Escrito por: André Accarini

Perfil: a história de Nata da Sociedade e o direito de existir sem pedir licença

Atriz, cantora, dançarina e produtora, a artista da cena trans, Nata da Sociedade, transforma sua trajetória em reflexão sobre trabalho, arte, gênero e dignidade

reprodução/Redes Sociais

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, a história de Nata da Sociedade ajuda a iluminar uma questão que vai além do simbolismo da data. Para ela, visibilidade não pode se resumir à presença: precisa significar permanência, dignidade e possibilidade real de futuro.

Aos 31 anos, moradora do centro de São Paulo, Nata se define antes de tudo como artista. “A minha primeira identidade, na minha vida inteira, foi a identidade artista”, afirma. Desde os 11 anos, ela constrói sua trajetória na cena cultural, o que faz da arte o eixo mais consistente de sua existência. “De tudo que eu me formei a vida inteira enquanto ser humano, artista é a coisa mais consistente que existe em mim.”

É a partir dessa identidade que ela atravessa sua vivência como travesti preta, atriz e artista da cena, em um país onde pessoas trans seguem sendo empurradas para a marginalidade. Nata faz questão de destacar que sua experiência não representa a regra, mas uma exceção.

Eu sou artista em São Paulo, moradora do centro. A minha realidade é um recorte de acesso muito singular em relação à comunidade enquanto massa- Nata da Sociedade

 

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Arte como estratégia de sobrevivência

Inserida no campo cultural antes da transição, Nata conseguiu usar as políticas identitárias atuais como estratégia para permanecer no mercado de trabalho. Isso, no entanto, não eliminou os conflitos. “Teve uma dificuldade de eu me entender enquanto artista dentro dessa identidade para vestir”, relata. O acesso existe, mas é atravessado por limites silenciosos.

Ela reconhece avanços recentes. Produções artísticas e espaços culturais exclusivamente formados por pessoas brancas e cisgênero já causam estranhamento. Ainda assim, Nata questiona até onde vai essa abertura. “Pode haver inclusão, mas qual é a política de desenvolvimento para que a gente tenha voz de comando?”, provoca, ao apontar uma hierarquia velada que raramente permite que pessoas LGBTQIA+ cheguem a posições de decisão.

Políticas de inclusão existem, mas não garantem permanência

A crítica de Nata vai além da entrada formal em empresas e instituições. Para ela, o problema central está na qualidade da permanência. Ao falar sobre trabalho, avalia que o mercado começou a discutir inclusão, mas ainda não pensa de forma estruturada na trajetória das pessoas trans. “Existe uma janela de possibilidade hoje em dia, principalmente por conta das vagas afirmativas”, observa.

O acesso, porém, não é suficiente. “A questão não é só entrar. É qual é a qualidade de vida dentro do trabalho?” Segundo Nata, muitas empresas contratam pessoas trans sem transformar a cultura interna. Falta acolhimento, formação e perspectiva de crescimento.

“Tem muitos lugares que colocam corpos de pessoas trans dentro das equipes e não oferecem nenhum tipo de acolhimento. O resultado é um ambiente onde microviolências se tornam constantes e silenciosas. A gente é muito suscetível a isso e acaba engolindo para manter a oportunidade”, ela afirma.

Essa lógica impõe um sentimento contínuo de gratidão forçada. “Existe essa ideia de que a gente deve ser grata pela oportunidade dada, mas a oportunidade de entrar não paga aluguel.” Sem políticas de desenvolvimento de carreira, a inclusão se limita à aparência e não se traduz em ascensão ou estabilidade.

Inclusão sem desenvolvimento mantém a desigualdade

Nata faz uma crítica direta ao desenho dessas políticas. Para ela, ocupar vagas iniciais sem perspectiva de avanço apenas perpetua desigualdades. “Pensando na hierarquia no campo das artes, uma pessoa que entra como atriz pode virar diretora, assim como alguém que entra como estagiária pode crescer. Com pessoas trans, isso muitas vezes não acontece.”

Ela destaca que essa lógica vale tanto para o mercado cultural quanto para o formal. Hoje, segundo Nata, já é malvisto um projeto artístico formado apenas por pessoas brancas e cisgênero. No entanto, a diversidade frequentemente fica restrita aos espaços mais visíveis, sem alcançar os centros de poder. “A questão agora é: onde estão as pessoas trans no organograma de poder?”

Microviolências que atravessam corpo e mente

Dentro e fora do trabalho, Nata descreve violências que não se apresentam de forma explícita, mas se acumulam. Trata-se de uma intersecção entre gênero e raça, resultado da soma de tudo o que a atravessa: corpo, território, classe e identidade.

Tem violências que eu não consigo dizer se foram racismo ou transfobia. Eu não sei o que chega primeiro- Nata da Sociedade


Essas agressões aparecem em comentários, olhares e toques sem consentimento. “Pessoas que ultrapassam limites, seja com comentário, seja com toque, muitas vezes disfarçados de elogio. Colocam a gente num lugar de museologia, como se o nosso corpo estivesse à disposição da análise do outro.”

Para Nata, isso representa uma quebra de ética. “A ética se perde quando se trata de nossos corpos.” Ela afirma que essa lógica também se reproduz em relações afetivas e interpessoais. “As pessoas perdem a noção de pedir licença sobre nossos corpos.”

Gênero como possibilidade, não como controle

Ao refletir sobre o Dia da Visibilidade Trans, Nata propõe uma mudança de perspectiva. Para ela, o gênero é uma ferramenta criada pela humanidade para catalogar o mundo. O problema surge quando essa ferramenta passa a operar como forma de controle. “O problema é quando ela é usada como controle e não como possibilidade de criação.”

Ela rejeita a ideia de que pessoas trans se desviam de uma suposta normalidade. “Não existe alguém que era normal e virou outra coisa. Ninguém vira nada.” O que existe, segundo Nata, é o rompimento com aprendizados impostos desde cedo.

Eu aprendi compulsoriamente a ser homem, a ser hétero, a ser cristã para pertencer.” Com o tempo, relata, passou a aprender com a própria vida. “Eu não me desviei. Eu só aprendi outras possibilidades.- Nata da Sociedade


Arte como instrumento de luta: Em março, Nata estreia o musical Liberdade Liberdade, no Teatro da Companhia da Revista, em São Paulo. Inspirado na obra de Millôr Fernandes, o espetáculo tem direção de Thiago Dombidal e coreografia de Rafa L, e aposta em um elenco diverso para discutir o significado da liberdade nos dias atuais, com foco no direito de ser quem se é, livremente, no espaço público.

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Visibilidade que aponta para o futuro

Para Nata da Sociedade, visibilidade sem estrutura é insuficiente. Estar presente não basta se não houver dignidade, segurança e desenvolvimento. “A minha identidade não assedia nem violenta a identidade de ninguém.” O conflito, afirma, nasce de sistemas que insistem em hierarquizar corpos e experiências.

No Dia da Visibilidade Trans, a artista sintetiza sua reflexão em uma fala que condensa sua trajetória e aponta caminhos para o futuro:

Que a gente saia dos aprendizados compulsórios da civilização e se abra ao aprendizado da vida. A vida vai ensinar direitinho a você ser o que você é. A vida vai colocar você no seu lugar — e o seu lugar só você e a sua vida vão saber onde é- Nata da Sociedade

Mais do que ser vista, Nata da Sociedade reivindica o direito de existir, trabalhar e permanecer — sem pedir licença.