 anos de luta pode ser destruído em um dia numa rede social.”

Outro ponto levantado por ele foi a forma com que comunicadores progressistas atuam nas plataformas, sem acesso a recursos como a extrema direita, financiada por interesses das elites. Segundo Vieira, enquanto a direita investe em estrutura e financiamento, muitos criadores de conteúdo do campo democrático trabalham de forma isolada.

“No nosso campo, o criador de conteúdo muitas vezes faz isso por paixão, sem estrutura nenhuma. Já a direita tem financiamento, think tanks, apoio. A gente precisa entender que quem tem centenas de milhares de seguidores fala com muita gente e não pode ser tratado como um mero militante.”

Vieira também defendeu que a comunicação política precisa ser simples e direta para ampliar o alcance das mensagens. “Discurso burocrático não ganha confiança. A vida como ela é impacta mais. A gente precisa falar de forma simples, direta, para todo mundo entender”, disse.

Tem que estar em todas as redes, todos os dias, com simplicidade, autenticidade e resposta rápida. Democracia é como banho: tem que fazer todo dia- Ivan Vieira

Comunicação popular, plataformas e disputa de narrativas

Na sequência do debate, a jornalista Nina Fideles, diretora executiva do Brasil de Fato, apresentou uma análise sobre os limites e as contradições do ambiente digital. Segundo ela, embora as redes ampliem a circulação de conteúdos, isso não significa que exista de fato uma democratização da comunicação.

“O fato de a gente conseguir abrir um canal e falar não significa que houve democratização da comunicação. Nós estamos operando em um campo que não é nosso e que continua sob controle das plataformas.”

Fideles também alertou para o risco de avaliar o sucesso da comunicação apenas pelos números de audiência. Para ela, o impacto político das informações deve ser o principal critério.

“A audiência pode enganar. Às vezes a matéria mais lida é um serviço sobre feriados do ano. A pergunta é: qual é o impacto político do que a gente comunica?”

Como exemplo, a jornalista citou reportagens que geram repercussão social concreta, como a exposição de injustiças ou abusos envolvendo trabalhadores.

“Esse é o impacto que buscamos: quando uma informação provoca debate público ou gera alguma mudança real.”

A diretora do Brasil de Fato também destacou que diferentes estruturas de comunicação cumprem papéis distintos na disputa política, como veículos jornalísticos independentes, assessorias institucionais e comunicação sindical.

“Não existe uma fórmula única. Um veículo como o Brasil de Fato tem um papel diferente de uma assessoria ou de um setor de comunicação sindical. Cada espaço cumpre uma função nessa disputa.”

Outro desafio apontado por Fideles é a mudança no consumo de informação, especialmente entre as gerações mais jovens, que recebem conteúdos cada vez mais curtos e filtrados por algoritmos.

“Hoje crianças e adolescentes abrem uma rede social e em poucos minutos começam a receber conteúdos misóginos ou extremistas. Isso é o algoritmo funcionando.”

Diante desse cenário, ela defendeu que a comunicação progressista precisa combinar disputa de narrativas com conteúdos didáticos e de formação política.

“Às vezes precisamos voltar ao básico: explicar como funciona o parlamento, o que faz um vereador, o que significa uma política pública. Sem isso, fica muito difícil formar consciência.”

Para Fideles, o trabalho de comunicação política deve ser pensado no longo prazo e articulado com processos de organização social.

“A comunicação não resolve a política. Ela subsidia as pessoas para entender o que está em jogo. Mas sem organização e participação política, a comunicação sozinha não resolve.”

Ao longo da atividade, mediada pela secretária de Comunicação da CUT, Maria Faria, os participantes também destacaram que o combate à desinformação e a disputa por narrativas exigem presença permanente nas plataformas digitais, produção constante de conteúdo e capacidade de resposta rápida.