A farta apresentação de documentos que comprovam um número infindável de fraudes nas eleições do último domingo (1º) no México destampou o bueiro do PRI e de seu candidato, Enrique Peña Nieto, intensificando as mobilizações sociais em favor do respeito à vontade popular. A magnitude e a intensidade dos protestos forçaram o Instituto Federal Eleitoral (IFE) a determinar a recontagem de 54,5% dos votos das mais de 78 mil urnas da eleição para presidente, além de 61% dos votos de senadores e 60,3% de deputados. Mesmo com a montanha de dinheiro ilegal injetada por bancos e transnacionais e a flagrante utilização dos grandes meios de comunicação, em particular da Televisa (a Globo mexicana), das chantagens, sequestros e até assassinatos realizados por narcotraficantes e pelo crime organizado em seu favor, Peña Nieto foi “eleito” com apoio da minoria. Ao abrirem as urnas, o candidato do PRI, que promete entregar o que ainda sobrou do Estado mexicano aos “investidores”, havia conseguido apenas 38,15% dos votos, uma magra diferença de 6,51% em relação aos 31,64% de López Obrador, candidato da aliança liderada pelo Partido da Revolução Democrática (PRD). A candidata do governo, Josefina Vázquez, do PAN, obteve 25,4%. Nem bem Peña Neto anunciava ele própria sua “vitória”, sem qualquer confirmação oficial, Obama já se prestava a saudar o “ganhador”. Mas nas ruas da capital, uma marcha saída da Monumento à Revolução em direção à sede do PRI unia pessoas de todas as idades e levantava a voz contra a fraude: "Aqui se vê, aqui se vê que Peña Nieto presidente não vai ser” e “México votou, e Peña não ganhou”.
CARTÕES PRÉ-PAGOS Entre as denúncias apresentadas à Justiça contra Peña Nieto está a “triangulação” – via banco Monex - de 168 milhões de pesos (cerca de 13 milhões de dólares) para a compra de votos. O coordenador da candidatura de Obrador, Ricardo Monreal, exibiu à imprensa dois contratos de 20 milhões de pesos cada um, que evidenciam que o PRI utilizou a Importadora e Comercializadora Efra, SA de CV e do Grupo Comercial Inizzio, para distribuir recursos a seus representantes nos locais de votação mediante cartões pré-pagos. “Recebemos uma pasta completa de Monex, de forma anônima, onde se demonstra que foram gastos nos últimos meses 168 milhões de pesos, tendo sido expedidos mais de cem mil cartões eletrônicos pré-pagos… Temos ao redor de 40 faturas digitalizadas”, informou o coordenador da campanha de Obrador. Monreal esclareceu que foi apresentada queixa crime ante a Unidade de Fiscalização do IFE para que se investigue o montante da triangulação. “Tudo será apresentado no recurso de inconformidade, porque neste país não podemos permitir que seja o dinheiro, a compra de votos e as atividades ilegais que definam uma eleição”, frisou.Na semana anterior ao pleito, o PAN já havia recorrido ao órgão eleitoral, solicitando que fosse acionada a Comissão Nacional Bancária e de Valores (CNBV) para que revisasse as contas do banco Monex, de onde saíram boa parte dos volumosos recursos de Peña Nieto. Uma medida cautelar chegou a ser requerida para evitar que o PRI excedesse o limite máximo de gasto na campanha, já que se dispunha de informações de que o PRI estava pagando 17 mil e 600 pesos a cada fiscal.
OBRADOR DENUNCIA ARMAÇÃO “Vamos pedir que limpem essas eleições e as tornem transparentes. Pelo bem da democracia e pelo bem do país, deve-se recontar todos os votos para que não haja dúvidas. Vamos seguir dentro dos trâmites legais”, defendeu López Obrador. "Não há presidente eleito. Quem atribuir para si este título é um impostor", acrescentou Ricardo Monreal, denunciando que "não houve uma eleição justa e transparente", pois o PRI comprou "milhões de votos".A preocupação agora é com a forma como o PRI manipula as instituições públicas, como é o caso do Tribunal Eleitoral do Poder Judiciário Federal (TEPJF), que deveria fiscalizar e garantir a lisura do pleito. Isso fez com que se formalizasse um pedido para que o presidente do TEPJF, José Alejandro Luna Ramos, se abstenha de intervir se for apresentada a impugnação das eleições presidenciais, porque “ele já proferiu a sentença antes, adiantou seu voto, independentemente de conhecer o que íamos apresentar”. Mais realista que o rei, Luna Ramos disse que “ninguém ganhará na mesa o que não pode ganhar nas urnas”. O representante do PRD sublinhou que com essa declaração o presidente do TEPJF “atuou de maneira imprudente, imprópria, incorreta”. Além disso, ressaltou, pesam contra eles graves antecedentes, como de ter respaldado a eleição fraudulenta de Felipe Calderón há seis anos, quando López Obrador também foi vítima de uma fraude eleitoral. Em pesquisa realizada poucos dias antes das eleições do último domingo, mais de 70% dos eleitores admitiram a possibilidade de que o pleito fosse fraudado.
FILAS E RECLAMAÕES As filas nos estabelecimentos comerciais da periferia da Cidade do México falaram por si. Na terça-feira, milhares de pessoas fardadas com gorros e camisetas de Peña Nieto foram trocar cartões pré-pagos – distribuídos pelo PRI - em supermercados de bairros pobres da capital. Alguns dos portadores dos cartões reclamaram não terem recebido o que os dirigentes do PRI haviam prometido, enquanto outros denunciavam que alguns cartões sequer funcionavam. “Nos deram em nome do PRI e do ‘deputado’ Hector Pedroza (candidato ao Congresso), e nos disseram que contavam com nosso voto”, declarou a estudante universitária de 20 anos, María Salazar. “No domingo, você ia a uma sessão eleitoral, votava, tirava uma foto com a cédula marcada a favor do PRI e te entregavam o vale”, explicou Rocío Ugalde. Conforme o jornal La Jornada, a distribuição dos cartões, identificados pela rede de lojas Soriana como “vale-presentes entregues pelo PRI para que Peña Nieto ganhasse”, começou na sexta-feira (29) à noite, na Cidade do México e no município de Nezahualcóyotl. “Detectamos a entrega de vales de gasolina, crédito de celular e cartões de débito, mas não sabemos com precisão de quanto foi a soma de recursos”, relatou Javier Osorio, diretor da “Mais Democracia”, organização que monitora o processo eleitoral.