Escrito por: Redação CUT | texto: André Accarini

Lula no Flow: presidente defende educação e investigação “doa a quem doer”

Entre histórias de vida e falas sobre educação e idosos, Lula critica Flávio Bolsonaro, cobra explicações do STF e conta como Janja o incentivou a enfrentar o feminicídio

Ricardo Stuckert/PR

“O país não tem saída se a gente não investir na educação.” A frase de Luiz Inácio Lula da Silva no Flow resume uma das principais mensagens que o presidente quis transmitir na entrevista: abrir oportunidades para quem cresceu sem elas. Na conversa com o apresentador Igor 3K, que chegou a ter mais de 1,6 milhão de espectdores, Lula falou de jovens que abandonam a escola para trabalhar, de idosos que ainda têm muito a viver e de famílias que perderam dinheiro nas apostas. Também criticou Flávio Bolsonaro e cobrou investigação sobre o caso Banco Master, sem proteção a autoridades.

Recebendo o apresentador em casa, Lula alternou respostas políticas, lembranças da fábrica e histórias de sua mãe, dona Lindu. Entre cobranças e brincadeiras, relacionou suas decisões à experiência de quem já passou fome, viveu em barraco e caminhou para o trabalho porque não tinha dinheiro para a passagem.

“Eu gosto do povo. Eu gosto de gente”, afirmou.

Educação é investimento

A discussão sobre educação começou com uma cobrança de como garantir mudanças que durem mais do que um mandato. Lula criticou a interrupção de políticas a cada troca de governo e defendeu a ampliação das universidades, dos institutos federais e das oportunidades de formação.

O presidente associou a resistência a essas políticas ao preconceito contra a ascensão dos mais pobres. Falou da filha da empregada doméstica que pode se tornar médica, engenheira ou pesquisadora e dos encontros em que profissionais contam ter sido os primeiros de suas famílias a chegar à universidade.

“Essa gente que não gosta de mim vai continuar não gostando, mas eu vou continuar fazendo.”

O tema ganhou uma resposta pessoal do apresentador. Quando Lula mencionou o Prouni, Igor contou que também havia sido beneficiado pelo programa.

Para o presidente, o acesso à educação precisa começar com condições para permanecer na escola. Ao explicar o Pé-de-Meia, disse que a decisão de criar o programa partiu da situação de jovens que deixavam os estudos para ajudar no orçamento de casa. Defendeu a expansão do ensino em tempo integral e incentivos para formar professores.

“Eu não consegui estudar, mas o filho do trabalhador vai ter direito de estudar.”

Lula também afirmou que pretende ampliar a formação de jovens em inteligência artificial, engenharia e pesquisa. Relacionou esse investimento à possibilidade de o Brasil desenvolver tecnologia e transformar suas riquezas minerais em produtos, empregos e conhecimento dentro do próprio país.

“Educação é investimento”, reforçou, ao dizer que proibiu o uso da palavra “gasto” para tratar do tema em seu governo.

A vida continua depois dos 70

Já no encerramento, Lula pediu a palavra para deixar dois recados: um aos idosos e outro à juventude. Às pessoas com mais de 70 anos, fez um chamado à participação nas eleições, mesmo com o voto facultativo. “O Brasil não parou porque você fez 70 anos”, disse o presidente.

Ele lembrou ainda que os interesses de uma pessoa idosa também envolvem o futuro de seus filhos, netos e bisnetos. Pediu que essa população compareça às urnas e rejeite a ideia de que envelhecer significa se afastar das decisões sobre o país. “Vá votar pelo Brasil que você quer para os seus filhos, para os seus netos.”

A defesa da participação veio acompanhada de uma proposta para o cuidado com idosos em um eventual novo mandato. Lula falou de espaços para atividades como “dançar, jogar dominó, assistir a filmes, nadar, conviver e namorar”. O objetivo apresentado foi oferecer atividades e relações que ajudem as pessoas a continuar vivendo com autonomia.

“Porque aos 70 anos você pode arrumar muita namorada ainda”, brincou.

Aos jovens desanimados com a política, o conselho foi participar de partidos, da comunidade e da vida pública, em vez de concluir que ninguém presta. “O político honesto que você quer tá dentro de você.”

E completou o convite com uma frase que surpreendeu Igor: “Seja eu amanhã, porque eu já fui você ontem”.

Críticas a Flávio

Ao falar da disputa eleitoral, Lula questionou a trajetória e o preparo de Flávio Bolsonaro para governar o país. Comparou o senador com adversários que enfrentou em outras eleições, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Paulo Maluf, aos quais reconheceu história política.

“O que é que ele tem para oferecer?”, perguntou sobre Flávio.

Lula criticou as relações do adversário com Daniel Vorcaro e com pessoas ligadas à milícia. Também mencionou a atuação em defesa de um policial que matou uma criança de cinco anos. Essas referências foram apresentadas pelo presidente como razões para o eleitor examinar a trajetória do candidato.

Disse acreditar em uma vitória no primeiro turno, mas afirmou que respeitará o resultado das urnas. Ao orientar a escolha, pediu que cada pessoa pense no país em que deseja viver.

“Eu vou votar no Brasil que eu sonho”, disse, reproduzindo a reflexão que propôs aos eleitores.

Vorcaro: investigar todos

Sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master, Lula defendeu uma investigação que alcance todos os envolvidos, inclusive autoridades. Disse que a dimensão do caso exige esclarecimentos públicos e rejeitou qualquer proteção baseada no cargo ocupado.

“Não tem proteção do presidente da República ao ministro da Suprema Corte, ao deputado, ao senador. É preciso investigar todo mundo.”

A cobrança foi resumida em outra frase: “Investigar doa a quem doer”.

Questionado sobre ter recebido Vorcaro, Lula afirmou que houve um encontro de meia hora. Segundo seu relato, o banqueiro alegou sofrer perseguição política. O presidente disse ter respondido que o Banco Central deveria investigar e que eventuais irregularidades teriam consequências.

“No meu governo não tem perseguição política”, afirmou ter dito ao empresário.

STF deve explicações

Lula defendeu a autonomia dos poderes e disse que não indica ministros para receber favores. Ao ser cobrado por Igor sobre decisões de integrantes do STF, afirmou que não interfere em julgamentos e que também deve ser investigado caso cometa erros.

“Eu não indico ninguém em cargo nenhum para me fazer favor.”

Ao mesmo tempo, criticou disputas públicas entre ministros e cobrou explicações sobre as suspeitas relacionadas ao Banco Master. Disse ter falado diretamente com Alexandre de Moraes sobre a necessidade de esclarecer o contrato do escritório de sua mulher.

“Você deve uma explicação à sociedade brasileira”, relatou ter dito ao ministro.

Lula propôs discutir mandatos para integrantes da Corte e um conselho com participação da sociedade civil para a escolha de ministros. Também afirmou que a função exige compromisso com o serviço público.

“Quem quiser ir para a Suprema Corte não pode querer ser rico.”

Janja e a violência contra mulheres

Ao falar de Janja, Lula contou uma cena da rotina do casal: durante o café da manhã, ela lê notícias de mulheres assassinadas e se emociona. Segundo o presidente, essas conversas ajudaram a levá-lo a assumir mais diretamente o enfrentamento ao feminicídio.

“Me ajuda muito”, respondeu quando Igor perguntou sobre a contribuição da primeira-dama nas políticas para as mulheres.

Lula relatou ter reunido os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para um pacto contra a violência. Também falou de medidas de proteção e da necessidade de garantir renda para mulheres que precisam se afastar do trabalho para escapar de um agressor.

“Isso chama-se proteção de mulher.”

Bets e dinheiro para viver

O combate às apostas apareceu por meio de histórias de pessoas que Lula disse ter ouvido. Relatou o caso de um empresário que vendeu o comércio e um terreno do pai para pagar dívidas, de uma comerciante que jogava escondida do marido e de uma mãe que perdeu o filho.

“Eu não tinha noção da gravidade do problema. Eu suspeitava, mas não tinha noção”, afirmou.

O presidente disse ter decidido enfrentar as bets apesar da resistência de setores que lucram com as apostas. Igor questionou o momento da medida, perto das eleições, e Lula sustentou que precisava agir diante dos danos às famílias.

Na discussão sobre economia, relacionou renda popular ao movimento do comércio e à geração de empregos. Para explicar, falou do trabalhador que recebe um dinheiro a mais e compra pão ou um caderno para o filho.

“Muito dinheiro na mão de poucos é pobreza. Pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza.”

Também comentou o endividamento, os juros do cartão de crédito, a recuperação de valores descontados de aposentados e as emendas parlamentares. Sobre o orçamento, disse que pretende mudar a relação com o Congresso: “O poder Legislativo legisla, o poder Judiciário julga e o governo governa”.

As lições de dona Lindu

Nas lembranças pessoais, Lula voltou à casa tomada pela enchente, à marmita de arroz com feijão e às caminhadas até a fábrica. Disse que as dificuldades não o tornaram uma pessoa amarga.

Ao falar de caráter, recuperou uma lição de sua mãe, dona Lindu, que morreu aos 65 anos. Hoje mais velho do que ela chegou a ser, o presidente disse carregar esse ensinamento como um orgulho.

“Meu filho, caráter e dignidade a gente não aprende na escola e a gente não compra em supermercado.”

A lembrança se juntou ao agradecimento aos brasileiros que confiaram em alguém com uma origem parecida com a deles para governar o país.

“O povo pobre ter descoberto que era possível eleger um cara como eles para ser presidente é ter muita coragem.”