Alimentos e combustíveis dispararam no governo anterior. Política de preços da Petrobras, redução dos estoques públicos, queda da renda com perda de poder de compra ajudam a explicar carestia que ainda pesa sob
Os preços dos alimentos e dos combustíveis continuam pesando no orçamento das famílias. Para compreender por que permanecem elevados, é preciso examinar também as decisões tomadas nos anos anteriores. Durante o governo Bolsonaro, cujo filho, Flavio, candidato a presidente, segue a mesma cartilha, alimentos e combustíveis tiveram fortes altas. A gasolina, por exemplo, chegou a patamares nunca vistos antes. Em alguns lugares, o litro chegou a R$ 10. A pandemia e o mercado internacional pressionaram os preços, mas as decisões tomadas no Brasil à época também influenciaram o tamanho da conta paga pela população.
Entre março de 2020 e fevereiro de 2022, a alimentação dentro de casa subiu 31,5%, quase o dobro da inflação geral de 16,3%, segundo dados do IBGE. Essa diferença ajuda a explicar por que tantas famílias sentiram uma perda de poder de compra maior do que a inflação média sugeria. Para quem concentra os gastos em alimentação, a comida mais cara ocupa rapidamente o espaço de outras despesas, como é o caso das pessoas com menor renda, que gastam quase tudo que tem com alimentos.
A pandemia interrompeu cadeias de produção e distribuição. A valorização dos produtos agrícolas no mercado internacional e a alta do dólar também afetaram o Brasil, assim como afetou a outros países no mundo. Nada disso, porém, tornava as escolhas do governo irrelevantes, pelo contrário: cada país atuou de forma a proteger sua população e sua economia. Mas no caso brasileiro, ocorreu exatamente o inverso, ou seja, o governo não só não agiu como tomou medidas que iam contra esta direção.
Em momentos de pressão sobre o abastecimento, por exemplo, os estoques públicos de alimentos são um instrumento para ampliar a capacidade de ação do Estado e a redução nos governos Temer e Bolsonaro deixaram o país com menos recursos para responder à alta de preços.
“Da mesma forma que o governo não interviu para controlar o preço do dólar e não atuou para conter as exportações de produtos básicos, deixando a população brasileira desassistida enquanto observava aumentos de preços de alimentos como arroz, feijão, carnes e leite, entre outros, nos supermercados brasileiros, subindo acima da inflação geral), também não manteve a política de ganho real do salário mínimo. A combinação destes elementos foi uma perda de poder de compra que ainda sentimos até os dias de hoje”, avalia o técnico do Dieese, Leandro Horie.
Preço do combustível também foi uma escolha
Nos postos, a política da Petrobras ajudou a transmitir ao consumidor as oscilações externas. Desde 2016, no governo de Michel Temer, a empresa adotava o preço de paridade de importação (PPI), que tomava como referência o custo de trazer combustíveis do exterior. Essa política foi mantida no governo Bolsonaro. Com ela, a cotação internacional do petróleo e a variação do dólar tinham forte influência sobre os preços praticados pela Petrobras.
Em 2022, gasolina e diesel alcançaram valores elevados, registrados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Motoristas, entregadores e trabalhadores por aplicativo sentiam a alta a cada abastecimento. Quem não dirige também era afetado: o diesel movimenta os caminhões que levam alimentos do campo aos centros de distribuição, às feiras e aos supermercados. E levam a produção das indústrias aos centros de comércio. Tudo isso gerava inflação.
O combustível é uma das despesas consideradas no frete. Quando ele sobe, transportadores podem cobrar mais pelo serviço, e parte desse aumento pode ser repassada ao preço das mercadorias. O repasse não acontece da mesma forma para todos os produtos, mas mostra por que a política de preços dos combustíveis ultrapassa os limites do posto.
Há ainda a dependência brasileira da importação de derivados, especialmente diesel. Essa condição mantém o país exposto ao dólar e ao mercado internacional. Ela também torna mais importante a decisão sobre como a Petrobras considera essas referências ao formar seus preços.
Em 2023, já no governo Lula, a empresa mudou sua estratégia e deixou de usar a paridade de importação como referência obrigatória. Isso não eliminou a influência do mercado externo, nem permite calcular exatamente quanto custaria a gasolina hoje se o PPI tivesse continuado. Permite, porém, identificar uma mudança de política: os custos de importação deixaram de ser a referência obrigatória adotada nos anos em que os combustíveis alcançaram preços mais altos.
Hoje, os esforços para manter os preços se concentram em váris frentes, entre elas, a fiscalização nas bombas. Mesmo com recursos públicos destinados a conter a alta dos combustíveis, empresas foram autuadas por ampliar suas margens. A ANP aplicou mais de R$ 200 milhões em multas por alta abusiva de combustíveis, como mostrou a CUT.
O pedágio entra na mesma conta
O caminhão que transporta alimentos também pode atravessar diversas praças de pedágio. A cobrança se soma ao diesel, à manutenção do veículo e às demais despesas da viagem.
No estado de São Paulo, que concentra as mais altas tarifas do país, rotas de abastecimento e de acesso ao Porto de Santos passam por rodovias concedidas pelo governo estadual. Os contratos e reajustes são acompanhados pela Agência de Transporte do Estado de São Paulo (ARTESP).
Um exemplo é o Sistema Anchieta-Imigrantes, ligação entre o planalto e a Baixada Santista. O material reunido para esta série registra tarifa de R$ 40,60 para veículos de passeio; no caso dos caminhões, a cobrança varia conforme o número de eixos. Trata-se de uma despesa real no transporte de cargas e pode ser incorporada ao frete.
Portanto, quando se fala em carestia, não basta olhar para a safra ou para a etiqueta do supermercado. O caminho percorrido pelos produtos também custa dinheiro. Diesel e pedágio são parte desse caminho, e as regras que definem seus preços dependem de decisões políticas.
Quanto o salário consegue comprar?
O preço é apenas um lado da conta. O outro é a renda de quem compra. Quando os alimentos sobem 31,5% em um período no qual a inflação geral é de 16,3%, a reposição da inflação média não basta para preservar a mesma capacidade de compra de uma família que gasta grande parte do salário com comida.
Desde 2023, o governo Lula retomou a política de valorização do salário mínimo, permitindo reajustes acima da inflação quando há crescimento econômico. Como mostramos nas matérias anteriores desta série, isso não muda diretamente a etiqueta no mercado. Muda quanto o trabalhador consegue comprar com sua renda. Também alcança benefícios vinculados ao mínimo.
Os preços seguem pesando, e nenhuma dessas medidas controla sozinha a gasolina, o frete ou os alimentos. Safras, clima, dólar, impostos e decisões das empresas continuam influenciando os valores. Mas há uma diferença entre reconhecer esses fatores e apagar a responsabilidade dos governantes.