Mobilização marcada para 7 de setembro chega à 32ª edição com lema que coloca a vida das mulheres, os direitos sociais e a autodeterminação do país no centro do debate
O Grito dos Excluídos e Excluídas realiza sua 32ª edição no próximo 7 de setembro. Com o tema permanente “Vida em Primeiro Lugar!”, a mobilização deste ano será orientada pelo lema “Na defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: Mulheres Vivas e Soberania!”.
O Grito acontece em todo o país, no Dia da Independência, reunindo movimentos populares, sindicatos, pastorais, igrejas, entidades e grupos comprometidos com as lutas sociais. A mobilização propõe uma reflexão sobre a independência brasileira a partir das condições de vida do povo, do direito à participação política e da defesa de uma sociedade mais justa, solidária, plural e fraterna.
Atos já estão confirmados
Em São Paulo (SP), o ato será realizado na Praça da Sé, com concentração e atividades programadas das 9h às 11h30.
Em Brasília (DF), a manifestação foi programada para iniciar às 10h, na Praça Zumbi dos Palmares (em frente ao CONIC), com pauta voltada contra o feminicídio e o déficit habitacional.
Em Vitória (ES), a concentração está marcada para as 8h no Parque do Portal do Príncipe (em frente à Rodoviária da Capital), de onde os manifestantes seguirão em caminhada até o Palácio Anchieta.
Em Curitiba (PR), organizado pela Frente de Lutas, o ato está marcado para a Praça Tiradentes, começando a partir das 14h30.
Símbolos
A escolha do lema é resultado de debates realizados ao longo do ano pela rede de articuladores e articuladoras do Grito, presente em todas as regiões do Brasil. Em 2026, foram promovidos três encontros nacionais on-line para a troca de experiências e o acompanhamento das articulações nos estados. Um novo encontro está previsto para 31 de outubro, com o objetivo de avaliar a edição deste ano e dar continuidade à preparação da mobilização seguinte.
O lema dialoga com a Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a conjuntura política, social e econômica nacional e internacional e com as reivindicações históricas dos movimentos populares. A proposta é chamar atenção para os rostos e as realidades em que a vida está mais ameaçada: os conflitos por terra, a falta de moradia, a violência contra as mulheres, as guerras e as pressões sobre a soberania dos povos.
A referência às “Mulheres Vivas” dá visibilidade à violência que atinge mulheres em todo o país. O material de preparação do Grito aponta que mais de 1.500 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2025. A mobilização busca colocar essa realidade no centro do debate, ao lado das desigualdades de raça, renda e gênero que atingem de forma mais dura mulheres negras, periféricas, camponesas, indígenas e chefes de família.
Origem do Grito
A proposta do Grito dos Excluídos e Excluídas surgiu em 1994, a partir da 2ª Semana Social Brasileira da CNBB, que teve como tema “Brasil, alternativas e protagonistas”. A iniciativa também foi inspirada pela Campanha da Fraternidade de 1995, cujo tema foi “A fraternidade e os excluídos”.
O primeiro Grito foi realizado em 7 de setembro de 1995, com o lema “A vida em primeiro lugar”. A escolha da data teve como objetivo fazer um contraponto ao Grito da Independência oficial e provocar uma reflexão sobre quem, de fato, tem acesso aos direitos e à riqueza produzida no país.
Para as organizações que constroem a mobilização, o 7 de setembro não deve ser apenas uma data de celebração. É também um momento de consciência política, reivindicação e luta. A proposta é superar um patriotismo passivo e fortalecer uma cidadania ativa, capaz de participar das decisões sobre os rumos do Brasil.
A partir de 1996, o Grito foi assumido pela CNBB e aprovado em Assembleia Geral como parte do Projeto Rumo ao Novo Milênio. Desde então, consolidou-se como um processo coletivo que ocorre antes, durante e depois dos atos de setembro.
Mais do que um evento anual, o Grito é construído nas comunidades, nos locais de trabalho, nas periferias, no campo e nas organizações populares. Seu caráter é ecumênico e sua atuação está ligada às lutas por direitos, dignidade e participação social.
Terra e moradia
A edição de 2026 coloca a terra e a moradia entre suas prioridades. No campo, a mobilização denuncia a violência contra povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, camponeses e trabalhadores rurais, além dos conflitos provocados pela disputa por terras e água.
Dados da Comissão Pastoral da Terra apontam que o Brasil registrou 1.593 conflitos no campo em 2025. Os conflitos por terra corresponderam a 75% das ocorrências. No mesmo ano, 26 pessoas foram assassinadas em situações relacionadas aos conflitos rurais, o dobro do número registrado em 2024.
Nas cidades, o Grito chama atenção para o déficit habitacional, o crescimento dos aluguéis e a expulsão de famílias de baixa renda das áreas mais estruturadas. Dados da Fundação João Pinheiro apontam um déficit de 5,97 milhões de domicílios no país, enquanto outros 27,6 milhões apresentam inadequações, como infraestrutura precária, excesso de moradores ou insegurança na posse da terra.
A defesa da moradia também é uma defesa do direito à cidade. Os movimentos questionam a especulação imobiliária e a transformação da habitação em mercadoria, que torna cada vez mais difícil para as famílias trabalhadoras viverem perto de serviços públicos, emprego, escola, saúde e transporte.
Paz e soberania
O Grito também relaciona a luta por direitos à defesa da paz e da soberania nacional. Para a mobilização, a soberania envolve o direito de o povo brasileiro decidir seus próprios caminhos econômicos, políticos e sociais, sem interferências externas ou submissão dos bens naturais aos interesses do mercado.
O debate inclui a proteção da democracia, da água, da terra, do petróleo e de outros recursos estratégicos do país. Também reafirma a defesa da autodeterminação dos povos, da integração latino-americana e da paz diante das tensões e guerras que atingem diferentes regiões do mundo.
A Coordenação Nacional do Grito reúne 21 organizações, entre movimentos populares, sindicatos, pastorais e entidades. Integram esse espaço, entre outras, a CUT, a CNTE, a Comissão Pastoral da Terra, o MST, o MAB, a Central dos Movimentos Populares, a Pastoral Operária Nacional e o Serviço Pastoral dos Migrantes.
Ao chegar à 32ª edição, o Grito dos Excluídos e Excluídas reafirma que independência, democracia e soberania só fazem sentido quando se traduzem em direitos concretos. No 7 de setembro, a mobilização volta às ruas para defender que a vida esteja, de fato, em primeiro lugar.