Além de ganhar dois prêmios no Globo de Ouro, o filme mostra como políticas públicas, memória e investimento cultural fazem a identidade nacional romper fronteiras
A consagração de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, no Globo de Ouro, com os prêmios de melhor filme de língua não inglesa e melhor ator de drama para Wagner Moura, no último domingo (11), impulsionou o desempenho do longa, simbolizando a retomada do cinema brasileiro no cenário mundial.
O reconhecimento internacional do longa, sustentado por políticas públicas e cooperação cultural, mostra que investir em cultura também é uma maneira de defender a democracia e garantir que o Brasil não volte a repetir os erros que já custaram caro à sociedade como foi o período de forte desmonte e enfraquecimento das políticas culturais marcados por cortes de recursos, censura e durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O reconhecimento ao filme reflete a reconstrução do setor cultural a partir da volta das políticas públicas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para o secretário de Cultura da CUT, José Celestino Lourenço, o Tino, essa reconstrução inclui a ampliação do incentivo ao audiovisual, o retorno da Teia Nacional de Pontos de Cultura em 2026 e a execução da Política Nacional Aldir Blanc, entre outras medidas do Ministério da Cultura, que formam uma estratégia para fortalecer a identidade nacional a partir das culturas dos territórios, das periferias e das juventudes.
“É daí que nasce uma cultura viva, democrática e capaz de enfrentar qualquer tentativa de apagamento da nossa memória”, afirmou Tino.
A ditadura em foco
O sucesso internacional do “O Agente Secreto” dialoga diretamente com um Brasil que voltou a discutir democracia, autoritarismo e memória histórica após os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023 e o colapso político do bolsonarismo.
Ao receber o prêmio, Wagner Moura destacou que o tema segue aberto na sociedade brasileira. “A ditadura ainda é uma ferida aberta na nossa vida. Acho que devemos continuar fazendo filmes sobre isso. Cada um vai ser diferente do outro”, afirmou, em entrevista coletiva.
Kleber Mendonça Filho foi ainda mais direto ao conectar passado e presente. Para o diretor, o Brasil viveu, há cerca de dez anos, uma guinada acentuada à direita, ciclo que, segundo ele, se encerrou com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem atribuiu uma postura “irresponsável de forma épica” por não ter liderado o país em momentos decisivos da história recente do país. Nesse contexto, o Agente Secreto, avaliou, tornou-se também um instrumento de expressão da luta, dos conflitos e da reconstrução democrática.
Em suas declarações à imprensa internacional o cineasta sinaliza que o país voltou a disputar o imaginário global com sua própria história — agora contada a partir da democracia, da memória e de políticas públicas que transformam cultura em soberania, trabalho e projeção internacional.
Outras premiações internacionais como a de melhor ator para Wagner Moura, no Festival de Cannes (França) é mais um reconhecimento que favorece a campanha do “O Agente Secreto” rumo ao Oscar, a maior premiação do cinema mundial, cuja cerimônia ocorre em 15 de março. A lista de indicados será divulgada em 22 de janeiro.
A realidade inspirando a ficção
A trama do filme, embora ficcional, tem raízes profundas na história real do país. Durante a ditadura, empresários financiaram e participaram diretamente da repressão. O caso mais conhecido é o de Henning Albert Boilesen, dono da Ultragaz, que sustentou a Operação Bandeirante (Oban) — embrião do DOI-Codi — e assistia às torturas que ajudava a pagar. Sua história é retratada no documentário “Cidadão Boilesen”, disponível gratuitamente na plataforma FatoFlix.
Ao colocar na tela as feridas abertas da ditadura e os interesses que sustentaram a repressão, “O Agente Secreto” usa o cinema como uma forma de enfrentar o passado e proteger o presente. O filme lembra que os crimes do regime militar não são apenas capítulos antigos dos livros de história, mas marcas que ainda influenciam a vida política do país. Ao recuperar essa memória, a obra ajuda a barrar o apagamento e os discursos autoritários que ainda circulam.
Fake News sobre o financiamento do filme
“O Agente Secreto” é uma produção de grande porte, com orçamento estimado em R$ 27 milhões. O projeto contou com coproduções da França, Alemanha e Holanda, além de recursos públicos e privados no Brasil. O Fundo Setorial do Audiovisual aportou R$ 7,5 milhões, enquanto R$ 5,5 milhões vieram de investidores nacionais, em um modelo que articula políticas públicas, mercado e cooperação internacional para reposicionar o cinema brasileiro no mundo.
Diferentemente do que circula em campanhas de desinformação nas redes sociais da extrema direita, “O Agente Secreto” não foi financiado pela Lei Rouanet. Produções cinematográficas de grande porte como o filme não se enquadram nesse mecanismo, que é voltado principalmente para projetos culturais menores e eventos.
“Falar que o Agente Secreto usou dinheiro da Lei Rouanet é mentira e faz parte da desinformação que a extrema direita dissemina para atacar a cultura. Na verdade, ela gera empregos, fortalece a indústria do entretenimento e recoloca o Brasil no circuito global do cinema. O filme “Ainda Estamos Aqui, de Walter Sales Jr.”, vencedor do Oscar de 2025, como melhor filme em língua não inglesa, também sofreu os mesmos ataques mentirosos e inconsequentes. Agora é a vez do Agente Secreto sofrer esse tipo de perseguição”, disse Tino.
O roteiro
O filme é ambientado no Recife de 1977, Pernambuco, quando a ditadura militar anunciava um fim que nunca chegava. O Agente Secreto acompanha a trajetória de Armando Solimões (Wagner Moura), um professor perseguido pelo regime que retorna à cidade natal para tentar resgatar o filho e fugir do país. Não há confrontos armados ou quartéis em destaque. A violência aparece de forma mais perversa: nos bastidores, nos gabinetes, nos interesses econômicos que sustentam a repressão.
O centro dessa engrenagem é o empresário fictício Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), dono da Ghirotti Energia, que entra em choque com o professor durante uma reunião na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sobre uma patente de carro elétrico movido a bateria de lítio — tecnologia que ameaçava seus negócios. A partir daí, a máquina do Estado passa a operar em seu favor: perseguições, desmontagem do departamento universitário e contratação de matadores dão o tom de uma repressão privatizada, funcional ao lucro.